A muralha da China e o último troféu soviético

A muralha da China e o último troféu soviético

Havia um certo equilíbrio entre as forças do vôlei feminino dos anos 80. Peru, Cuba, EUA e Japão eram times que impunham grande respeito, decidiam campeonatos e, aqui e ali, embarcavam de volta carregando alguma medalha a bagagem. Mas não foram adversários capazes de parar a China em seus melhores anos. Essa tarefa só foi cumprida, mesmo, pelas soviéticas.

Se as olimpíadas sofriam com duros boicotes, nos campeonatos mundiais e copas do mundo era possível ver, na mesma quadra, capitalistas e comunistas argumentando com vôlei e decidindo o destino das medalhas em cortadas e bloqueios duplos ou triplos, mas nunca econômicos. Por um ironia dos deuses do esporte, coube à única nação comunista manifestamente contrária à URSS o estandarte do melhor voleibol da década.

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Quando o Tio Sam dominou o vôlei

A China boicotou as Olimpíadas de Moscou e viu, da fronteira com a Sibéria, a terceira medalha de ouro da URSS. Mas, deixa estar. Já no ano seguinte, a China venceu a Copa do Mundo e iniciou um domínio que duraria ainda alguns anos.

No mundial de 1982, no Peru, as chinesas foram vencedoras, ao passo que as campeãs olímpicas ruíram, terminaram em sexto lugar, com quatro derrotas em oito jogos. Em 1984, o boicote soviético impediu que as meninas de Karpol vissem, do outro lado da rede, o primeiro título olímpico chinês num esporte coletivo. Mas, em 1985, as soviéticas estavam lá, no Japão, para verem mais um triunfo do time de Lang Ping, o “Martelo de Ferro”.

Lang Ping

A China venceu a Copa do Mundo e Lang Ping, eleita melhor jogadora do torneio, se despediu da seleção, com apenas 25 anos de idade. Perder a principal jogadora poderia ser motivo para questionarem o poderio da China no mundial de Tchecoslováquia, em 1986. Contudo, o biscoito da sorte indicava o bicampeonato das asiáticas.

O torneio disputado pela China foi arrasador. Oito vitórias em oito jogos, apenas dois sets perdidos. Passou incólume por quem apareceu pela frente. A URSS, noutro campeonato ruim, ficou longe até do pódio. O time da foice e do martelo perdeu duas partidas na primeira fase – para a China e Alemanha Oriental – e terminou o campeonato de 1986 na mesma posição de quatro anos antes, com direito a uma derrota para o Brasil na partida que valia o quinto lugar. Assim, as brasileiras repetiram sua melhor classificação na história, até ali.

O Brasil teve um grupo complicado pela frente. Já nos dois primeiros jogos, perdeu para Cuba e Peru. A derrota para Cuba tem registro no Youtube. A título de curiosidade, Lica, a número 5 do Brasil – Eliani da Costa, como diz o narrador peruano – é hoje atriz global.

O certo é que o Brasil perdeu para os dois times que mais se aproximaram das campeãs. Cubanas e peruanas, que passaram pelo Brasil nas rodadas iniciais, escoltaram as chinesas no pódio. O jogo entre os dois times, sem que disso talvez suspeitassem, foi decisivo.

A vitória de Cuba em cinco sets, no clássico das morenas, ainda que na primeira fase, foi fundamental para as duas seleções definissem a cor de suas medalhas.

Com esse resultado sendo acumulado para segunda fase, as Morenas do Caribe passaram às semifinais com a primeira posição da chave, para encarar a Alemanha Oriental. Por outro lado, o Peru, derrotado pela China na final de 1982, veria repetir-se o duelo nas semifinais na Tchecoslováquia. E o resultado se repetiria também.

A vitória de Cuba sobre as alemãs orientais foi o limite para as caribenhas. O time, que contava com as jovens Mireya Luis e Carvajal, caiu para a Seleção Chinesa, mesmo há um ano sem Lang Ping.

O vídeo da vitória das campeãs mundiais e olímpicas por 3 sets a 1 (15-6, 15-7, 10-15, 15-9) só não tem o segundo set.

Se parecia que o domínio das meninas da China perduraria por muitos anos ainda, pois o time campeão de 1986 já apresentava renovação em relação ao de 1984, as aparências engaram. Depois de vencer o Mundial daquele ano, a China tinha dois desafios de peso pela frente: as Olimpíadas de Seul/88 e o campeonato mundial em casa, em 1990. Porém, teve de encarar um adversário com um apetite danado.

Foi com o poderio ofensivo de Irina Smirnova-Ilchenko e aos berros de Nikolay Karpol que a URSS conquistou a medalha de ouro em Seul. Se a decisão contra o Peru foi um sufoco danado, em que o time precisou virar um 0 a 2 em sets e teve de bloquear um ataque de Gabriela Del Solar, num match point, as semifinais contra a China foram um passeio para as soviéticas.

Irina Ilchenko

Sem dó nem piedade, a URSS fez 3 a 0 contra a China, com direito a um 15-0 no segundo set. A China ainda conseguiu a medalha de bronze olímpica, mas estava claro que seu jogo fora suplantando – ainda mais quando, no ano seguinte, Cuba venceu a Copa do Mundo, seguida pela URSS e pela China, novamente terceira.

Assim, para receber o mundial feminino de 1990 e tentar, em casa, o tri, a China buscou reforço num passado não muito remoto. Lang Ping, que fora, entre 1987 e 89, assistente técnica de um time universitário nos EUA, voltou a defender o uniforme da seleção de seu país, depois de cinco anos ausente. O apelo de jogar um campeonato mundial em Pequim deve ter sido enorme. Vencer, nessas circunstâncias, era fundamental.

Os campeonatos feminino e masculino daquele ano tiveram regulamento modificado em relação aos torneios anteriores. Os 16 times se agruparam em quatro chaves de quatro seleções, com as três primeiras colocadas se classificando para os mata-matas. Nas oitavas de final, segundo de um grupo enfrenta o terceiro de outro. Os vencedores avançaram às quartas, onde jogaram contra algum primeiro colocado da primeira fase – os campeões de cada chave, nas oitavas, jogaram uma partida contra outro time primeiro colocado, mas só para definir o chaveamento da fase seguinte em diante. Aí, nas quartas de final há outro confronto eliminatório e assim até a final. Esse sistema vigorou nos mundiais de 1990 e 1994.

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Na primeira fase, China, URSS, Cuba e EUA venceram, invictos, seus grupos. O Brasil precisou jogar as oitavas de final contra a Itália e venceu por 3 a 0. Num jogo para definir o emparceiramento das quartas, a China fez 3 a 0 na URSS. Com isso, as soviéticas estariam no caminho das brasileiras e as chinesas, no destino das peruanas.

A URSS passou sem grandes atropelos, por 3 a 1. O atrevimento brasileiro de vencer o primeiro set foi punido no segundo, com uma parcial de 15-0.

Já o Peru cumpriu sua triste sina e foi, de novo, eliminado de um mundial pela China. A grande vitória daquela geração peruana sobre as chinesas foi na primeira fase das Olimpíadas de Seul, por 3 a 2. No mais, a China frustrou a geração peruana na decisão do mundial de 1982, nas semifinais do de 1986 e nas quartas de final de 1990, sempre em 3 a 0.

Com as vitórias de Cuba e EUA, respectivamente, contra Coreia do Sul e Japão, as semifinais de 1990 tinham, apenas, as primeiras colocadas da primeira fase.

Em seu sexto jogo no mundial, a China repetiu o placar das outras cinco partidas e fez 3 a 0 contra os EUA. As parciais de 15-7, 15-8, 15-7 mostram que a partida não foi das mais difíceis. O troféu estava a apenas uma vitória de distância.

Só que o tricampeonato passaria, obrigatoriamente, por um embate contra a URSS. As soviéticas venceram as cubanas nas semifinais e estavam aptas a retomar o título que não conquistavam desde 1970.

Se num jogo meramente classificatório a China fez 3 a 0, o jogo final começou com a URSS fazendo 15-13 no primeiro set. A China se refez da primeira parcial perdida com um 15-6 no segundo. Mas, no terceiro, as soviéticas retomaram a dianteira, com 15-9.

Então, num dramático quarto set, a URSS fechou em 16-14 e levou o troféu para Moscou. Foi o último jogo de Lang Ping. Foi o último campeonato da URSS, que se esfacelou um ano depois.

A História determinou que aquele quinto título mundial fosse também o último do vôlei da União Soviética, o vôlei mais vitorioso do século e, ainda hoje, da história. Sua herdeira mais próxima, a Seleção Russa, ficaria um bom tempo na fila, à espera de um troféu dessa estatura. E a culpa disso, em muito, se deve às Morenas do Caribe, que deram pouca chance à concorrência na década que chegava.

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  1. Só tem um erro, não foi o ultimo torneio vencido pela URSS, elas levaram em 91 o campeonato Europeu. Na Copa do Mundo 91 elas perderem o titulo justamente quando perderem de 3×1 pra China mesmo que depois tenham ganhado de 3×0 da campeã Cuba