Diário dos Mundiais #25 – O sorriso de Sylvia

Diário dos Mundiais #25 – O sorriso de Sylvia

Terça-feira, 23h02, 16 de setembro de 2014, Atlas Arena, Lodz, Polônia. Sylvia sorri discretamente. Não é um sorriso tímido ou sem graça, apenas, discreto. Cerca de 12,1 mil pessoas na arquibancada do ginásio haviam acabado de presenciar a Seleção Polonesa derrotar a Brasileira em luta renhida de cinco longos sets. Sylvia talvez passasse despercebida na multidão, obedece a um tipo físico que se pode dizer comum no país: olhos claros, cabelos castanhos, estatura que um brasileiro classificaria ao aleatório como mediana. Não parece ter mais do que 25 anos de idade. O casaco provavelmente cubra um corpo franzino. A vitória dos poloneses ocorrera a cerca de 15 metros de onde ela está.

Sylvia, no entanto, não pode dizer-se testemunha da partida nem entrar na conta dos mais de doze mil em branco e vermelho que cantaram e vibraram por mais de duas horas e meia. Ela não cantou, nem vibrou, sorriu. Trabalha para uma empresa que cuida da segurança de eventos de grande porte na cidade. É possível vê-la em jogos de vôlei ou em concertos de rock, embora ela própria quase nunca possa tomar parte deles. Na terça-feira de Lodz, na terça-feira da Polônia, ela está no corredor que leva à sala de imprensa, guardando a passagem estreitada por um gradil; só acompanhou o jogo pelos gritos dos compatriotas e pelos rasgos da cortina no final do largo vão que a permitiam ver o telão do ginásio de quando em quando. E sorri.

Ela é a Polônia que ficou fora do Atlas por não poder pagar o preço mínimo de 80 zlote (equivalente a R$ 58) para cada uma das partidas da terceira fase do mundial. Mas ela também é a Polônia que venceu aquele jogo; ela era os quatro ou cinco caras, embriagados de vitória e vodca, cantando “Polska, bialo-czerwoni!” na madrugada da Rua Piotrkowska; ela é o sujeito caminhando com a camisa da seleção nacional (de vôlei) sem nome ou número às costas; ela é o torcedor que foi ao ginásio e o que viu pela televisão, porque Sylvia, no Atlas Arena, fez os dois e nenhum. Mas, sobretudo, o sorriso de Sylvia, ainda que quase secreto, revela um sentimento indisfarçável de alegria. De orgulho.

O orgulho nacional aflorado pela campanha da seleção no campeonato mundial de vôlei não deve ser ignorado. Não que vitórias no esporte, no vôlei, sejam vitórias de governos, escrevam tratados políticos ou subjuguem o inimigo. Mas não fica invisível o que o vôlei propicia aos poloneses, um dos povos europeus mais sofridos do Século XX. Ainda mais num mês de setembro, parcela de ano repleta de recordações dolorosas para o país.

Pois foi no setembro de 1939, três quartos de século atrás, que, primeiro, a Alemanha e, em seguida, a URSS invadiram a Polônia. O país contabilizou, ao cabo dos seis anos da II Guerra Mundial, mais de cinco milhões e meio de mortos. No campo de concentração de Auschwitz, na Polônia ocupada pelos nazistas, estima-se que mais de um milhão e cem mil prisioneiros de todo o continente tenham sido executados. Nas quatro décadas e meia que se seguiram à guerra, a Polônia fora convertida ao comunismo, foi abrigada pela Cortina de Ferro e teve governantes simpáticos a Moscou.

Hoje, a impressão que se tem é de que este período, mais recente e mais longo, causam amargos mais latentes do que o da ocupação nazista, ainda que esta tenha sido mais opressiva e sanguinária. Se o hino da Alemanha (assim como o das outras nações) foi respeitado pelo público da casa em todo o campeonato, os primeiros acordes do da Rússia receberam vaias estridentes na quinta-feira, antes do confronto entre vaiados e poloneses. Não parecia ser somente uma manifestação mal educada, mas uma atitude hostil de revanche, provavelmente, de quem vê seu passado repetir-se na vizinha Ucrânia combatendo Putin e os rebeldes que ele armou.

Isso não quer dizer, no entanto, que os alemães também não sejam vistos com ressalvas pelas ruas. É possível encontrar, nos restaurantes, cardápios multilíngues, com pratos anunciados em polonês, inglês e alemão. A proximidade geográfica da Alemanha criou essa exigência ao recente capitalismo local. Mas os anos de jugo nazista são recordados subitamente, quando empresas de turismo anunciam pacotes que incluem visitas a Auschwitz. Ou quando Kasia, uma fisioterapeuta de passagem por Katowice a caminho de um congresso sobre acupuntura na Cracóvia, diz que o passado a impede de falar com alemães.

Ou talvez o passado de violência esteja escrito em cicatrizes recentes no rosto de Bartolomeu. Enquanto toma uma cerveja com os amigos na Rua Mariacka, uma das ruas próximas à Spodek Arena, em Katowice, ele me explica que a vodca finlandesa tem um teor de álcool maior que o de qualquer outra e que as marcas que possui na face são de um encontro inamistoso com skinheads, num bairro distante. Quando digo que sou brasileiro, ele e seu amigo Lukas me cumprimentam efusivamente. Bartolomeu pede que eu compare as brasileiras e as polonesas, mas antes que eu ensaie o inglês para a resposta, ele começa a exaltar os atributos físicos das sul-americanas. Lukas, diferentemente, me pergunta sobre lutadores brasileiros – é fã do MMA. Já um tanto bêbado, Bartolomeu o interrompe, diz a Lukas me pergunte sobre aquela luta que se pratica no Brasil. O dois esquecem o nome, mas Lukas balbucia alguma coisa que eu completo como sendo capoeira. A menção do nome o faz repeti-lo em tom alto, como se o esquecimento do nome o martelasse desde que saíra de casa. Capoeira.

Lukas me pergunta se há emprego para ele no Brasil. Gaguejo na resposta e os três rimos sei nem de quê. Ele diz que está brincando, ao que Bartolomeu assevera que Lukas realmente não tem emprego.

Se é raro entabular conversa em inglês por aqui, como também é raro no Brasil, não deve ser motivo de surpresa que, na Polônia, eu – João – tenha conversado com Lukas e Bartolomeu. Nomes bíblicos também são relativamente comuns no país. O catolicismo é bastante presente na Polônia, nas cidades, nas ruas. Ao fim da Mariacka, uma rua de bares e restaurantes, está a Igreja de Santa Maria, construção de estilo gótico, erguida no Século XIX.

Igreja Santa Maria Katowice

No albergue da Rua Plebiscytowa, meu endereço por três semanas, uma senhora me garantia ser católica ortodoxa e que só orava em latim. Pediu-me, gentilmente, quando lhe disse de onde eu era, que a deixasse gravar minha voz rezando uma Ave Maria em português, já ajustando seu telefone celular para gravação. O pedido poderia ter me incomodado um tanto, já que se trata de uma fé que não professo há muito, mas sua gentileza de me dar uma medalhinha com motivo cristão e uma foto do Papa João Paulo II já me haviam persuadido.

Ela me explicou que o marido dela é neozelandês e estava na Austrália. E me mostrou fotos de sua casa e de uma viagem que fizera com o marido à terra dele, até que, por fim, sacou uma revista da bolsa enorme que trazia, enquanto me perguntava alguma coisa que terminava com “Isaura”. Só quando vi Lucélia Santos na capa daquele magazine polonês de setembro de 2014 foi que entendi que ela apreciava a novela global tão exaustivamente repetida mundo afora.

Lucelia Santos capa

Admito que uma revista polonesa com atriz brasileira na capa dentro da bolsa de uma católica ortodoxa – que não deve ter notado que a matéria trazia a reprodução, num canto de página, da capa da Playboy com a atriz – me causou tanto espanto quanto me perguntarem, no Pizza Hut do shopping da cidade, o Galeria Katowice, se eu pediria novamente espaguete à bolonhesa, já na segunda vez em que eu fui lá.

Ser brasileiro de óculos, gordo, carregando uma mochila às costas deve ter feito meu rosto se tornar rememorável facilmente. Um casal me oferece uma vela de incenso. É a segunda vez. Os dois estão disputando espaço na rua, de frente ao shopping, com distribuidores de panfletos (de escolas de idioma, de restaurantes, de promoção em loja, de consultórios médicos). Fazia duas semanas que os havia visto. Na primeira ocasião, me prometeram que as velas eram afrodisíacas. Na segunda, testei se se lembravam de mim. Claro! você não é brasileiro? Claro que eu comprei mais uma vela por um zloty.

Despeço-me da dupla e vou para o ginásio, que fica perto dali. O Spodek – não o Atlas, que é vigiado por Sylvia. E no Spodek, tão certo quanto eu vá encontrar Sylvias nas arquibancadas e nos corredores, é que o DJ do ginásio vai percutir no alto-falante, entre as músicas de seu repertório, uma da banda de rock polonesa Maanam, chamada Szare Miraze – em português, Miragens cinzas –. O hit é do início da década de 1980, ainda do período comunista da Polônia, fala de segredos e da falta de liberdade das pessoas comuns.

Penso no hino russo vaiado.

Mas penso também na celebração nas arquibancadas, na liberdade de pessoas comuns erguendo cachecóis em vermelho e branco, e me lembro de Sylvia sorrindo sem ofensa, depois de a seleção de jogadores de vôlei de seu país haver vencido uma partida. Aí, eu me lembro das camisas amarelas nas ruas de minha cidade vestindo gente comum em dias de Copa do Mundo. E acabo quase esquecendo por que Sylvia sorria discretamente naquela terça-feira, às 23h02 do dia 16 de setembro de 2014, no Atlas Arena, em Lodz, na Polônia.