Diário dos Mundiais #43 – Saldos e perspectivas

Diário dos Mundiais #43 – Saldos e perspectivas

O Brasil encerra os mundiais de 2014 sem nenhum título. Essa é uma maneira de encarar a campanha do voleibol brasileiro na Europa. Outra, é dizer que o vôlei nacional voltou com duas medalhas para a coleção. O copo quase cheio e o quase vazio não são excludentes. A realidade e a história do vôlei nacional permitem avaliar os resultados com otimismo e sisudez, simultaneamente. Os dois corpos ocupam o mesmo lugar.

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Diário #42 – Medalha de bronze

No superlativo, é inegável que houve uma queda – ou um tropeço, vá lá. As duas seleções desceram um degrau no pódio em relação a 2006 e 2010. Visto isoladamente, como se num universo paralelo dentro do próprio vôlei, dá para dizer que o vôlei brasileiro encolheu: o que era ouro, virou prata; e o que era prata, bronze. Curiosamente, em 2010, o número de derrotas foi o mesmo deste ano: o masculino perdeu duas vezes e o feminino, uma. A diferença, obviamente, é que em 2014 as seleções brasileira perderam quando isto significava decréscimo irrecuperável.

Mas e no comparativo?

No comparativo, a bandeira do Brasil foi a única hasteada em Katowice e em Milão. Em 2006 e em 2010 também foi assim: só o Brasil estava nos dois pódios. Aliás, neste ano, só o Brasil chegou às duas semifinais – como em 2010, diga-se.

A Rússia era campeã olímpica no masculino e mundial no feminino, mas não foi além da terceira fase nos dois campeonatos. Os EUA venceram a Liga Mundial e foram eliminados pela Argentina, no masculino, num jogo de segunda fase; o Japão, que lutou com o Brasil pelo título do Grand Prix, também não chegou ao terceiro nível do mundial. O comparativo do vôlei nacional com o das outras nações, neste aspecto, é otimista. Mas e campeonato a campeonato?

Antes dos mundiais, havia a ideia de que o Brasil precisaria vencer a Rússia para ficar com os títulos. Ninguém, decerto, inspirava mais medo e respeito do que o time de Muserskiy e o de Gamova. Se o parâmetro for esse, o êxito do Brasil é inconteste. Foram três jogos – dois no masculino, um no feminino – e três vitórias do Brasil. O problema é que, entre as tropas de elite do vôlei mundial, os inimigos agora eram outros.

Dá até para dizer que a Polônia não seja um adversário que vá causar pesadelos, no masculino, embora sua conquista mostre que a seleção verde-amarela não está imune a derrotas para um adversário pretensamente superado. Mas a saída precoce do time que venceu o Brasil na Liga Mundial e a dificuldade para vencer a França no jogo semifinal farão o torcedor ficar mais atento: a diferença dos brasileiros para a concorrência (Rússia à parte, é claro) não era tão grande quanto se pensava e talvez seja ainda menor de agora por diante.

Se o time só encontrou regularidade no passe com Murilo, os problemas físicos do ponteiro e sua idade (com 33 anos, ele mesmo acha difícil jogar mais um mundial) colocarão sempre em interrogação as reais possibilidades de título da Seleção Brasileira, até que se arrume, finalmente, sua linha de passe.

No feminino, a derrota para os EUA em sets diretos foi um baque, é verdade. O Brasil não perdia por 3 a 0 em mundiais desde 2002, quando para os próprios EUA. Mas jogos duros contra Holanda, Sérvia e Turquia também devem servir de alerta: assim como em relação ao time masculino, a distância da concorrência diminuiu.

Outro ponto a se pensar (e se preocupar) é a renovação. Cinco titulares do time, Dani Lins, Sheilla, Jaqueline, Fernanda Garay e Fabiana, terão, nas Olimpíadas do Rio, 30 anos de idade ou mais. A título de comparação: nos Jogos de Londres, a única titular nessa faixa etária era Fabi; em Pequim, Fofão; em Atenas, Fernanda Venturini, Virna e Arlene. Jogar uma Olimpíada com um time envelhecido por não ser ruim para os Jogos em questão, mas, seguramente, implicam em mudanças (bastante radicais, ao que parece) para o ciclo olímpico seguinte.

Na contabilidade geral dos mundiais de vôlei, o Brasil mantém-se como o melhor voleibol das quadras, a despeito de não haver conquistado título, mas por ter-se mantido competitivo nas duas modalidades e ter trazido duas medalhas na bagagem. Porém, se campeonato mundial não é fim, já que as Olimpíadas é que são o ponto culminante das escaladas do vôlei, os torneios deste ano mostram que, no Rio, em dois anos, as duas seleções terão mais adversários com que se preocupar do que tiveram nas últimas vezes e também que a força dos times de Bernardinho e Zé Roberto Guimarães, embora considerável, não isenta suas seleções de alguma desconfiança.