Diário dos Mundiais #18 – A culpa é das bolinhas?

Diário dos Mundiais #18 – A culpa é das bolinhas?

Que o regulamento do campeonato mundial de vôlei merecesse críticas, isso não é novo. Tornar a segunda fase uma extensão da primeira, como já ocorrera no mundial de 2006, por exemplo, rebaixou a primeira semana de jogos a um modorrento exercício de previsão: em qual jogo é melhor descansar jogadores, em qual vale a pena expô-los à maratona? Depois, por causa do acúmulo de resultados de uma fase a outra, já havia seleções eliminadas pela matemática, ao cabo da primeira rodada do segundo estágio, o que implica dizer que jogaram três partidas apenas pelo compromisso com a tabela.

E lá se vão nove jogos para decidir as seis seleções restantes. É como se esta semana fosse a das finais da liga mundial – dois grupos de três classificam os quatro semifinalistas.

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Diário #17: a vitória brasileira sobre a Rússia

Os EUA, quando venceram o mundial de 1986, precisaram de oito partidas. A Itália, para vencer em 1990 e 1994, sete. O Brasil, quando se sagrou campeão em 2002 e em 2010, nove. Mesmo número a que a URSS chegou, em 1978 e 1982, para ser campeã invicta duas vezes.

Pois agora, depois de nove jogos sem perder para ninguém, eis que o máximo que a Seleção Brasileira conseguiu foi classificar-se entre as seis melhores. E o pior: à única seleção invicta, restou um sorteio dos mais azarados. Ou desastrados?

Quando a tabela foi montada, previa que o campeão do Grupo E seria cabeça de chave de um grupo e o do grupo F, do outro. Os segundos e terceiros colocados dos grupos E e F seriam sorteados para compor o restante das chaves, o que serviria para evitar jogos combinados, mas acabou foi tirando muito da importância de um Brasil x Rússia. Ruim, mas, pelo menos, isso já estava no regulamento.

Terminada a rodada do domingo e procedido o sorteio, com transmissão ao vivo pela TV polonesa, eis que o primeiro adversário do Brasil sorteado para sua chave é a Polônia, segunda colocada do grupo adverso. Normal. Mas o segundo adversário ser a Rússia, segunda colocada do grupo do Brasil? Dois segundos colocados num grupo e dois terceiros no outro? Isso, o regulamento não avisava.

A tabela no site da FIVB, inclusive, anotava que os segundos colocados iriam cada um para um lado e os terceiros, idem. Tanto é verdade, que ela informava que, na terça-feira, nos dois grupos, um primeiro enfrentaria um segundo, na quarta haveria disputas entre segundos e terceiros, ao que, na quinta-feira, as partidas entre primeiros e terceiros fecharia a fase.

Mas o que restou é que o Brasil – atual campeão mundial – enfrenta, de cara, a Polônia – time da casa – e, já no outro dia, encara a Rússia – a campeã olímpica. Ao Brasil, que foi primeiro colocado de seu grupo nas duas primeiras fases, não restou nem mesmo o dia de descanso. Deram aos anfitriões tratamento de campeão de grupo.

Privilégio à Polônia? Só se foi na confecção da tabela depois do sorteio.

Porque não houve privilégio algum em colocar a Rússia neste grupo, depois que a bolinha polonesa já havia sido sorteada. A lógica pedia Alemanha ou Irã, mas a Rússia é que veio para o lado polonês.

No outro lado da moeda, França, Alemanha e Irã disputam duas vagas, em Katowice. A injustiça da loteria, nesse caso, pode ter levado a públicos diminutos na cidade, como os que se notaram nos jogos de quarta e quinta-feira desta semana, quando o Brasil jogou contra Bulgária e China.

Além disso, o sorteio determinou que pelo menos um dos terceiros colocados da segunda fase avançará às semifinais. Pelo menos, um. Mesma conta que serve aos segundos. Aí, que vantagem tiveram as segundas colocadas Rússia e Polônia, se Alemanha e Irã, terceiros, têm a mesma possibilidade matemática que elas de classificação às semifinais, mas enfrentam adversários notoriamente menos qualificados?

O sorteio, se já era uma ideia ruim, sua execução foi ainda pior. Num campeonato de regulamento esquisito, estranho seria o sorteio para uma fase (finalmente) decisiva ser justo.

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DE MUDANÇA A Seleção Brasileira vai para a Lodz? O Saída de Rede, também. E, a propósito, Katowice se pronuncia “Katovitsa” e Lodz, “Udch”. Estranho? O sorteio de ontem foi ainda mais.

This article has 4 comments

  1. João, não entendi se o regulamento foi quebrado ou não. Se a tabela da FIVB indicava, inclusive, que os segundos colocados iriam cada um para um lado, por que a Rússia não foi automaticamente para o outro lado, depois que a Polônia foi sorteada para o mesmo grupo do Brasil? Ou a tabela estava errada, sugerindo um tipo de distribuição que não necessariamente ocorreria? Que é estranho, é estranho. Mas houve infração descarada do regulamento? Ah, parabéns pelos textos!

  2. É, Danilo, o regulamento foi quebrado, isso é fato. E duas vezes: uma vez quando botou dois segundos colocados num grupo e dois terceiros noutro, e a outra, quando a tabela do grupo do Brasil privilegiou o time da casa em detrimento do Brasil – que era o campeão de chave.

    O regulamento previa que cada chave da 3ª fase teria um primeiro, um segundo e um terceiro, e que o primeiro colocado jogaria na terça com o segundo, descansaria na quarta, e jogaria na quinta com o terceiro. E essas duas normas, que estavam, até, no site oficial do mundial, foram desrespeitadas.

    Se você perguntar minha modestíssima opinião sobre o ocorrido, creio que houve primeiro um erro gravíssimo na hora do sorteio. Depois que saiu a Polônia pro grupo do Brasil, o bom senso indicava que quando saísse “Rússia”, seria pro da França. E saiu “Rússia” logo em seguida, e foi direto pra chave do Brasil. Esse foi o ERRO. O regulamento, nesse caso, não foi respeitado, mas por um erro – que poderia ter sido corrigido e não foi.

    Agora, o caso de rasgarem o regulamento de propósito foi na tabela. Botar Polônia pra descansar entre os jogos, sim, foi proposital.

  3. Pois é, cada um tem o que merece. O Brasil, que já aprontou das suas marmeladas para encarar chaves fáceis em outros mundiais, agora se deu mal. Já a FIVB merece esse papelão de regulamento, primeiro pelo cara que a preside, que nós brasileiros conhecemos muito bem, e segundo por conta da pequenez da entidade, que marca o seu mundial na mesma época de um outro mundial de outra modalidade relevante (basquete) e, por conta dessa tabela esdruxula, vai ter menos de uma semana de grande visibilidade na mídia, enquanto a FIBA, com uma tabela interessante, com vários mata-matas, mesmo sabendo que os EUA iriam ganhar desde o primeiro dia, chamou a atenção e ganhou de forma merecida atenção nas suas três semanas. Até o tal jogo em estádio do Mundial de Vôlei passou despercebido diante da grandeza que a FIBA deu ao Mundial de basquete.

  4. Muito obrigado pela explicação, João. Acho inaceitável rasgar o regulamento, independentemente de quem seja beneficiado ou prejudicado.