Boicote: um muro em vez da rede

Boicote: um muro em vez da rede

A Guerra Fria foi um jogo de xadrez disputado entre Estados Unidos e União Soviética por quatro décadas e meia. Torres avançavam lentamente para recuarem depois, bispos discursavam, mísseis russos eram posicionados em Cuba e americanos, na Turquia. Tomava-se uma peça aqui, perdia-se outra ali, cavalos invadiam o Afeganistão e financiavam golpes militares América Latina afora. Muita retórica e propaganda foi desprendida. O homem viu a cor da Terra, foi à lua, lutou no Vietnã, foi um peão que só a muito custo se manteve no tabuleiro. Os reis eventualmente sofriam algum xeque, ameaçavam lançar mão do poderio bélico da dama, mas o xeque-mate, mesmo, não houve: o lado vermelho abandonou o jogo quando a grana ficou curta.

Na disputa ideológico-planetária, não foram raras as ocasiões em que o esporte foi peça utilizada pelos dois contendores. Se lances memoráveis foram executados nas quadras, nos gramados, nas pistas, nos tabuleiros e nas piscinas, movimentos execráveis foram ordenados dos gabinetes. Memorandos sombrios e anúncios toscos decretaram uma década de boicotes olímpicos. Uma vergonha que maculou o esporte dos anos 80, que teve antecedentes em quadras que não as de Moscou ou Los Angeles. O mundial feminino de vôlei de 1966, digo, de 67, também foi vítima da atrocidade gelada entre as duas potências.

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Foram tantas estranhezas em torno do quinto mundial feminino que o título do Japão pode ficar em segundo plano.

Se, de 1952 até 62, o mundial masculino e o feminino se realizaram sempre no mesmo país, em 1966 a história mudaria. A Tchecoslováquia seria sede do campeonato masculino e o Peru, como anunciado em 1964, o do feminino.

Mas os peruano desistiram de receber o torneio.

Sem muitas alternativas, a FIVB recorreu ao Japão, já que Tóquio, que sediara as Olimpíadas de 1964, tinha estrutura satisfatória para hospedar o vôlei das mulheres. Mudaram, também, as datas do campeonato. Se antes seria de 12 a 29 de outubro de 1966, passou a ser em janeiro de 1967. Mudar a sede e as datas já seria, por si só, confusão suficiente para se contar da história de um torneio de escala mundial. Mas o golpe mais rígido àquele campeonato ainda seria desferido por capitalistas e comunistas.

As recém-desmembradas Alemanha Oriental e Coreia do Norte se classificaram para o certame – que seria o de estreia para as alemãs e o terceiro para as coreanas. Eram nações filhas do pós-guerra, fruto de um muro que separou comunistas e consumistas em Berlim e de um conflito bélico ainda inacabado que fragmentou a Coreia em duas – a do Norte, vermelha, e a do Sul, do Tio Sam.

Em Olimpíadas, a Coreia do Norte até participara dos Jogos de Inverno de 1964, mas só estrearia nas disputas de Verão em 1972, ao passo que a Alemanha Oriental só em 1968 abandonaria o time unificado da Alemanha e competiria sem sua porção ocidental. Assim era o mundo depois de Hitler e de duas bombas atômicas, os simpatizantes da Águia e os da Foice e Martelo só se encontravam para tentar aumentar sua zona de influência ou para superar o lado oposto no esporte. O Japão, quando optou por um lado, exerceu sua escolha da pior maneira esportiva possível.

Tendo nos EUA os grandes parceiros de seu milagre econômico dos anos 60, os capitalistas do sol nascente não reconheciam como nações a Alemanha Oriental e a Coreia do Norte. As jogadoras dessas seleções pagariam pela política externa de seus países, seriam tratadas como apátridas em Tóquio, sem ter sua bandeira hasteada nem seu hino executado no autofalante do ginásio. A hostilidade dos samurais, entretanto, não ficou impune.

Em 1959, durante o campeonato mundial masculino de basquete, no Chile, a URSS se recusou a entrar em quadra contra Taiwan, por não reconhecer o território capitalista rebelado contra Pequim como país. Como resultado, a derrota por WO tirou os soviéticos da ponta da tabela e rendeu ao Brasil seu primeiro título mundial na modalidade. Oito anos depois, vendo que o bloco comunista era afrontado, os soviéticos lideraram um boicote que, na prática, arruinou o torneio japonês.

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Das 11 seleções classificadas para aquele mundial, só as quatro não comunistas entraram em quadra. Enquanto URSS, Alemanha Oriental, Hungria, Polônia, Tchecoslováquia, China e Coreia do Norte deram as costas ao esporte – talvez não sem alguma razão –, Japão, Coreia do Sul, EUA e Peru fizeram um certame curto e sem brilho.

As quatro seleções restantes entraram em quadra nos dias 25, 27 e 29 de janeiro de 1967 e jogaram um torneio de pontos corridos. O campeonato se desenvolveu no Nippon Budokan, o mesmo ginásio que recebeu as competições olímpicas de judô em 1964.

1967 Japão feminino

Quando o esporte teve vez, o Japão se sagrou bicampeão do mundo sem perder nenhum set – mais precisamente, o time não sofreu mais do que 37 pontos de seus rivais. Os EUA, mesmo perdendo o segundo set para as campeãs por 15-0, ficaram com o segundo posto. A Coreia do Sul, que recebeu tratamento bem diferente do que seria dispensado ao time do norte, foi medalhista de bronze e o Peru não venceu ninguém.

O fiasco esportivo do vôlei àquele ano foi relevante, está guardado nos livros de história do esporte e da política global, mas não foi um xeque-mate. O Japão ainda ganharia o campeonato feminino mais uma vez, em 1974. Os EUA conseguiriam repetir a medalha de prata 35 anos depois. O Peru só teria vôlei de alto nível nos anos 80. Até a Coreia do Sul, aqui e ali, teve algum momento de brilho no vôlei, como o bronze em Montreal/1976 e o quarto lugar nas últimas olimpíadas. À Alemanha Oriental, se o vôlei feminino nunca produziu nenhum resultado expressivo, restou a proeza que a seleção masculina realizaria em 1970. O vôlei foi mais um peão movido no xadrez da Guerra Fria que sobreviveu ao jogo.

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  1. Satisfeito de novo por conhecer um pouco mais da história do vôlei. Parabéns pela série de postagens.