Descubra como é a vida de um brasileiro no voleibol universitário da França

Descubra como é a vida de um brasileiro no voleibol universitário da França

Olimpíadas, Mundiais, Champions Leagues, Superligas… O auge do vôlei é glorioso, mas reservado para poucos. Ficar fora dessa festa, porém, não significa fracasso. Pelo contrário: é possível ser feliz e realizado jogando anonimamente por aí. É o caso de Alexandre Müller (o número 13 da foto acima), brasileiro que divide seu tempo entre o mestrado na França e o voleibol universitário na Europa. Confira o depoimento dele, uma narrativa que mostra um interessante caminho para quem está pensando em desistir do esporte.

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Após 6 anos intensos, treinando e jogando vôlei de praia na areias de Ipanema e do Rio de Janeiro, recebi a surpreendente notícia, em 2011, de que tinha ganho uma bolsa para ir estudar na França.

Apaixonado por vôlei de praia desde os meus 11 anos, treinei em escolinhas do Rio de Janeiro até aos 14 e fui convidado para jogar o circuito regional por uma equipe. Encontrei uma dupla, e, até os meus 18 anos foram mais de 12 horas de treino por semana, centenas de competições estaduais, e três brasileiros sub-19. O vôlei era uma paixão, era o caminho que eu queria seguir o resto da minha vida. Queria fazer do vôlei a minha profissão. Esse, porém, é um caminho reservado para poucos.

Em Junho de 2011, quando recebi a noticia de que tinha ganho uma bolsa e de que existia a possibilidade de ir estudar fora pensei na minha vida no Rio, morando perto da praia, com minha família, treinando diariamente, competindo e fazendo o que eu mais amo… O primeiro reflexo foi pensar : “como é que eu posso largar essa vida?”.

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Depois de alguns dias de reflexão, de alguma forma, a decisão foi tomada no meu lugar. Um dia, após um treino muito puxado, os técnicos e o preparador físico da equipe vieram conversar comigo, e para minha surpresa, me disseram que eu e meu parceiro estavamos sendo cortados.

Foram algumas semanas de grande tristeza, de incertezas, angústias; no final das contas o vôlei ocupava uma enorme parte da minha vida e isso tudo acabava de desabar. Esse período, foi no entanto, o maior impulso para minha decisão de ir estudar fora.

Alguns meses depois estava de malas prontas para ir estudar em Paris.

A primeira coisa que fiz quando cheguei foi procurar a equipe de vôlei de minha faculdade. Depois de passar por um teste fui aceito na equipe e comecei a me adaptar ao vôlei de quadra. Nosso técnico era o Mathias Patin, antigo levantador e capitão da seleção francesa nas olimpíadas de Atenas em 2004 e isso me motivava a buscar o melhor de mim em cada treino.

Me integrei rapidamente com a equipe e fiz deles a minha nova família. Logo entendi como funcionavam os campeonatos, o campeonato nacional universitário e os torneios internacionais do qual nossa faculdade participa.

Durante todo o ano universitário que começa em setembro e termina em junho, temos jogos todas as quintas-feiras e dois treinos por semana. Em meados de junho, os 6 primeiros colocados participam de um “Final 6” e desse campeonato saem os dois representantes da cidade de Paris no campeonato nacional universitário.

Na universidade da Sorbonne, onde estou estudando, existem 3 equipes masculinas e 3 femininas. Acredito que tive bastante sorte, pois quando cheguei, a equipe A precisava de um jogador que segurasse o passe e tivesse um bom volume de jogo. A equipe tinha boas individualidades mas sofria no passe e de uma grande inconstância. Vindo do voleibol de praia, a recepção e a defesa eram meus pontos fortes. Conquistei então meu lugar na equipe e começamos a competição.

Terminamos a primeira fase em segundo lugar e fomos campeões do “Final 6”, que classifica pro campeonato nacional. Na temporada 2011/12, o nacional era em Paris, o que gerou uma certa decepção da equipe porque todos, eu inclusive, preferimos viajar para jogar. Apesar de levarmos o vôlei a sério, viajar com as equipes de vôlei significa também uma grande parte de diversão, festas e ajuda muito no espírito de grupo. São nessas ocasiões que conhecemos atletas do país inteiro e passamos 3 dias intensos de um ponto de vista esportivo, social, e estudantil. No final das contas estamos representando uma universidade, não é?

Nas temporadas seguintes, 2012/13 e 2013/14 também estivemos presentes nos campeonatos nacionais. Dessa vez foram nas cidades de Caen e Reims e seguiram os mesmos moldes que no campeonato de Paris: 3 dias com centenas de atletas de todo país, em uma cidade, alojados nos mesmos hotéis, freqüentando as mesmas salas de refeição e com o uma paixão em comum: o vôlei.

Além desses campeonatos nacionais, a faculdade propõe um financiamento para jogarmos torneios contra universidades européias. Todos os anos, na semana apos as provas finais, as equipes masculinas e femininas se reúnem em uma viagem para jogar contra outras universidades. A faculdade financia 60% do custo, e a viagem dura em torno de 7 dias. Na maioria das vezes ficamos alojados em albergues, em quartos de 14 ou 16 camas, dependendo da quantidade de atletas que viajarem. Já tive a chance de viajar para Portugal, Espanha, Malta e Alemanha e além do vôlei aproveitamos muito as cidades que visitamos, as praias, e a vida noturna.

A conclusão que eu tiro dessa experiência é que o voleibol universitário te da uma nova vida no vôlei, te reanima e te traz de volta para o mundo do esporte. Quando fui cortado do vôlei de praia, achei que era o fim do vôlei para mim, que nunca mais treinaria intensamente, teria companheiros de equipe e iria viajar e competir. Mas felizmente, foi exatamente ao contrario, de 2011 defendi minha universidade em 4 países, conheci 3 cidades na França, fiz dezenas de amigos, ganhei uma medalha de prata nacional (que para mim vale mais do que ouro) e até uma namorada! (O convivio das equipes femininas e masculinas tem como resultados varios casais do vôlei Sorbonne!)

Conjugar o vôlei com os estudos é uma excelente alternativa para quem não atingiu o nível necessário para continuar jogando em alto rendimento. Conheço algumas pessoas que ganharam bolsa 100% graças ao vôlei e foram estudar nos Estados Unidos, jogando pela universidade. Existem varias agências que selecionam jovens pelas suas capacidades esportivas e arranjam bolsas em faculdades no mundo todo! Essa é uma chance que um jovem atleta tem que agarrar pois te permite de continuar jogando e ao mesmo tempo, se formar, já pensando no mundo do trabalho. Esse tipo de acordo possibilita um desenvolvimento não só esportivo, mas também cultural, intelectual e uma melhor inserção no mercado de trabalho. Agarre a sua chance e reescreva sua história!

This article has 2 comments

  1. Muito bacana a história do Alexandre Müller: além de continuar praticando um esporte sensacional, ainda sai com um mestrado! Fora o fato de conhecer a Europa… E ainda teve como técnico um cara com experiência olímpica no currículo. Agora fico triste quando comparo com a situação do esporte universitário no Brasil (isso sem mencionar o fracasso que é a política esportiva brasileira em relação à educação básica). Valeu por mostrar outro aspecto do vôlei nessa postagem. Um abraço!

  2. Obrigado por nos prestigiar mais uma vez, Halem!