Do berço à quadra: o vôlei pré-olímpico

Do berço à quadra: o vôlei pré-olímpico

Diferentemente de esportes cuja origem se perdeu no tempo – o futebol é um deles –, o vôlei tem certidão de nascimento bem conhecida. Seu pai, o professor de educação física William Morgan (foto), queria uma prática esportiva que evitasse a violência do contato do basquete, esporte criado em 1891 por James Naismith, pois pretendia difundi-lo entre os mais velhos. Daí, em 1895, inspirado no tênis, o norte-americano criou o Mintonette, jogo que passaria a se chamar “volleyball” por sugestão de um colega de Morgan, o também professor Alfred Halstead.

A atividade ganhou mundo como recreação escolar e, menos de duas décadas depois de nascido, o vôlei já era praticado em escolas da Ásia, América Latina, Europa e África. Sua expansão ligeira, a fixação de regras nos anos 20 e os primeiros campeonatos nacionais na década de 30 levaram à criação, em 1947, da Federação Internacional de Voleibol (FIVB) – 15 anos depois de fundada a Federação Internacional de Basquetebol (Fiba).

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Mas, se a Fiba existia desde 1932 e o basquete era esporte olímpico desde 1936, a FIVB não deixou por menos. Em 1949, a entidade organizou o primeiro campeonato mundial masculino e, em 1952, o primeiro feminino, sempre um ano antes de o basquete ter suas primeiras competições similares.

E como o tênis serviu de inspiração para criar o esporte, uma quadra de tênis ao ar livre, em Praga, na então Tchecoslováquia, foi adaptada para ser palco do Primeiro Campeonato Mundial de Vôlei. O torneio teve dez participantes, todos europeus. Foram quatro seleções da Europa Ocidental e seis países comunistas. A vantagem vermelha foi nítida: cinco das seis seleções na fase final eram da Cortina de Ferro.

Mundial 1949 masc

O primeiro campeão do mundo foi a URSS, com uma vitória sobre a Tchecoslováquia na última rodada por 3 sets a 1. Restou ao time da casa, que não havia perdido nenhum set até ali e que fora campeão europeu em 1948 (onde foi o único país comunista na disputa), o vice-campeonato.

Três anos mais tarde, também em disputas a céu aberto, Moscou recebeu a segunda edição do mundial masculino e a primeira do feminino. As finais no Estádio do Dínamo de Moscou tiveram presença de público estimada em 50 mil espectadores – casa cheia, como a foto sugere:

1952 mundial feminino

A novidade foi a participação da Ásia: Líbano e Israel enviaram seleções masculinas, enquanto a Índia disputou as duas modalidades. A participação asiática, entretanto, não mudou o rumo das coisas. O domínio do leste europeu se manteve e os soviéticos abocanharam os dois troféus – desta vez, sem perder nenhum set, nem no masculino, nem no feminino.

Quando os campeonatos mundiais foram para a França, em 1956, só o título invicto das soviéticas guardava lembrança dos certames anteriores. Pela primeira vez e dali por diante, os campeonatos mundiais de vôlei passaram a se realizar ao abrigo do vento, do sol e da chuva. Foi num ginásio fechado onde os tchecos conquistaram, em Paris, o primeiro mundial de vôlei de sua história. Uma derrota para o Japão na última rodada da segunda fase, com o ouro já assegurado, tornou os tchecos os primeiros campeões não invictos.

Este filme produzido durante o campeonato pelo Ministério da Educação Nacional, Juventude e Esporte da França, em parceria com a Federação Francesa de Voleibol, dá uma ideia de como era a preparação dos atleta e o vôlei disputado daqueles tempos idos (note que até o segundo árbitro tinha uma cadeira).

Também foi na França que a história do Brasil em mundiais de vôlei começou. Em 30 de agosto de 1956, com uma vitória sobre a Índia por 3 sets a 2, o time masculino do Brasil estreou em campeonatos do mundo. Uma derrota para a China no jogo seguinte alijou a Seleção da fase decisiva e a colocou no torneio de consolação, onde nove vitórias – inclusive sobre seleções que um dia seriam algumas de suas grandes rivais, como Itália, Holanda e Cuba – deixaram-na em 11º lugar entre 24 participantes.

A mesma posição foi obtida pelo time feminino. Com derrotas para Coreia do Norte e Romênia na primeira fase, as brasileiras foram para o torneio secundário e, com seis vitórias – uma delas, sobre o time da casa – asseguram o 11º lugar. Nada mal para um time principiante.

Quatro anos depois, os mundiais saíram da Europa e aportaram no Brasil. Em 1960, soviéticos e soviéticas deram chance a ninguém e voltaram para casa campeões sem derrota. Os campeonatos foram disputados ao mesmo tempo, e teve sede nas cidades de Volta Redonda, Belo Horizonte, Santos, Santo André, São Paulo, Niterói e Rio de Janeiro.

1960 mundial

No Maracanãzinho, o Brasil teve derrotas honrosas para os russos e as russas, ambas por 3 sets a 1, no dia de encerramento de cada torneio, e legaram à Tchecoslováquia o vice-campeonato no masculino e ao Japão, o segundo lugar do torneio feminino – uma estreia promissora para uma seleção que dominaria, logo em seguida, o cenário mundial do vôlei. Ao Brasil, o quinto lugar nos dois torneios disputados em casa.

Em 1962, os mundiais voltaram à Europa, mais especificamente, à URSS. Se o time masculino da União Soviética ganhou pela quarta vez, o mesmo não coube ao time feminino. A diferença de apenas dois anos para os mundiais no Brasil se deveu ao fato de que, em 1964, o vôlei passaria a fazer parte do calendário olímpico, o que inviabilizaria um mundial quatro anos depois daquele na América do Sul. A partir dali, as olimpíadas passaram a ter, para a FIVB, a mesma importância que o campeonato mundial, embora, para as seleções, escrever o nome no olimpo se tornasse para sempre uma ambição maior do que a de conquistar o mundo.

Na época em que o campeonato mundial era o torneio máximo do universo do vôlei, a URSS venceu quatro vezes o torneio masculino e três o feminino. A Tchecoslováquia foi quem chegou mais perto de contestar esse domínio nos certames masculinos, mas nada que mudasse muito o eixo do vôlei: a Europa Oriental mandou no vôlei masculino pré-olímpico e continuou mandando até a década de 80.

O mesmo não se pode dizer do feminino. O vice-campeonato japonês em 1960, no Rio de Janeiro, foi o prenúncio de uma era.

This article has 2 comments

  1. Parando pra pensar, se inspirado pelo tênis, nada mais natural que no início se jogasse a céu aberto. Mas é algo – exceção, claro, ao vôlei de praia -talvez impraticável hoje em dia, para um jogo que se tornou tão veloz. Gostei desse mergulho na história do esporte e aguardando as continuações. Um abraço.

  2. Parabéns ao blog por resgatar a história dos Mundiais! Com certeza acertaram em cheio no tema e aguardo ansioso pelos próximos.
    Sobre o post, me chama atenção referente à essa época, é como o vôlei caiu de produção na Europa oriental na atualidade. Com exceção da Rússia (herdeira da URSS) e mais uns dois ou três países, hoje República Tcheca, Romênia, entre outros se tornaram inexpressivos até a nível continental (vide seus resultados nos últimos campeonatos europeus).