Brasil pecou, mas não por arrogância

Brasil pecou, mas não por arrogância

Frustrante. Não existe palavra melhor que esta para definir a campanha brasileira no Mundial feminino de vôlei. Mesmo que o terceiro lugar deva ser valorizado, não há como deixar de ter aquele gostinho amargo de uma enorme oportunidade perdida na boca.

Perdida porque nunca o Brasil chegou tão favorito a uma competição. Alguém pode se lembrar das três edições em que o país ficou com o vice-campeonato, mas sempre havia um “porém”. Em 1994, era a fantástica geração cubana. Em 2006, a sina de “amarelão” que tanto perseguiu o time. Em 2010, o título olímpico em Pequim dava motivos para o otimismo, mas havia a desconfiança que o feito na China poderia ter sido um fato isolado, além do fantasma da Rússia de Gamova e Sokolova.

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Desta vez, não. A incrível ressurreição nos Jogos de Londres mostrava que as brasileiras eram capazes de sair de qualquer buraco rumo ao topo. No cenário internacional, as russas davam claros sinais de decadência com a saída de Sokolova e o envelhecimento de Gamova. China e Estados Unidos, por sua vez, promoviam renovações e pareciam verdes demais para superar o Brasil, enquanto a Itália não se acertava com seu técnico no caminho entre usar as jogadoras mais experientes e dar chances à nova geração. Das demais equipes, até poderia aparecer uma surpresa, mas nada suficiente para subir ao melhor lugar do pódio.

Não por acaso, o Brasil foi o país mais dominante do cenário internacional nos últimos anos, em que pese tal domínio não ter sido absoluto, com derrotas aqui e ali e brilhos esporádicos de outras seleções. No geral, porém, ninguém tinha a constância verde-amarela no topo, o que naturalmente tornava o time de José Roberto Guimarães favorito à taça.

Ciente das armadilhas oferecidas pelo esporte, em especial o vôlei feminino, o técnico fazia questão de negar esse favoritismo. Estratégia, óbvio, pois não havia como descartar o Brasil da briga. Pouco a pouco, as vitórias foram aparecendo e os defeitos do começo do Mundial, como a recepção e a dificuldade na virada de bola foram desaparecendo. O auge se deu na lavada por 3 a 0 sobre a China. Com um cenário se desenhando favoravelmente, era difícil para as jogadoras represarem a confiança e declarações como “segurar a gente vai ser difícil” começaram a aparecer.

Agora que o resultado esperado não aconteceu, vi muita gente falando que o time mostrou arrogância. Respeito a opinião de quem pensa assim, mas me dou ao direito de discordar. Há uma grande diferença entre estar seguro e ser arrogante. O time do Brasil não foi soberbo, não desprezou ninguém e muito menos se achou campeão antes da hora. Se querem apontar causas para a derrota, elas são várias: falta de capacidade de reação à estratégia de Karch Kiraly em colocar o jogo americano nas pontas e não nas centrais, descontrole emocional com as seguidas falhas do árbitro no segundo set da semifinal, mesmice nas substituições e apatia geral das atletas, com todas rendendo abaixo do que podem, entre outras.

Arrogância, no entanto, não houve e o próprio discurso das brasileiras, reconhecendo o mérito rival, demonstra isso. Agora, é hora de juntar os cacos e tirar as lições para que esta frustração, que vai durar ainda mais quatro anos, não aumente ainda mais com uma derrota em casa nas Olimpíadas de 2016.