Bernardinho: saque ineficiente da seleção tem a ver com questão cultural dos clubes brasileiros

Bernardinho: saque ineficiente da seleção tem a ver com questão cultural dos clubes brasileiros

Evidentemente, o saque não é a única causa do péssimo início de Liga Mundial do Brasil, mas o serviço deficiente tem dificultado e muito o trabalho da seleção masculina. Na surpreendente derrota para o Irã neste sábado (7) no Ibirapuera, por exemplo, houve absurdos 17 erros de saque e nenhum ace em três sets.

Em sua rápida conversa com a imprensa após o jogo, Bernardinho deu uma explicação interessante sobre o assunto:

— O saque é o que mais me preocupa e tem a ver até com uma questão cultural. No Brasil, os times não sacam: tem um time que saca forte aqui, os outros não. O nível internacional é outro nível. O Cruzeiro saca muito forte, é time muito bom e tal, mas ficou em quarto no Mundial de clubes… por que? O nível internacional é outro, não estamos progredindo. O voleibol no Brasil deu uma estacionada e a gente tem que buscar formas de crescer juntos, clubes e seleção. Não adianta em uma semana, duas semanas de trabalho achar que vai resolver tudo. Aquela inconsistência tem a ver com falta de preparação, uma questão de inconsistência em fundamentos e isso vai entrando no emocional, então é trabalhar. Vamos aproveitar essas duas semanas fora daqui e fazer o nosso melhor lá fora

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Apenas para contextualizar, o Sada Cruzeiro liderou as estatísticas de saque das últimas duas Superligas, além dos playoffs da edição 2011/2012. Neste período, acumulou dois títulos nacionais, um vice, dois Sul-Americanos e um Mundial. É, sem dúvida, a equipe brasileira mais bem sucedida da atualidade, mas ainda assim Bernardinho usa o quarto lugar no Mundial de maio para exemplificar que até o saque da equipe mineira já está ficando para trás na comparação com os estrangeiros.

É preciso se lembrar também que, devido à opção de dar descanso a eles após o Mundial de clubes, até agora somente um jogador do Sada esteve em quadra pela Liga Mundial: Wallace, nas duas partidas contra o Irã. Treinando com o grupo desde o começo da semana passada, os centrais Isac e Éder ainda não foram aproveitados, enquanto William está inscrito na disputa, mas não foi efetivamente chamado por Bernardinho.

Um dos melhores sacadores da seleção, o meio-de-rede Sidão, que atua pelo Sesi, concordou com a teoria do técnico:

— Concordo plenamente. Eu, que já joguei fora do Brasil, vejo que lá eles têm uma cultura de força de saque desde as categorias de base. Isso é uma coisa que a gente já está trabalhando. Claro que tem dia que o saque vai entrar, tem que dia que não vai entrar, mas precisamos focar nisso. Temos excelente jogadores de força, de potência e, na hora que esse jogo encaixar, vai ficar mais fácil pra gente

Com uma carreira em que alterna passagens por times brasileiros e do exterior, Leandro Vissoto aprofundou a explicação de Bernardinho:

— São sete anos que eu jogo lá fora e a gente até brinca que no exterior voleibol é pancadaria no saque, se constrói com base nisso: são dois ponteiros e um oposto de força. No Brasil, é o contrário: os times são construídos com base em centrais que são bons atacantes e com bons passadores. O nível de saque aqui não é tão alto, então, se você joga com o passe na mão, o time que tem tendência a ganhar o campeonato é o que possui bons centrais e um levantador que joga rápido. Vamos ter que nos adaptar a essa pancadaria no saque no nível internacional. O saque é uma coisa muito mental, individual, a gente está vivendo um momento de insegurança nesse fundamento. Vamos ter que trabalhar pra sair desse ciclo e voltar a jogar no alto nível

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Por fim, deixo as estatísticas da Liga Mundial que mostram o quanto os brasileiros estão mal neste fundamento:

Jogo 1 Itália =  21 erros, 4 aces (derrota em quatro sets)
Jogo 2 Itália = 18 erros, 5 aces (derrota em quatro sets)
Jogo 1 Polônia = 13 erros, 5 aces (vitória três sets)
Jogo 2 Polônia = 9 erros, 0 aces (derrota em três sets)
Jogo 1 Irã = 23 erros, 4 aces (vitória em cinco sets)
Jogo 2 Irã = 17 erros, 0 aces (derrota em três sets)

TOTAL = 101 erros, 18 aces (22 sets jogados)

Maiores pontuadores de saque do Brasil:

Lipe (Fenerbahce (Turquia)) = 5 aces
Lucão (Sesi) = 4 aces
Mauricio (Minas) = 3 aces
Sidão (Sesi) = 3 aces
Bruno (RJ Vôlei e Modena (Itália)) = 2 aces
Vissotto (RJ Vôlei e Suwon Kepco (Coréia do Sul)) = um ace

E você? Concorda que o saque praticado por aqui está fazendo o Brasil perder espaço no voleibol de seleções?

(Devido a um ataque de vários spammers gringos, tivemos que começar a moderar os comentários. Porém, não se preocupe: assim que possível, vamos aprovar o seu)