Brasil x Rússia, três anos de uma revanche

Brasil x Rússia, três anos de uma revanche

Me hospedar no Youth Hostel, no número 1 da Barkston Gardens, tinha uma vantagem acima de qualquer argumento: o albergue ficava a cerca 15 minutos de caminhada da entrada do Ginásio de Earl’s Court, local de nome ruim de pronunciar que recebeu o Vôlei nas Olimpíadas de Londres/2012. Nas quatro noites em que o vôlei encerrou minha agenda do dia, não precisar voltar de metrô, por melhor que seja o transporte público londrino, fez valer a pena ter escolhido uma hospedagem onde o quarto tinha cinco beliches, um só banheiro servia todo o andar e um atendente desligava a única TV da hospedaria, pontualmente, à 1h da manhã, não importando quantos ou quem estivesse na sala.

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Naquela terça-feira, eu só tinha ingressos para o vôlei. Eram as quartas de final do torneio feminino e as partidas, divididas em duas sessões, começariam às 13h. Brasil e Rússia fariam o segundo jogo da tarde, Japão e China abririam os trabalhos. Cheguei cedo. Meu assento era de categoria C, pela entrada 4 do ginásio, cadeira número 19. Fiquei distante da torcida brasileira: meu setor de arquibancada era o que estava à esquerda das câmeras de TV. O pai traz o filho que deve ter uns sete ou oito anos de idade, ambos com traços orientais, e sentaram-se do meu lado. Pergunto de onde são – Japão x China, né? – e o homem me responde que são de um bairro londrino. Torcem pelas japonesas, percebo nos primeiros pontos.

As asiáticas fizeram um Jogão de Voleibol – com direito a inicial maiúscula, aumentativo e nome completo do esporte. Os sets se alongaram nas defesas, nos ralis, no equilíbrio da marcha do placar. As parciais se definiam em vantagem mínima, foi preciso jogarem um tie break – que acabou com um 18 a 16 para as nipônicas. O Brasil vs Rússia, se estava marcado para 15h, começaria com atraso. Com 50 minutos de atraso.

Expliquei aos meus colegas da fileira, no inglês sofrível que eu conheço, e sem conseguir entrar em detalhes, que a rivalidade entre brasileiras e russas, no vôlei, era imensa, e pedi que atentassem para a camisa 11 do time vermelho – podia ser que não conhecessem Gamova. Morando na Grã Bretanha, fossem natos ou não, talvez não compreendessem que a partida a seguir era ornada de história, de drama antecipado e, por isso, era certo que valesse mais do que o caminho bifurcado que conduzia à semifinal ou ao aeroporto. O homem esforçou uma cara de interesse pelas informações que lhe prestara o brasileiro, e o menino, se prestou atenção ou não, percebi que cochilava em dado momento do confronto.

O que aconteceu a partir de quando o árbitro apitou pela primeira vez é conhecido o bastante para que pormenores sejam desnecessários. Dá para resumir, não sem alguma desordem, que Fernandinha e Thaisa erraram uma combinação de ataque no finalzinho do primeiro set, que o Brasil vencia a parcial seguinte por 24 a 19 e me deu medo quando permitiu três pontos consecutivos das russas, e que depois de um começo empolgado do time da camisa 11 no quarto set, a torcida brasileira empurrou o time e foi puxada por ele, até o set desempate chegar.

O tie break daquele Brasil x Rússia de 7 de agosto de 2012 foi um jogo apartado do outro, uma partida além dos Jogos Olímpicos, um set disputado mais para a história do que para Londres. As brasileiras abriram vantagem no início e, a partir daí, o suspense dos ralis se desfazia a favor de quem tentasse a virada de bola. Essa disputa em que o time amarelo abria dois pontos e o vermelho reduzia para um chegou ao ápice quando Fernanda Garay pontuou pela entrada de rede, mas a arbitragem, como se a quadra russa diminuísse um metro naquela cortada, assinalou fora.

É certo que, depois, um erro de Goncharova no ataque deixou o set em 13 a 10 para o Brasil. Mas, talvez pela confusão de três pontos atrás, talvez pela lembrança de que o placar do tie break em Atenas também marchou nesse mesmo marcador, as russas anotaram quatro pontos consecutivos e tinham, de repente, um misterioso e inexplicável match point. No entanto, se até ali, nas Olimpíadas, a Seleção Brasileira não apresentara vôlei o bastante para defender o título olímpico, o time agigantou-se.

Sheilla atacava bolas improváveis de qualquer ponto que fosse da quadra ou do ginásio ou da vizinhança, Jaqueline defendeu um ataque que se supunha vencedor de Goncharova, Fernanda Garay arrumou um ace para virar a partida e uma china de Fabiana fez irromper uma comemoração que parecia retraída há oito anos.

Depois de uns tanto minutos, saí do ginásio, comi algum sanduíche que não me lembro mais do que e voltei para a rodada noturna. Os jogos eram entre EUA e Rep. Dominicana e entre Itália e Coreia do Sul. Admito que não consegui prestar atenção ao jogo entre centro-norte americanas e que, exausto ou meio eufórico, resolvi ir embora antes de começar o jogo que eliminou a Itália do torneio. Claro que, depois, me arrependi de ido para o albergue mais cedo, porque olimpíadas são só uma vez a cada quatro anos etc. Mas, naquele dia, não havia mais espaço para vôlei ou olimpíada em lugar nenhum do globo.

Refleti que o melhor foi que o jogo não valeu medalha, porque a cor do artefato conquistado, se dourada ou bronzeada, se sobreporia, na lembrança, ao jogo em si. Diriam “o Brasil ganhou o ouro sobre a Rússia”, como se a medalha de ouro, esquecendo a relação óbvia de causa e consequência, valesse mais do que ganhar aquele épico de três anos atrás.

Ainda hoje, o fim do jogo me exorta recordações embaralhadas – como o peixinho de Zé Roberto Guimarães, o aperto de mão que recebi do meu companheiro de arquibancada e as russas, lá longe, invejando uma comemoração que quase foi delas – e me traz um sentimento ambíguo, mas amargo, quando penso que a depressão, semanas depois, venceu o técnico russo Sergei Ovchinnikov.

Penso, pelo sentimento idiossincrático de revanche e supremacia que brasileiros e russos penhoraram no duelo, que quem não viu a partida ou não sofreu a angústia do fim seis vezes adiado, talvez admire o jogo pela beleza da disputa, mas não o compreenda ao certo. Esse Brasil vs Rússia é a história que o vôlei contará aos netos.

Imagem: cbv.com.br