A Era Bernardinho: o suor que virou ouro

A Era Bernardinho: o suor que virou ouro

Vai ser preciso algum distanciamento histórico para entender corretamente o período de Bernardinho à frente da Seleção masculina do Brasil, ainda mais porque esse tempo subsiste. Certo, porém, é que não dá para chamar de uno todo o período do treinador no comando do time.

Seriam possíveis algumas esquematizações para dividir o tempo de Bernardinho à frente do time: de acordo com os ciclos olímpicos, ou antes e depois do crescimento da Seleção Russa, ou de acordo com os protagonistas do time. Seja como for, o fato é que não se pode incluir seus até aqui 13 anos de comando no mesmo baú de memórias.

Talvez o mais correto seja pensar na Seleção Brasileira de 2001 a 2007 como distinta de depois em diante. Se esses últimos sete anos, com duas pratas olímpicas, duas Ligas Mundiais e um título mundial, podem ser havidos como excepcionais, os primeiros seis anos de Bernardinho na Seleção masculina fizeram daquele time, provavelmente, a maior seleção que o esporte brasileiro já concebeu.

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Em 2002, o mundial feminino teve surpresa

Nos anos 80 a Geração de Prata colocou o Brasil no mapa do vôlei e na década de 90 uma seleção jovem surpreendeu o mundo, o time dos primeiros anos do novo milênio dominou o esporte, monopolizou o vôlei. Os anos da Itália à frente do vôlei foram, campeonato a campeonato, sendo ultrapassados até parecer que pertenciam a um passado remoto ou lendário ou esquecido.

Até 2001, só a Itália, com oito troféus, tinha mais de um título da Liga Mundial. Foi quando o Brasil, na Polônia, bateu a própria Itália na decisão e quebrou um jejum de oito anos sem vencer o torneio. O triunfo credenciava a Seleção ao título mundial do ano seguinte, na Argentina, e ao terceiro troféu da Liga, no Brasil.

Entretanto, a Seleção Russa calou o Mineirinho, conquistando a Liga Mundial de 2002 contra a Seleção Brasileira, numa vitória por 3 a 1. Era um sinal inequívoco de que o Brasil não teria vida fácil no campeonato mundial da Argentina.

Na segunda rodada da primeira fase, o Brasil sofreu um revés contra os EUA. Não era nada que comprometesse a classificação, pois os dois times não tiveram muito trabalho para eliminar Venezuela e Egito, mas punha um ponto de interrogação sobre a trajetória daquele time no torneio. Entretanto, uma segunda fase sem sets perdidos contra França, Rep. Tcheca e Holanda devolveu ao Brasil a confiança necessária para os confrontos que viriam em seguida.

Nas quartas de final, o adversário do Brasil foi a então tricampeã do mundo Itália. O duelo entre os dois times nessa fase só foi possível porque, no jogo anterior, a Itália perdera sua invencibilidade contra a Argentina e terminou a segunda fase em segundo lugar.

A memória recente do confronto contava a história das semifinais de 1990 e 1998 vencidas pelos italianos. Entretanto, a exemplo do que houve na Liga Mundial de 2001, a Itália teve sua sequência de conquistas interrompida pela Brasil.

2002 Brasil Italia

Numa partida em que o Brasil cometeu 48 erros e a Itália, 46, o time de Bernardinho precisou do tie break para avançar às semifinais. Com parciais de 25-23, 25-23, 23-25, 26-28, 15-13, o Brasil frustrou o sonho do tetracampeonato italiano. Ia encarar, agora, a Iugoslávia, atual campeã olímpica.

Dos quatro semifinalistas (Rússia e França se enfrentaram na outra partida), a Iugoslávia era a única invicta. Vencera, inclusive, os EUA, na segunda fase, time que foi capaz de vencer o Brasil no início do torneio. Definitivamente, não seria jogo fácil. E não foi.

2002 Brasil Iugoslávia

Com parciais mais uma vez muito equilibradas, o Brasil suou o uniforme para bater a Iugoslávia. Vencendo os sets sempre com a vantagem mínima, a exemplo do que ocorrera contra a Itália, o Brasil fez 26-24, 22-25, 27-25, 25-23. Apesar da derrota no segundo set, a escalação de Ricardinho em lugar de Mauricio e de Anderson no posto de André Nascimento naquela parcial foi fundamental no restante da partida, bem como nos sets decisivos da final. E isso, apesar de Mauricio ter sido, estatisticamente, o melhor levantador do campeonato.

Na outra semifinal, a Rússia eliminou a França em 3 sets a 2. Foi o melhor campeonato mundial do vôlei francês, que conquistou a medalha de bronze sobre a Iugoslávia, e a primeira vez em que a Rússia chegava a uma decisão de campeonato mundial desde a cisão da URSS.

2002 Rússia França

Coincidentemente, o último título russo-soviético havia sido na Argentina, 20 anos antes, contra o Brasil, no mesmo Ginásio Luna Park. Porém, o retrospecto que importava mais é que dois meses antes a Rússia tinha se sagrado campeã da Liga Mundial, justo contra o Brasil.

A partida teve contornos de drama, como foi comum à Seleção Brasileira nos mata-matas daquele ano. Depois de perder o primeiro set por 25-23, o Brasil empatou a partida, no segundo, com um 27-25. O terceiro set foi o mais folgado, com vitória brasileira por 25-20, mas os dois últimos sets foram de dramáticos.

2002 Brasil Rússia

Os russos levaram o jogo para o tie break, com uma vitória por 25-23 no quarto set. Mas, na parcial decisiva, com o Brasil abrindo e a Rússia empatando, Giovane decidiu. Ele entrou no lugar de Anderson naquele set como oposto, desempatou em 14-13 num ataque pela saída de rede e, num ace, fechou o jogo. Foram 2h01min de jogo, com Nalbert marcando 23 pontos para o Brasil e Tetiukhine, 22 para os vice-campeões.

O vídeo tem os pontos finais do segundo set, uma sequência do terceiro e do quarto, e o tie break na íntegra. A festa brasileira pelo título é tamanha, que os jogadores esquecem o protocolo dos cumprimentos pós-jogo.

2002 Brasil Rússia comemoração

Foi o título mundial de Giba, Nalbert, Giovane e Dante no mesmo elenco – provavelmente, o melhor conjunto de ponteiros passadores da história. Os quatro também conseguiram a medalha de ouro em Atenas, com Dante jogando como titular em lugar de Nalbert, prejudicado, em 2004, por uma contusão. Nalbert e Giovane nunca mais jogaram nenhum torneio dessa envergadura: Giovane deixou a Seleção logo depois daquelas Olimpíadas, e Nalbert não participou de outro mundial ou olimpíada. Restou, do quarteto fantástico, Giba e Dante para tentarem o bi em 2006, no Japão.

Outro campeão de 2002 que também deixou a Seleção depois do título olímpico foi Mauricio. Mas a mudança não foi tão sentida, pois Ricardinho já lhe havia tirado o posto de levantador titular do time.

Entre os mundiais da Argentina e do Japão, o Brasil conseguiu um feito ainda não igualado: venceu as quatro Ligas Mundiais disputadas no período, além da Copa do Mundo de 2003, as Olimpíadas de Atenas e a Copa dos Campeões de 2005. Favoritismo amplo, geral e irrestrito para o Brasil, no Campeonato Mundial de 2006.

Mas, na terceira rodada da primeira fase, um susto. Ou, como Giba definiria depois, um “tapa na cara”. Vice-campeã da Liga Mundial daquele ano, a França venceu o Brasil, de virada, por 3 a 1. Depois do tapa, o Brasil venceu os dois jogos restantes da primeira fase e os quatro da segunda fase, inclusive, contra a Itália (3 a 0) e a Bulgária (3 a 1), seleção que assustava pelos saques de Kaziyski e Nikolov, mas preferiu poupá-los de boa parte do confronto.

Especial: Mundiais de Vôlei

Com oito vitórias e uma derrota, o Brasil se classificou para as semifinais, juntamente com a Bulgária, mas com a melhor campanha.

Na outra chave, a Polônia e Sérvia e Montenegro foram os sobreviventes. A Rússia teve sua campanha frustrada por uma derrota para os sérvios na primeira fase e outra, de virada, para os poloneses, na segunda: a Rússia vencia por 2 a 0 e permitiu a reação dos rivais, que, assim, mantiveram a invencibilidade na competição.

Os jogos semifinais ficaram definidos em Polônia vs Bulgária e Brasil vs Sérvia e Montenegro. Os poloneses definiram a classificação com uma vitória em quatro sets, o mesmo valendo para o Brasil.

Não tivesse o Brasil a geração que tinha, era provável que Iugoslávia/Sérvia e Montenegro, derrotados nas finais da Liga Mundial de 2003 e 2005, tivesse conquistado ao menos um troféu do torneio. Porém, com parciais de 25-19, 15-25, 25-22, 25-12, o Brasil foi novamente calo no sapato báltico e estava, mais uma vez, na final.

Se para ganhar o mundial de 2002 foram algumas necessárias mudanças no time titular nas rodadas decisivas, para 2006, o conjunto estava tão afinado que o único reserva que ganhou vaga no time principal foi André Heller, a partir da quarta rodada, no lugar de Rodrigão.

2002 Brasil Polônia Heller

Sem precisar efetuar nenhuma substituição em toda a partida, o Brasil liquidou a fatura contra a Polônia em 3 a 0, com parciais de 25-12, 25-22, 25-17. A imagem do vídeo tem problemas a partir do fim do terceiro set, mas nada que comprometa o registro do bicampeonato do Brasil.

Quando ganhou o Campeonato Mundial pela primeira vez, o Brasil precisou vencer, em sequência, os times atuais campeões do mundo, olímpicos e da Liga. Mas quando venceu o mundial pela segunda vez, o Brasil também era o atual detentor de todos os troféus oferecidos pela FIVB. O domínio se estendeu até o ano seguinte, quando o Brasil venceu a Liga Mundial na Polônia com o mesmo time e a Copa do Mundo já sem Ricardinho, afastado do time na preparação para o Pan do Rio de Janeiro.

Depois de 2007, o Brasil viu EUA e Rússia contestarem sua hegemonia e, até, suplantá-la às vezes. Mas a consistência daquela Seleção Brasileira, a reunião de jogadores talentosos e os resultados daquele time, isso é tão difícil, que chega a ser pedir demais até mesmo para o time que Bernardinho comanda hoje.

 2006 Brasil comemoração