Ana Tiemi e a seleção

Aproveitei o desembarque do Osasco em Cumbica, na última segunda-feira, para falar com Ana Tiemi sobre o corte da lista para o Grand Prix. Como vocês devem imaginar, fazer entrevistas sobre temas como este é sempre complicado, especialmente quando falamos de uma atleta que terminou a última temporada de seleções como titular do Brasil. Mas me surpreendi.

Antes, uma ressalva: é óbvio, claro e evidente que a titularidade da Ana em 2009 não é uma unanimidade. No atual cenário, basta a Fofão cogitar a mínima possibilidade em voltar à seleção que o Zé Roberto deixa, com razão, a vaga para ela. Porém, é preciso aceitar que a realidade é outra e trabalhar em cima de novos nomes. Vinte anos de Fernanda Venturini e Fofão nos deixaram mal acostumados e exigentes demais. Só que ninguém lembra nenhuma das duas era tudo isso em 1991.

Voltando à Ana, me surpreendi porque ela falou com grande tranquilidade sobre um assunto que certamente dói. Reconheceu que está mais distante do Mundial e que, de fato, vive pior fase que Dani Lins e Fabíola (veja matéria completa aqui). Usou até uma expressão inusitada para isso, “tenho que colocar o rabinho entre as pernas”, e prometeu muita dedicação para voltar a vestir a amarelinha. Foi corajosa.

Muita gente diz que o grande problema da Ana é ter se acomodado com a reserva da Carol Albuquerque no Osasco. A solução seria deixar a equipe. Mas vamos analisar o cenário da última Superliga: havia somente quatro times em condições de dar a ela um bom salário e a estrutura adequada (Osasco, Unilever, Pinheiros e São Caetano). Todos com levantadoras já bem estabelecidas. Considerando-se que, hipoteticamente, ela teve propostas dos três times, algo do qual eu duvido, o que é melhor? Entrar em um embate direto, perigoso e desnecessário com Dani Lins ou Fabíola? Ficar na reserva eterna de Fofão, uma jogadora com inacreditável forma física mesmo aos 40 anos e que cede poucas chances para as substitutas? Ou disputar posição com a Carol, uma atleta de altos e baixos e com quem ela já se alternou em anos anteriores?

Esta temporada, o Vôlei Futuro surge como alternativa à dupla Osasco/Unilever no lugar do São Caetano, só que, apesar de todo o investimento, não deixa de ser uma aposta arriscada. Nada contra os dirigentes de Araçatuba, mas já cansamos de ver megaprojetos no vôlei brasileiro que duram, quando muito, duas temporadas. Paula Pequeno, Fabiana, Ricardinho e Leandro Vissotto são jogadores consagrados, com situação financeira razoável. Um fracasso da equipe não traria grandes problemas para eles, cujos passes são cobiçados por qualquer time. Ana Tiemi, aos 22 anos, ainda não pode se dar a este luxo.

Claro que é contestável (Joycinha, por exemplo, resolveu arriscar), mas é uma preocupação válida. Certa vez, conversando com o Alexandre Folhas, marido da Paula Pequeno, ele lembrou que um atleta precisa ser muito bem remunerado porque não possui uma vida profissional tão longa quanto a de outras profissões. São uns 15 anos de trabalho nos quais a pessoa precisa juntar dinheiro para estruturar uma vida, sem contar o risco de contusões e calotes ao longo da carreira. Com a mobilização criada quando o Bradesco cancelou o patrocínio do Finasa, ficou claro que Osasco é um lugar estável, pouco sujeito a estes riscos. Comenta-se ainda que, exceção feita a uma estrela ou outra de projetos eventuais, paga muito bem para o mercado.

Uma alternativa para Ana seria jogar no exterior, mas não vejo o nível técnico de Itália, Turquia e Rússia melhor do que aqui. Além disso, ela estaria sujeita a possíveis problemas de adaptação e se afastaria das jogadoras para quem terá que distribuir bolas na seleção. Ou seja, teria um déficit enorme em termos de entrosamento.

Enfim, se eu fosse a Ana, daria mais um tempo em Osasco e me dedicaria de vez na disputa pela titularidade com a Carol, uma líder em Osasco, mas que faz 33 anos no domingo, não esconde o desejo de se dedicar ao filho e pode resolver engravidar a qualquer momento. Hoje, na minha opinião, trata-se da melhor alternativa para ela tentar novamente ter lugar garantido na seleção ao mesmo tempo em que garante o pézinho de meia. Só não pode é pensar muito e deixar outro ano passar.

This article has 2 comments

  1. “Um atleta precisa ser muito bem remunerado porque não possui uma vida profissional tão longa quanto a de outras profissões. São uns 15 anos de trabalho nos quais a pessoa precisa juntar dinheiro para estruturar uma vida, sem contar o risco de contusões e calotes ao longo da carreira”.

    Nunca tinha pensado nisso.

  2. [...] não convocada. Muitos culpam o fato de ela seguir “acomodada” no Sollys/Osasco e, apesar de entender a postura dela de permanecer no time, acredito que a reserva da Carol Albuquerque realmente pode ter influenciado (e muito) na decisão [...]