Aluga-se vôlei

Aluga-se vôlei

Um dia, um raro torcedor do vôlei do Al-Rayyan dirá aos netos que se lembra daquele time que foi às semifinais de um mundial no Brasil – pode ser que, até sábado, as memórias do futuro ancião sejam turbinadas por uma vaga na final ou mesmo por um título. Os garotos – pois se não se interessassem por vôlei, o assunto não entraria na conversa com o avô – deverão se espantar com o fato e ficarão meio confusos quando pensarem que o Qatar não conseguia formar uma seleção que disputasse olimpíada.

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O velhinho dirá que o time foi mais importante do que o vôlei nacional em si e vai elencar uns quatro ou cinco times, neste e naquele esporte, noutro e neste período, que formaram linhas mais fortes que suas seleções nacionais. Pode ser, até, que mencione o Trentino, que vencia campeonatos europeus e do mundo, num tempo em que a Azzura tinha se desacostumado a conquistar títulos.

Nisso, os meninos vão achar estranho que nem na Ásia o vôlei do país estivesse entre os melhores ou, mesmo, fosse razoável, mas não questionarão o ascendente a esse respeito. Afinal de contas, o homem puxou o assunto para falar do Clube, não da Seleção. Se o selecionado qatari não acompanhou o Al-Rayyan, azar: só quem era apaixonado pelo clube, naqueles 2014, é que vibrava; aos outros, o sofrimento ou a inveja, eles que escolhessem. Melhor voltar a conversa ao clube.

O mais astuto, então, pergunta como foi, então, a conquista do torneio continental daquele ano, pois, se representava a Ásia, a vaga fora conquistada com um título. O avô coça a careca, solta um risinho constrangido e diz que o time não precisou ser campeão de nada para ir jogar no Brasil. O Matin Varamin venceu o asiático um mês antes e o Al-Rayyan, vice-campeão, viajou para Minas Gerais a convite.

Um mês antes?, um se indigna. Para um time do Irã?, exclama o outro. Jogou como convidado?, pergunta o terceiro. O avô entendeu a terceira questão como meramente retórica e insistiu que o time venceu, até, o Trentino. Nisso, um dos netos ofende as lembranças daquele Al-Rayyan e diz que deve ter sido sorte, mas aí o avô retruca. Se o time tinha Simón, Raphael, Kaziyski, Sánchez, Alan, não foi por sorte, foi um massacre, isso, sim.

Quando iniciaria uma verborragia qualquer sobre globalização, dinheiro e esporte, os netos lhe perguntam ao mesmo tempo, mas num som desencontrado, como é que um time com esse plantel perdeu, um mês antes, para o vôlei iraniano. O avô, já arrependido de ter começado a contar aquela história, se vê obrigado a dizer que Sánchez já estava por lá havia mais de um ano, mas os outros chegaram só para jogar em Belo Horizonte.

O neto mais velho supôs que foi isso o que levou a federação internacional a convidar o Al-Rayyan, e sorriu. O segundo perguntou se não foi por causa do convite que o time foi montado às pressas. E o terceiro, percebendo um quê de constrangimento na expressão séria do pai de seu pai, indagou se valeu a pena alugar um time só para jogar um campeonato de uma semana.

Calado, o homem refletiu se não era estranho pensar que o Al-Rayyan fosse questionado porque, em vez de contratar estrangeiros para longa disputa de meses, como faziam Cruzeiro, Trentino, UPCN e Belgorod, o clube preferiu se reforçar só para a competição mais importante e mais curta. Pois não há quem monta um time prometendo vida longa e encerre as atividades sem aviso? O que invalida ganhar do Trentino: não ter jogadores nacionais como protagonistas ou tê-los contratado só para aquela semana? E o mérito de contratar bem? Há quem tenha dinheiro e seja incapaz de montar um time satisfatório. E o entrosamento? Vôlei em alto nível com menos de um mês de treinamento? Isso não conta? Se o campeonato durasse seis meses, se questionariam os contratados? Tudo se resume a dizer que foi um time alugado?

Em meio a recordações, perguntas e netos, achou melhor que cada um deles interpretasse a história como bem entendesse. As lembranças que tinha do time que, uma vez, fez o Al-Rayyan estar entre os melhores do mundo em alguma coisa, sendo alugado ou não, eram a história que contara aos netos. A história que cada neto contará aos netos não lhe pertence.

E você? Como dirá aos netos que um time do Qatar foi tão longe num mundial de clubes no Mineirinho?

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  1. […] chegar ao Qatar, o Al-Rayyan não terá um monte de jogadores que defenderam o clube em Minas. Mas terá o nome gravado na história como vice-campeão mundial, honraria que jamais coube a […]