2010: começo, meios e fins do tri brasileiro

2010: começo, meios e fins do tri brasileiro

O Campeonato Mundial masculino da Itália de 2010 prometia uma disputa acirrada entre Brasil, EUA e Rússia, mas se tornou uma vitória do Brasil sobre suas próprias assombrações.

Do time titular do bicampeonato de 2006 e do vice-olímpico de 2008, o Brasil não tinha mais os titulares Gustavo, André Heller, Serginho, André Nascimento e Ricardinho. Para completar, Giba atravessava uma fase ruim – relegado à reserva, parecia ajudar mais nos tempos técnicos do que dentro de quadra. No entanto, o retrospecto recente ainda era favorável ao time de Bernardinho.

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Guia do Mundial masculino – Grupo B

Os títulos das Ligas Mundiais de 2009 e 2010 davam à Seleção Brasileira confiança de que fosse possível frear o crescimento da seleção russa e derrotar os norte-americanos, campeões olímpicos. Não haveria favoritismo brasileiro como de outras vezes, mas a promessa era de que houvesse alguma vantagem da equipe numa eventual disputa com os dois gigantes.

Contudo, já às vésperas do início do torneio, um problema clínico desfalcou a Seleção. Com suspeita de estar acometido pelo Mal de Crohn, doença crônica que causa inflamação no intestino, Marlon estava praticamente fora da disputa. O Brasil, sem poder substituí-lo e sem ter convocado um terceiro levantador para o campeonato, teria de contar apenas com Bruno para a posição. Era um problema tático incontornável para um time habituado a fazer inversões do cinco-um, e que poderia ter sido também um problema técnico, pois Marlon foi o titular da Seleção na reta final da Liga.

Marlon

Desfalque à parte, o Brasil começou o torneio na Itália com duas vitórias sobre a Tunísia e sobre a Espanha e uma derrota para Cuba, em cinco sets.

É bem verdade que Rússia e EUA passaram invictos pelas primeiras rodadas, mas a necessidade da Rússia de vencer Porto Rico num tie break, assim como os EUA precisaram de cinco sets para baterem o México, era demonstração de que o perigo para o tricampeonato estava no Caribe.

2010 Cuba

Com uma equipe bastante jovem, em que só um jogador tinha mais de 30 anos de idade, Cuba apoiava seu jogo no central Simón, no oposto Hernandez e nos ponteiros León e Leal – León, aliás, tinha só 17 anos. A vitória sobre o Brasil, com 2h21 de jogo e 52 pontos somados de Hernandez e León mostrou a força da juventude cubana. Força que pouca gente teria disposição para enfrentar nas fases mais agudas do torneio.

O regulamento do mundial de 2010 previa três fases de grupos, sem resultados acumulados, semifinal e final. Virou uma maratona. Primeiro, as 24 seleções se dividiram em seis grupos. Os três primeiros avançaram. Na segunda fase, os 18 times eram dispostos em seis grupos de três, com os dois melhores passando à terceira. Neste round, com quatro grupos, só os campeões avançavam às semifinais.

Assim, a terceira fase se revelava um buraco negro para os favoritos, um estágio onde apenas um entre três passariam adiante, o que trouxe problemas de ordem desportiva para a fase imediatamente anterior.

Especial Mundiais de Vôlei

Cuba começou a segunda fase perdendo para a Sérvia por 3 sets a 1. Com a imensa probabilidade de os cubanos avançarem na segunda posição, havia uma chance tremenda de que um dos grupos da terceira fase contasse com Cuba, Rússia e Brasil – caso estes se classificassem com a primeira posição de seus grupos. Esportivamente falando, uma chave dessas ia, até, jogar sombra sobre os grupos restantes, seria um duelo de três titãs por uma vaga apenas. Seria.

Depois de vencerem a Polônia por 3 a 0, Brasil e Bulgária se enfrentaram no sábado, dia 2 de outubro, para definirem quem avançaria em primeiro ou segundo. Diante da perspectiva de enfrentar o time de León ou de jogar contra Alemanha e República Tcheca, prêmio para o segundo, a opção derradeira parecia mais atraente.

A Bulgária poupou titulares, inclusive, Kaziyski e Nikolov, os melhores do time, além de ter deixado fora o líbero titular, Salparov. O Brasil não fez por menos: deixou Murilo, que seria eleito MVP do campeonato, fora do jogo, e escalou Théo, oposto reserva, como levantador. O resultado foi lamentável.

Quando a torcida percebeu que os dois times estavam pouco interessados em vencer, a torcida em Ancona se manifestou de modo hostil. A vitória da Bulgária por 3 a 0 não deixou dúvida sobre quem se esforçou mais para perder. A imprensa brasileira criticou a atitude da Seleção. A torcida se dividia entre criticar a fórmula do campeonato e a derrota premeditada. E o Brasil, se escolheu os adversários da terceira fase, tinha agora obrigação de vencê-los. Contudo, uma atitude similar à dos brasileiros passou quase despercebida.

2010 mikhailov luserskiy

Na véspera desse Brasil x Bulgária, a Rússia vencia a Espanha por 2 sets a 0, quando resolveu tirar de quadra quatro titulares – Muserskiy e Mikhaylov entre eles. Com efeito, a derrota por 3 sets a 2 tirou os russos da liderança de sua chave e os colocou longe de um confronto prematuro contra Cuba.

Entretanto, só a escolha do Brasil se revelou acertada – pelo menos, em termos de resultado. O Brasil sofreu, mas venceu a surpreendente Rep. Tcheca por 3 a 2 (os tchecos tinham vencido os norte-americanos na segunda fase, por 3-0) e venceu também a Alemanha em três sets. Os russos, por sua vez, caíram para a Sérvia em quatro sets e foram eliminados.

Cuba também passou às semifinais, com uma vitória mais suada do que o esperado contra a Bulgária.

O outro time classificado às semis foi a Itália.

2010 italia masc

Depois de vida fácil nas duas primeiras fases, a Itália venceu EUA e França, sempre em quatro sets, e voltou a figurar entre os quatro melhores de um mundial, depois de 12 anos. Enfrentaria o Brasil.

Se Marlon começara a voltar aos poucos à Seleção nos jogos da terceira fase, sua atuação nas semifinais foi fundamental.

Contra um ginásio lotado e contra a única seleção invicta restante no mundial e com o time ainda sendo apupado por conta da partida contra a Bulgária, os brasileiros não tiveram dificuldade no primeiro set para fechar em 25-15. Nos dois sets seguintes, mesmo com uma vitória brasileira na segunda parcial, o jogo enroscou. Bruno deu lugar a Marlon, que foi titular nos dois sets derradeiros, e que conduziu o time na vitória em quatro sets. Leandro Vissotto, que não começou bem o mundial, fez 24 pontos, foi o anotador máximo da partida.

Na outra semifinal, Cuba venceu a Sérvia em cinco sets, com direito a uma virada decisiva no tie break. Vinte anos depois, Cuba estava de volta a uma decisão de campeonato mundial. À Sérvia, o consolo de conquistar a medalha de bronze, contra a Itália.

Depois de uma vitória cubana na primeira fase e de jogos semifinais bastante disputados, a decisão foi um passeio do Brasil. Cuba pagou o preço de sua juventude e não teve chance contra uma seleção brasileira em seu melhor dia.

Com parciais de 25-22, 25-14, 25-22, o Brasil sagrou-se tricampeão mundial masculino de vôlei. Doze anos depois, o feito italiano dos três títulos consecutivos estava igualado.

 2010 Brasil

Se em 1990, a Itália venceu o primeiro de seus títulos no Brasil, derrotando o time da casa nas semifinais e Cuba, na decisão, o Brasil foi tricampeão, em 2010, na Itália, passando pelo time da casa nas semifinais e por Cuba, na final. Com tantos questionamentos e contratempos, é difícil saber se a História vai exaltar o time que ganhou o mundial jogando quase o tempo todo com só um levantador no elenco ou se vai criticar a seleção que preferiu a matemática ao esporte teve uma derrota conveniente quando ainda era possível.

O fato é que as estatísticas vão registrar, para sempre, que o Brasil conquistou na Itália seu terceiro título mundial de voleibol, o terceiro consecutivo, o terceiro com Bernardinho. Um título provável conquistado de maneira improvável.