Brasil na Liga Mundial: para quebrar o jejum e abrir o apetite

Brasil na Liga Mundial: para quebrar o jejum e abrir o apetite

Fim do treino daquela terça-feira. A Seleção Brasileira já estava escalada para a segunda partida do campeonato mundial. Jogadores, comissão técnica e imprensa tomam o mesmo corredor para irem embora do Spodek Arena, em Katowice, enquanto as luzes na quadra se vão apagando. Nalbert, comentarista do SporTV, conversa animadamente com Bernardinho que, embora apressado para não atrasar o ônibus da delegação, atribui ao ginásio ares simbólicos, ao que assente o antigo camisa 12. Foi lá que a Seleção Brasileira conquistou a primeira taça sob o comando do treinador, na Liga Mundial de 2001. Um título, como lembrou o técnico, que impulsionou um trabalho que, ali, ainda era embrionário. Uma situação que pode servir de modelo para as pretensões da Seleção Brasileira na liga deste ano.

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O Brasil passava, em 2001, por seu maior jejum na Liga Mundial desde o início do torneio, em 1990. Fazia oito anos que o Brasil batera a Rússia numa tarde de sábado, em São Paulo, terminando o absolutismo italiano na competição, mas não o do domínio da Azzurra: até 2000, a Itália sairia vencedora de oito das 11 primeiras edições do torneio. Foi apenas sob o comando de Bernardinho que o Brasil conquistou o segundo título e inaugurou um período de supremacia avassaladora do Voleibol Brasileiro.

Água correu sob a ponte, títulos vieram, uma ou outra frustração também, e cá estamos em 2015, cinco anos depois de uma noite de domingo em Córdoba, na Argentina. Foi contra a Rússia, que contestaria a predominância verde-amarela a partir do ano seguinte, que os brasileiros levantaram o troféu do torneio anual pela nona e, até aqui, última vez. Foi como se tirar a Itália do trono de maior vencedor da Liga Mundial trouxesse um fardo, e dele adviesse a segunda maior seca de títulos na competição por que passou (e passa) o vôlei nacional.

Há, contudo, diferenças notáveis entre as duas estiagens.

Se pensar no voleibol masculino brasileiro do começo do século, não eram apenas oito anos sem vencer a Liga Mundial. De 1993 até ali, o Brasil decidiu a competição uma vez, quando perdeu para a Itália, em 1995, e venceu a Copa dos Campeões de 1997. E só. Hoje, se as vacas emagreceram de novo, ao menos o Brasil decidiu três das últimas quatro ligas, em que pese o único título conferido pela FIVB pós-2010 também ter sido o de uma Copa dos Campeões – sem dúvida, o troféu menos cobiçado entre os que a federação internacional põe em disputa.

Quando se mudou do comando técnico da seleção feminina para a masculina, Bernardinho também recebeu uma seleção que havia naufragado nas duas tentativas olímpicas anteriores. Depois do ouro em Barcelona, as Olimpíadas de Atlanta e as de Sydney foram frustrantes para o time masculino, com quedas em partidas de quartas de final. Por coincidência, o intervalo entre o ouro em Atenas e a Liga Mundial deste ano também é de duas olimpíadas. A diferença óbvia é que as derrotas recentes não tiraram o Brasil do pódio, renderam medalhas de prata em Pequim e em Londres.

Assim, à primeira vista, e ainda porque o Brasil vem de um vice-campeonato mundial – posição não alcançada nos anos 90 –, a situação da Seleção Brasileira em 2015 é mais favorável do que era no início do milênio.

Há um fator, no entanto, que faz a balança pender vertiginosamente para o lado de 2001 e dizer que aquela fome era mais fácil saciar. Se a abstinência de títulos ali era grande e até maior do que é hoje, o potencial daquele time para ganhar troféus era proporcional. O elenco que Bernardinho reuniu naquele período é um dos melhores já produzidos pelo voleibol mundial em qualquer tempo. Para não fica tecendo loa àquele time por muitos parágrafos nem adjetivá-lo sem necessidade, prefiro lembrar, tão somente, os quatro ponteiros daquela seleção: Giba, Nalbert, Giovane e Dante. Hoje, em oposição, a seleção precisa socorrer-se da experiência de Serginho, depois de três anos afastado do time, e dificilmente vai prescindir de Murilo para as Olimpíadas, ainda que suas condições físicas não sejam as melhores.

Os nomes que defendem a quadra brasileira em 2015 não são ruins, longe disso. Serginho e Murilo à parte, há campeões e vice-campeões mundiais, há jogadores com experiência de final olímpica; perder na comparação com a melhor geração que o vôlei do Brasil já teve é inevitável. Só que, para adquirir ou reencontrar o costume de pular de peixinho no final, está faltando um clique, uma primeira marcha.

Se um troféu ganho em Katowice, em 2001, alentou uma medalha de ouro em Atenas/2004, vencer uma Liga Mundial no Rio de Janeiro, em 2015, pode ser o arranque de que esse time precise para 2016. De quebra, conquistar a liga encerraria um jejum de 22 anos do Brasil sem vencer uma edição do torneio em casa – abstinência que, mesmo com o melhor time do século, só cresceu.

Matar a fome de títulos em casa, com o decacampeonato da Liga Mundial, é um ótimo aperitivo para quem pensa em repetir o prato de Barcelona e Atenas no ano que vem. Um caso em que o desjejum serve para abrir o apetite, não para saciá-lo.