Bernardinho abre o verbo sobre mundial de clubes e avalia chances da seleção feminina nas Olimpíadas do Rio

Bernardinho abre o verbo sobre mundial de clubes e avalia chances da seleção feminina nas Olimpíadas do Rio

O Saída de Rede bateu um papo com o técnico multicampeão Bernardo Rezende, que em meio a disputa da Superliga feminina, no comando do líder Rexona Ades, fez um pedido: nada de seleção masculina. Até o final da Superliga, Bernardinho fala somente sobre voleibol feminino.

Ele comentou sobre o status de favorito do Rexona Ades na Superliga, o quanto acredita nas ponteiras Natália Zilio e Gabi Guimarães. Também falou sobre o desenvolvimento de juvenis do quilate da ponta Drussyla Costa e da oposta Lorenne Teixeira. Bernardinho ainda analisou a diferença entre seu clube e os principais europeus no mundial, enfatizando a dificuldade que é enfrentar o que ele chama de “legiões estrangeiras”. Para finalizar, o homem que conquistou seis medalhas olímpicas (uma como atleta e cinco como treinador) deu seu palpite sobre as chances da seleção feminina nas Olimpíadas do Rio, quem serão os maiores adversários, ressaltando que o vôlei masculino tem um cenário de maior equilíbrio.

Confiram a entrevista com o técnico Bernardinho:

Saída de RedeA que se deve essa superioridade do Rexona Ades? Vocês se consideram favoritos?
Bernardinho - Podemos estar favoritos, mas não somos favoritos. É uma competição desgastante, não começamos com esse status. Estamos assim em razão das circunstâncias, mas volto a dizer, não vejo favoritos na Superliga. O Vôlei Nestlé tem demonstrado crescimento. Dentil/Praia Clube é um time extremamente equilibrado, tem um grupo de jogadoras muito forte. Camponesa/Minas vem crescendo. Eu não diria uma surpresa, mas há a confirmação de um grande trabalho da equipe do Rio do Sul/Equibrasil. O time Terracap/Brasília Vôlei, embora tenha alternado, tem demonstrado crescimento, tem muitas jogadoras muito boas, como é o caso da Paula, da Sassá, da Macris, que é uma levantadora com boa rodagem de Superliga, bastante agressiva, já foi convocada para a seleção. Nessa temporada há um equilíbrio grande. Veja o Rio do Sul, não perdeu para ninguém em casa, a não ser pro Rexona e por 3-2, mas poderia ter ganhado, só viramos no final. É uma equipe que vem demonstrando uma força de trabalho, um conjunto impressionante. Acho que as quartas de final deste ano podem ser diferente de outras temporadas, podemos ter surpresas, quem ficou entre os quatro primeiros pode ser surpreendido por quem ficou do quinto ao oitavo lugares. A gente tem muito a crescer ainda, muito a trabalhar. Não nos atribuímos nenhum favoritismo. Afinal, quantos favoritos já foram derrotados…

Saída de RedeQual seria a maior deficiência, o ponto fraco do Rexona hoje?
Bernardinho – Podemos crescer no ajuste de bola de meio. Estamos melhorando nisso, mas podemos mais. Queremos envolver mais a Natália, e aí não é nem tanto somente para o Rexona, mas para a carreira dela e para a seleção, no ataque de fundo, que ela tem muito potencial para fazer. Estamos equilibrados no saque e no passe, que é quando o jogo se inicia. Podemos evoluir no contra-ataque, ainda estamos muito dependentes das duas ponteiras (Gabi e Natália). Sempre tem um pouco de tudo a melhorar, então o sistema como um todo pode evoluir. Temos controlado um pouco mais o número de erros não-forçados, melhorando no controle de bola, fazendo um ajuste fino em algumas situações.

Saída de RedeNa temporada passada você chegou a utilizar a Natália na saída de rede. Isso pode voltar a ocorrer nesta temporada, em razão do rendimento dela no ataque?
Bernardinho – Hoje ela está incorporada na função dela, tem feito partidas excepcionais como ponteira, acho que ela não sai mais dali. Eu a utilizei ali por uma carência, algumas circunstâncias. Acho que ela não quer deixar a entrada e é nossa intenção desenvolvê-la como ponteira-passadora, algo que ela já vem fazendo há bastante tempo. Antes dela deixar o Rexona para ir para Campinas, o primeiro título dela como ponteira-passadora foi uma Superliga que ganhamos em São Paulo, contra uma fortíssima equipe de Osasco, que na época contava com Jaqueline, Fernanda Garay, Sheilla e tal, e nós ganhamos delas no Ibirapuera com a Natália jogando efetivamente como ponteira-passadora. Dali pra frente ela cresceu muito nessa função.

Saída de RedeComo você avalia o desempenho das ponteiras Gabi e Natália a poucos meses das Olimpíadas, olhando agora para elas como atletas da seleção?
Bernardinho – Elas têm feito a diferença, têm sido excepcionais. Além de pensar no nosso time, no coletivo, há um projeto paralelo que é o desenvolvimento delas pensando na seleção brasileira. Nossa função, enquanto comissão técnica, é dar a elas essas ferramentas para que elas continuem evoluindo e conquistem cada vez mais espaço lá (na seleção). Seria um sonho vê-las como titular da seleção conquistando o ouro olímpico. Para mim, particularmente, seria dar uma contribuição. Além de jogadoras de grande nível, elas são pessoas excepcionais, que aceitam, gostam de ouvir, querem evoluir. Sempre que a gente troca alguma mensagem, num momento em que elas estão longe de mim, estão na seleção, “ah, eu gostaria de crescer nisso aqui, atacar uma bola mais assim”… Estamos sempre tentando, trabalhando para criar mais possibilidades para que elas possam se desenvolver naquilo que elas sentem necessidade.

Saída de RedeAs duas às vezes são criticadas pelo passe que têm. Como você as avalia nesse fundamento?
Bernardinho – Elas têm sido muito efetivas nisso aí. Nós temos uma passadora no Brasil que é incomparável, que é a Jaqueline, uma tremenda ponteira-passadora. A Natália tem outros predicados, como a força física, que a Jaqueline talvez não tenha, como o alcance dela (Natália), mas as duas aqui do Rexona estão evoluindo. No cenário internacional hoje a Jaqueline é um ponto fora da curva, ela é a principal passadora do voleibol mundial.

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Saída de RedeLorenne e Drussyla, como elas se encaixam nesse projeto de atender não apenas ao Rexona, mas também à seleção brasileira adulta num futuro não muito distante?
Bernardinho – Aí é um outro ciclo olímpico, mas certamente elas têm potencial para chegar lá. Nós sempre gostamos disso, de pescar, garimpar talentos como esses, a gente tem o maior prazer em trabalhar. A Drussyla é de uma habilidade, de uma capacidade técnica excepcional, e a Lorenne é uma jogadora mais de salto, de uma força impressionante. Porém elas são jovens, então ao mesmo tempo que você tem de cobrar, você precisar transmitir a elas calma e tranquilidade para elas jogarem. A Drussyla já teve oportunidade na Superliga passada e está tendo ainda mais este ano e vai crescer. Olhando pro futuro, na minha opinião, se ela se desenvolver, melhorando mais sua recepção, tornando-se uma jogadora completa, como ela tem condições de ser, ela pode almejar um lugar na seleção brasileira.

Saída de RedeA Lorenne foi um dos destaques do Mundial Sub20 no ano passado, ela e a dominicana Brayelin Martinez, ambas têm a mesma idade. Enquanto a dominicana é titular na primeira divisão italiana, jogando pelo Bolzano, a Lorenne é reserva aqui. O fato de estar pouco tempo em quadra não compromete o desenvolvimento da jogadora brasileira?
Bernardinho – A Martinez joga em um clube muito fraco, que seria um dos últimos colocados aqui na Superliga. A Lorenne é reserva em um time de ponta no Brasil.

Saída de RedeEm relação ao mundial de clubes, sabemos que são campeonatos muito curtos, nem sempre realizados no melhor período, quando os times não estão na sua melhor forma. Vemos que as equipes brasileiras, não apenas o Rexona, têm dificuldade de enfrentar os principais clubes europeus. Ainda que essas equipes estrangeiras tenham orçamentos maiores, não seria possível equilibrar os confrontos?
Bernardinho – Há dois aspectos. Você não enfrenta nem mesmo uma seleção nacional, ali são legiões estrangeiras, às vezes são cinco ou seis estrangeiras de alto nível jogando juntas. Nós fizemos uma vez uma final contra o VakifBank, da Turquia, eram três jogadoras da seleção turca e três estrangeiras em quadra. Outra coisa, são jogos seguidos. No ano passado, por exemplo, tínhamos a Fofão aos 45 anos, ela que foi ao lado da Fernanda Venturini a maior levantadora da história do nosso vôlei, mas a Fofão já não podia jogar quatro partidas seguidas. Nas últimas temporadas com a Fofão, às vezes ela ficava uma semana, dez dias de fora. Lá na Suíça, no mundial, tínhamos de jogar todo dia. Chega num patamar desses, já viu… No ano passado disputamos o mundial sem jogadora estrangeira e nossa equipe chegou ali, brigando, perdemos na semifinal. Este ano, se a gente chegar bem, então teremos condições de brigar. O problema é que será outro momento, se fosse assim uma semana após a Superliga, direto, se a gente pudesse ter sequência…  Se fosse para enfrentar uma equipe italiana ou uma equipe turca com uma estrangeira, mas você pega cinco, seis estrangeiras que são titulares nas seleções dos seus países, é muito complicado, você está falando das melhores jogadoras do mundo, são investimentos altíssimos.

Saída de RedeEm relação ao que se investe aqui no Brasil, como seria a comparação?
Bernardinho – Internamente, eu sei que o Osasco tem um orçamento bem maior do que o nosso. O Praia Clube está equiparado conosco no momento. O investimento do time da Turquia que ganhou no ano passado (Eczacibaşi), por exemplo, é mais do que o dobro do Rexona. Há duas jogadoras lá que somadas ganham a folha salarial da equipe do Rexona. Na Rússia idem. O time pelo qual a Fernanda Garay jogava (Dinamo Krasnodar), com cifras de US$ 600 mil ou US$ 700 mil por ano para algumas atletas.

Saída de RedeQuais as chances da seleção feminina nos Jogos Olímpicos do Rio?
Bernardinho – A seleção brasileira é uma equipe bastante competitiva. No cenário mundial há boas equipes, mas poucas, não é como no masculino que você tem dez times que podem brigar por medalha. Quem foi o vice-campeão europeu no masculino? A Eslovênia. Quando é que você imaginaria a Eslovênia sendo vice-campeã europeia. Perdeu na final pra França, que é o melhor time do mundo. A Rússia e a Polônia caíram nas quartas de final. Os poloneses perderam para os eslovenos. A Itália perdeu na semifinal também para a Eslovênia. Aí você vê o equilíbrio que existe no masculino. No vôlei feminino você tem como fortes o Brasil, os EUA, a China, a Rússia, já a Sérvia é um pouco menos. Como espectador, eu diria que a medalha de ouro está entre Brasil, EUA, China e Rússia. Pode haver alguém que tire algum desses quatro, mas dificilmente a medalha de ouro não será de um deles.

(Fotos: CBV)

This article has 2 comments

  1. Me desculpe Bernadinho mais vc bobagem sobre o mundial de clubes é verdade que os times deles tem mais recursos mais falta por times brasileiros é competência exemplo sada cruzeiro é bi campeão mundial e aí falar que zenit era fraco com uma legião de estrangeiros claro que não

  2. Excelente entrevista. Esse foi o técnico que transformou jogadoras como Natalia, Gabi, Fabiana, Thaisa… Natalia não era nem metade do que é hoje quando jogava em Campinas.