Briga política faz atletas da Superliga ficarem sem receber

Briga política faz atletas da Superliga ficarem sem receber
Vinicius ficou entre os dez melhores pontuadores na última temporada, mas está desempregado e sem receber (Foto: Divulgação)

Vinicius ficou entre os dez melhores pontuadores na última temporada, mas está desempregado e sem receber (Foto: Divulgação)

Vocês se recordam das dificuldades que as jogadoras do time feminino do Volta Redonda passaram em 2012? Se não lembram, é só clicar aqui.

Pois bem… Infelizmente, a situação se repetiu entre os homens, que chegaram às quartas-de-final da última Superliga, fazendo uma série bem interessante diante do Sada Cruzeiro. Devido a um problema entre a Prefeitura local e o clube, os atletas passaram por um perrengue danado com o atraso de salários – os valores, aliás, não foram pagos até hoje.

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Não quero estabelecer culpa de um lado ou de outro nesta discussão, pois todos os lados possuem argumentos válidos. No entanto, é triste ver como o esporte ainda se rganiza de maneira tão amadora no Brasil às vésperas de uma Olimpíada em casa. Infelizmente, ficar sem pagamento é um risco real para jogadores que ainda não alcançaram o estrelato por aqui. A consequência a longo prazo? Menos e menos pessoas se arriscando a tentar uma carreira e um desperdício enorme de talentos.

Para saber exatamente o que houve em Volta Redonda, leia o texto abaixo (publicado originalmente no Portal R7 aqui). É longo, mas vale a pena:

Dentro de quadra, o Volta Redonda fez bonito na última edição da Superliga masculina de vôlei: mesmo contando com um orçamento modesto, a equipe do interior do Rio de Janeiro, se classificou para as quartas de final da competição em sétimo lugar e deu trabalho para o vice-campeão Sada Cruzeiro no mata-mata, encerrado somente no último jogo da série melhor de três. Fora, no entanto, a situação vivida pela equipe foi de caos e perdura até hoje, quase dois meses depois do fim da disputa.

Um dos destaques do Voltaço na temporada como o sexto maior pontuador do torneio, o ponteiro Vinicius Santos conta que até hoje não recebeu todo o dinheiro prometido em contrato. O problema está especificamente nos meses de setembro, outubro e novembro, quando a gestão do time deixou de ser da Prefeitura local e passou para o Volta Redonda Futebol Clube, time da Primeira Divisão do Campeonato Carioca que emprestava o CNPJ para a realização do projeto no vôlei.

Oficialmente, a prefeitura diz que não pôde mais financiar a equipe devido a uma solicitação do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, que pediu a suspensão do repasse de verbas municipais devido a um conflito de interesses. No próprio Voltaço, porém, acredita-se que o corte nos investimentos tenha origem no fato de o presidente do clube, Rogerio Loureiro, ter se candidatado nas últimas eleições municipais a vice-prefeito na chapa de oposição de Antonio Francisco Neto, que acabou ganhando o direito a mais um mandado.

Em meio a tudo isso, os atletas sofrem. Diz Vinicius:

- É constrangedor trabalhar e não receber. Você tem suas contas e família para sustentar. Quando assina um contrato, já programa para o ano e aí depois de quatro meses não recebe. Eu tive meu empresário me ajudando e possuía um dinheiro guardado da temporada que joguei no RJX, mas teve gente que passou um perrengue danado

Não bastasse a falta de pagamento dos três meses citados, a transferência da gestão do clube ainda culminou com uma redução, acertada verbalmente, nos salários dos atletas e dos contratos, que passaram de 12 para seis meses. Segundo Vinicius, a proximidade do início da Superliga obrigou a todos aceitarem as novas condições:

- Faltando dois dias para a gente estrear na Superliga, o presidente chegou e falou que tinha aquilo para nos mostrar. Ele disse que era “pegar ou largar”. Agora imagina… com todos os clubes com os elencos fechados, era aceitar ou ficar desempregado

Houve ainda um terceiro problema, logo após a eliminação do time da competição, no meio de março, quando os salários dos jogadores também não foram pagos. Neste caso, o time recentemente propôs um acordo para o pagamento dos valores em duas parcelas, em junho e julho, mas Vinicius não está disposto a aceitar:

- De jeito nenhum! Eu não trabalhei parcelado, por que tenho que receber parcelado?

Agora, ele e outros jogadores que também atuaram no time cogitam uma ação na Justiça, o que em teoria pode até levar à exclusão do time da edição 2013/2014 da Superliga.

Outro lado

Atual gestor da equipe, Sylvio Maia fez questão de dar a sua versão do caso à reportagem. Para ele, é errado atribuir ao clube a culpa de um problema que deveria ser cobrado da Prefeitura:

- Eles não pagam ninguém e a gente tem que assumir a culpa? Não existe orçamento para isso… não é má vontade, não é querer sacanear jogador. A questão é que não existe orçamento: clube de futebol vive de quatro meses de receita de TV do Campeonato Carioca. A receita anterior era de repasse da prefeitura, mas não existe mais, então como vamos pagar?

Na visão do dirigente, muitos dos detratores de agora “quase imploraram” no segundo semestre do ano passado para que o clube assumisse o projeto do vôlei. Ele diz que não há chances de o Voltaço assumir pagar a dívida de setembro, outubro e novembro, mas se coloca à disposição para testemunhar a favor dos atletas que decidirem cobrar judicialmente do governo municipal o que lhe é devido:

- Acho que eles têm que cobrar mesmo e apoiamos, pois somos parte interessada em resolver a situação

Quanto à falta de pagamento ocorrida logo após a eliminação do time da Superliga, ele admitiu o ocorrido devido a um “problema com o orçamento do futebol”, mas diz que tudo está sendo solucionado com parcelamento dos valores. De fato, alguns jogadores já aceitaram a proposta e alguns deles até renovaram com a equipe para a próxima temporada. É o caso dos levantadores Maurício e Júlio e dos centrais Alberto e Brunão.

Sylvio garante também que desde o primeiro momento a CBV (Confederação Brasileira de Vôlei) está ciente do caso:

- Tenho mantido muito contato com a CBV até porque eles são meio que co-responsáveis neste processo de transição do clube. Eles sabem muito bem, acompanham tudo, cada movimento eu falo com o Renato D’Avila (superintendente técnico da entidade).

O gestor, no entanto, admite que o fato de o CNPJ usado pelo time ser o mesmo tanto na gestão da prefeitura quanto na atual pode prejudicar o clube em caso de uma ação judicial:

- Nós estamos preparados para tudo. Se for o caso, a gente para no meio da próxima Superliga, para a qual já confirmamos presença

Procurada para dar uma posição oficial sobre o assunto, a CBV não se pronunciou até a publicação da reportagem. A entidade também ainda não respondeu a uma solicitação de entrevista com Renato D’Avila.

Vale lembrar que a briga entre clube e prefeitura de Volta Redonda também deixou a versão feminina do vôlei local com atletas sem casa, comida e tratamento médico no ano passado