Diário dos Mundiais #1

Diário dos Mundiais #1

É sempre arriscado formular um conceito a partir da primeira vista. Com a visão pouco acostumada ao amplo, perde-se, muitas vezes, a noção do todo e a tendência do relator é acreditar que a parte que enxerga corresponda ao inteiro. Mesmo incorrendo neste risco, importa dizer que a principal cidade do Campeonato Mundial masculino de Vôlei tem rasgos daquilo que o estereótipo chama de bucólicos.

Katowice guarda ruas estreitas, casas de tijolo aparente, calçadas baixas, parque arborizado, mulher que pede alguns zlote para tratar da filha doente, trilhos para um trem urbano, vendedor de legumes sentado sobre lona no chão e gente com boa vontade e inglês razoável para indicar a direção da Spodek Arena. A cidade tem pouco mais de 300 mil habitantes. A título de comparação, Caruaru (PE), de acordo com dados do IBGE, tem quase 350 mil. E a calma exalada por essa parcela da Europa só é perturbada pelo barulho infernal do motor de algum carro veloz ou por uma das obras muitas (mas, muitas, mesmo) que empoeiram a paisagem.

Notícias do mundial de vôlei? Melhor do Vôlei

Pela cidade, ou, pelo menos, no caminho entre a Rua Plebyscitowa e o ginásio, vê-se, aqui e ali, sinal de que a organização do mundial se esforçou para promover o torneio. Encontram-se alusões ao campeonato numa fachada de edifício, nos estandartes das ruas próximas à Spodek, em cartazes nas pontes e passarelas, num ônibus com anúncio no vidro traseiro. Há vôlei, sem dúvida. Mas não nada que se pareça, nem de longe, com o Brasil em época de Copa do Mundo (nem precisa pensar só na deste ano). E aí uma das afirmações eternas mais recentes pode ser colocada em xeque, ainda que à primeira vista.

Propagou-se a ideia, de uns anos para cá, de que na Polônia o vôlei é o esporte mais popular. Vira e mexe, alguém se lembra disso na TV e dispara que o país é uma espécie de oásis para o fã dos saques e cortadas. Difícil não duvidar, quando a prova são imagens da loucura polonesa nas arquibancadas em vermelho e branco, quando a torcida grita “Polska! Polska!”, quando o ginásio entoa em uníssono um cântico empolgante.

Quem é quem no Grupo C do Mundial

Entretanto, a um dia da abertura do mundial de vôlei no país, na véspera da estreia da Seleção Polonesa – em Varsóvia, certo, mas é a seleção nacional, ora mais! – não se percebe nas ruas nada de vôlei além da propaganda institucional. Katowice vai receber jogos em todas as fases do mundial, inclusive, as finais, e a impressão que se tem ou é de que não há produtos alusivos à venda para o público (camisas do mundial ou das seleções, chaveiros, bonés, canecas, nada) ou o público de vôlei na Polônia se restringe, mesmo, ao que frequenta os ginásios.

Se a primeira opção estiver correta, a FIVB, a organização e os fornecedores de material esportivo pisaram na bola, porque deixaram de explorar um nicho promissor. Mas se apenas o que falta para vender produtos ligados ao vôlei por aqui é ter quem compre, é sinal de que o vôlei não é o esporte mais popular do país. Talvez a segunda assertiva explique melhor a atmosfera um tanto fria.

O jornal Sport traz na edição de hoje um guia do mundial. É uma revista de 100 páginas, muito bem diagramada, com duas página de análise de cada seleção, um perfil de cada um dos jogadores da seleção local, além de um pôster da Seleção Polonesa e um tabelão do campeonato no verso – meu português me impede de analisar o conteúdo das matérias. Contudo, a edição do tabloide, que tem 32 páginas, dedica 21 delas ao futebol e apenas duas ao vôlei. Goleada, mesmo.

As ressalvas estão no primeiro parágrafo: além de ser a primeira vista sobre o caso, e ainda que a amostragem se refira à cidade para onde vai o filé mignon do campeonato, não parece que o vôlei tenha o mesmo apelo do futebol por aqui. É certo que ganha em qualidade, provavelmente, em organização, mas não na popularidade. Que os próximos dias mostrem que foi um engano. Entretanto, ainda que a cobertura de mídia do vôlei supere a do futebol, ficará a dúvida se o fato não se deu pelo campeonato em si, e não pelo gosto cotidiano do polonês pelo siatkówka.

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BENEFÍCIO POR TABELA É possível que o Brasil não precise sair de Katowice, durante toda a competição, o que dá ao time de Bernardinho uma vantagem logística imensa sobre todos os maiores rivais – até sobre a Polônia.

Para isso, depois de jogar a primeira fase aqui na cidade, o Brasil precisa se classificar para a segunda etapa na primeira ou segunda posição, o que lhe garante enfrentar, aqui, os quatro rivais advindos do grupo C. Então, passando para a terceira fase, o Brasil jogará em Katowice, desde que não caia no grupo de Polônia – que, se conseguir avançar, jogará obrigatoriamente em Lodz. E, depois, semifinais e finais serão por aqui mesmo.

Privilégio danado, ainda mais pensando que foi em Katowice que o Brasil conquistou dois de seus títulos de Liga Mundial (2001 e 2007).

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NO GRAMADO A abertura do mundial, amanhã, traz grande expectativa. Não bastasse o jogo em si, também se espera muito do espetáculo – pelo palco e pelo público. A ideia de ter 58 mil pessoas no Estádio Nacional de Varsóvia, para verem Polônia e Sérvia, é sensacional. Foi a grande sacada do vôlei neste ano. Maior, até, do que a introdução do vídeo chec, que começou direitinho, mas andou muitos passos para trás na fase final do Grand Prix.

 

(foto: Saída de Rede/João Batista Jr.)

This article has 2 comments

  1. Jair Bastos de Souza
    sábado 30 agosto 2014, 11:13 am

    Em novembro assisti a partida Dabrowa Gornizca x Volero Zurich pela Champions League feminina, na cidade de Dabrowa, pertinho de Katowice (10 km).
       À noite, nevando, numa cidade de 80.000 hab, aproximadamente, um moderníssimo gínásio para 4.500 pessoas estava LOTADO, apesar da equipe local não estar fazendo uma boa campanha na competição. Com direito à torcida organizada, entre outros atrativos.
    Por esta pequena experiencia e pelas noticias que se tem da Polonia, creio que o voleibol é o primeiro esporte do país. 
    Imagino que os ginásios estarão cheios neste mundial.
    Abraços

  2. Deve ter sido muito arretado, mesmo, Jair!

    Ginásio/estádio lotado e torcida animando é a melhor combinação possível pro esporte. Recorde, medalha, troféu, nada se compara a uma festa legítima do esporte.

    Espero ver isso por aqui também, principalmente, quando a Polônia estiver em ação.

    Abraço.