Diário dos Mundiais #27 – O que mais importa

Diário dos Mundiais #27 – O que mais importa

Eba’a Mballa bloqueia Tandara e vibra como se isso fosse mais do que fazer o terceiro ponto de Camarões no segundo set. Christelle Nana, quando crava pela saída, parece querer multiplicar-se para abraçar, num abraço só, suas companheiras em quadra e cada torcedor camaronês na arquibancada. A alegria das camaronesas por poder testar seu voleibol contra as “campeãs olímpicas”, como ressaltava seu treinador, Jean Rene Akono, após o jogo, é daqueles momentos que deviam sair nunca da memória.

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A Seleção Brasileira já estava em quadra, entretida em alongamentos, quando as africanas chegaram para a disputa. Estavam em fila, e dançavam e pulavam como se viessem para ver o jogo, para apreciá-lo ou para receber um prêmio.

Se o ideal olímpico reza que “o importante é competir”, o poeta e contista argentino Jorge Luis Borges disse que o meio é mais importante do que os fins. “Busca pelo agrado de buscar, não pelo de achar”, recomenda o escritor. Pois nesta quarta-feira, em Trieste, a Seleção Camaronesa feminina de Vôlei atestou a eficácia das duas assertivas. Participou e fez do caminho a chegada dos fins.

A República dos Camarões é um dos países mais pobres do globo terrestre, tem quase todas suas parcas glórias esportivas atreladas ao futebol. Ter um time de vôlei um campeonato mundial feminino – teve também no masculino – não deve ser tarefa fácil para quem tem, se muito, um esporte semi-amador insipiente. Que aspirações têm, no voleibol, as jogadoras dessa Seleção?

Enquanto as gigantes do esporte devem pensar em pódio e títulos, para as meninas camaronesas o troféu foi vir à Itália, terra da melhor liga de vôlei do mundo, disputar um campeonato dessa magnitude e enfrentar o Brasil.

O jogo, as reservas do Brasil o ganharam por 3 sets a 0. Mas as jogadoras de Camarões – todas elas – o haviam vencido antes mesmo de subir a bola, antes de chegarem à quadra, antes de pegar o ônibus e virem para o ginásio.

E o maior feito da Seleção Brasileira na partida não foi ter descansado jogadoras titulares ou ter dado ritmo de jogo à reservas ou ter se mantido na dianteira da tabela. O ponto que as brasileiras conquistaram hoje foi ter notado o quanto importava às adversárias o jogo e o campeonato em si. O Brasil venceu o jogo reconhecendo que a vitória maior foi de Camarões.

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NÃO TÁ BELA O título desta nota é uma homenagem a um amigo, falecido no ano passado, efusivo amante de trocadilhos e do jogo de xadrez. Jogador de torneios amadores na cidade, sempre que montavam as tabelas da competições ele perguntava se “a tabela tá bela”

Pois vendo a tabela do mundial feminino de vôlei, posso responder ao Prof. Ivaldo que, não, professor, não tá bela.

A Tunísia enfrentou a Itália na terça-feira à noite. A partida atrasou quase meia hora, por conta do tie break no jogo imediatamente anterior, entre Rep. Dominicana e Alemanha, e só começou às 20h28 – horário de Roma. Jogo fácil, a Itália fechou a conta às 21h37. Aí, na quarta-feira, eis que a Tunísia, às 10h30, abre o dia encarando a República Dominicana – e perdendo.

Tunisia players before the match

Não que o resultado fosse diferente do 3 sets a 0, se a Tunísia tivesse mais umas horas ou dias de descanso. Mas soa como desrespeito às atletas obrigá-las a um jogo de campeonato mundial apenas 13 horas depois de ter saído de quadra.

Os EUA poderiam ter tido o mesmo problema, já que jogaram a última partida de ontem e a primeira de hoje. Mas, como ontem puseram um time reserva para derrotar o fraco time do México e as titulares para bater o Cazaquistão, pode-se dizer que o desgaste foi menor, mas que o desrespeito foi o mesmo.

Contudo, no fim de semana, a Turquia terá a mesma e com um agravante: o jogo da noite de sábado é contra o Brasil. Já pensou se a Turquia faz um jogo de cinco sets, como foi em Londres/2012 ou no Grand Prix deste ano, e precisa voltar à quadra na manhã do domingo? Pelo menos, o jogo do domingo será o mais tranquilo possível para as turcas, é contra Camarões.

Mas isso não diminui a bola na antena da FIVB, que não atentou para o descanso das atletas, na hora de confeccionar a não tão bela tabela.