Cinco histórias de Bernardinho

Cinco histórias de Bernardinho
Mesmo tendo sido publicado em 2006, vale a pena ler o livro de Bernardinho (Foto: Alexandre Arruda/CBV)

Mesmo tendo sido publicado em 2006, vale a pena ler o livro de Bernardinho (Foto: Alexandre Arruda/CBV)

Por uma daquelas loucuras que a mente humana proporciona, eu achava que já havia lido o livro do Bernardinho, “Transformando suor em ouro”, quando na verdade não tinha. Tudo bem: fiz isto esta semana.

Como você já deve estar cansado de saber, o livro é uma espécie de auto-ajuda profissional em que ele tenta transformar conceitos que sempre usou na carreira como jogador e treinar para o universo corporativo. Achei certos argumentos interessantes, outros não tanto, mas não é por isto que escrevo este post.

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Apesar de não serem a prioridade de Bernardinho no livro, é possível tirar histórias curiosas contadas por ele ao longo das 208 páginas lançadas em 2006 (aliás, tanta coisa já aconteceu desde então que valia um segundo livro (alô, editoras)). Talvez a maior parte das pessoas já as conheça, mas mesmo assim quis resumir cinco abaixo:

- É possível notar que Bernardinho tenta evitar críticas diretas às pessoas: ou o nome é citado, mas não exatamente o que aconteceu ou o fato é contado sem citar os nomes. Nesta última categoria, enquadra-se a displicência que a boa campanha fez a seleção brasileira encarasse a final olímpica de Los Angeles 1984, contra os EUA. Por já terem vencido os rivais na fase classificatória com relativa facilidade, os jogadores estavam confiantes demais e não se preocuparam tanto em se focar na partida. Segundo ele, a exibição do vídeo da semifinal dos americanos contra os canadenses teve uma platéia composta por atletas que cochilavam e rabiscavam as costas da cadeira à frente. Resultado: derrota por 3 sets a 0;

- Quando assumir o comando da seleção brasileira feminina, em 1993, Bernardinho foi avisado que o grupo era um “saco de gatos”, tamanhos os problemas de relacionamento lá dentro. Mesmo assim, ele até teve um certo sucesso com seu método rígido nas primeiras semanas, até que houve uma derrota para a China na estréia da BCV Cup. Irritado com a fraca atuação, ele foi ao vestiário decidido a, em seus próprios termos no livro, “meter o pé na porta e chutar umas canelas”. Foi aí, porém, que ele se deparou com uma ótima estratégia das meninas para não encarar um treinador “cuspindo fogo”: trancar a porta e se trocarem bem devagar, até que, quando todas estivessem prontas, o nervosismo dele já tivesse passado;

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- Sincero, o técnico revela que sua instrução para Giovane antes do saque na linha que definiu o tie-break da final do Mundial 2002 em 15-13 não teve nada daquilo que se espera de um grande estrategista. Pelo contrário, foi bem mais próxima de um torcedor: “Giovane, entra e não perde o saque, pelo amor de Deus”;

- Um dos poucos momentos em que Bernardinho fala abertamente de um problema com um jogador é em um episódio envolvendo Ricardinho na Liga Mundial de 2004 (lembrando que o livro foi publicado em 2006, ou seja, antes de toda a polêmica que culminou no afastamento entre os dois). Segundo o técnico, ele e o levantador brigaram feio por conta do cancelamento das folgas de terça-feira, fato agravado por Ricardinho ter sido escalado como reserva em um treino. Classificado pelo treinador como um “tipo de pessoa que se fecha, mas não esquece”, Ricardinho fechou a cara e passou a não falar com mais quase ninguém em Saquarema. Giba e outros jogadores tentaram acalmar os ânimos, mas ambos só voltaram às boas após uma longa e acalorada discussão debaixo de chuva que quase culminou em uma ruptura definitiva. Aí, o atleta finalmente cedeu e até agradeceu pela preocupação e orientação do treinador;

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- Mesmo extremamente focados nas Olimpíadas de Atenas, os jogadores da seleção masculina pararam o treinamento às vésperas da semifinal contra os Estados Unidos para acompanhar o final daquele fatídico jogo entre as brasileiras e russas no torneio feminino em uma pequena TV que estava em uma das salas do ginásio. Com a dolorida derrota por virada, todo mundo ficou momentaneamente abalado, menos Bernardinho, que foi além e, mal pelo resultado, chegou a chorar.

Muitas outras histórias aparecem no livro, que eu recomendo para quem gosta de vôlei. Se você tiver oportunidade, não deixe de ler.

This article has 2 comments

  1. Eu comprei esse livro no ano da derrota do Brasil para os Estados Unidos em Pequim. Nunca consegui ler o livro. Li apenas os capítulos que me interessavam, como o das cubanas.

  2. Não li esse livro do Bernardinho. Fiquei com um pé atrás justamente por algo mencionado por você neste post: o “público-alvo” do livro, pelo que me parece, é o mundo corporativo e não os aficcionados pelo vôlei. Aliás, muitos atletas e treinadores, mundo afora, têm escrito livros nessa linha. Uma pena: o esporte, nessas publicações, se torna apenas pretexto para a autoajuda.

    Um abraço.