Geração dos Fenômenos: quando a Terra era Azzurra

Geração dos Fenômenos: quando a Terra era Azzurra

O campeonato italiano de vôlei existe desde a década de 1940, quando era administrado pela FIPAV, a federação nacional. Foi a partir de 1987, com a criação da Lega Pallavolo, que os clubes passaram a gerir o torneio. A liga se preocupava não só com o vôlei praticado em quadra como também com direitos econômicos de seus associados. A organização profissional se tornou modelo, atraiu jogadores de todo o mundo. A Maxicono Parma, quando foi campeã nacional e mundial em 1990, tinha medalhistas olímpicos e mundiais, como o norte-americano Jeff Stork e o brasileiro Renan Dal Zotto. A ida de estrangeiros para jogar na Itália era tão comum, que a Seleção Argentina, sexta colocada no mundial do Brasil, em 1990, tinha dez jogadores atuando na Lega.

Os clubes italianos, que já ensaiavam dominar o continente nos anos 80, não encontraram rivais à altura na década de 90: de 1990 a 2000, só uma vez o campeão europeu masculino de clubes não foi um time da bota. Além disso, nos quatro mundiais de clubes realizados entre 1989 e 1992, todos os campeões foram italianos.

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A muralha da China e o último troféu soviético

Por outro lado, a ideia de que clubes importadores formam uma seleção fraca não funcionou no time masculino do país. A chegada de estrangeiros para disputar o campeonato nacional não enfraqueceu em nada a Squadra Azzura. Ao contrário, nunca na história do vôlei a Seleção da Itália foi tão forte como quando seus clubes eram os melhores do mundo. Logicamente, além da profissionalização do vôlei, houve também uma geração de jogadores que levou a Itália ao topo no esporte. Era a Generazione di Fenomeni (Geração dos Fenômenos).

Curiosamente, a base da seleção que naufragou nos Jogos de Seul/1988 foi a mesma que logo depois dominaria os rivais do outro lado da rede. Um time com Giani, Zorzi, Gardini, Cantagalli, Bracci, Luchetta e Bernardi no elenco terminou a primeira fase em quinto lugar, num grupo de seis times, com duas vitórias e três derrotas, e foi nono colocado no geral. Pensando na medalha de bronze conquistada em Los Angeles/1984, o torneio em Seul foi desalentador, mas não condenou ao ostracismo os jogadores que renovavam a Squadra naquele ano.

Pois em 1989, a Itália conquistou o título europeu pela primeira vez, interrompendo uma sequência de nove títulos dos soviéticos. Para completar, na primeira edição da Liga Mundial, em julho de 1990, a Itália levantou o troféu, repetindo a dose, um mês depois, nos Goodwill Games. Ali, não havia muita dúvida sobre o que a Itália poderia fazer no campeonato mundial do Brasil, em outubro.

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Os principais adversários dos italianos poderiam ter sido os EUA, mas a seleção campeã mundial e bi-olímpica trouxe um time quase experimental para o Brasil e teve um fracasso retumbante. Com três derrotas nos três jogos da primeira fase, os norte-americanos foram para um torneio de consolação entre os piores e terminaram no 13º posto entre 16 equipes.

Ou os principais rivais poderiam ter sido os soviéticos. Depois de uma primeira fase invicta, a URSS perdeu para a Argentina num jogo para decidir o emparceiramento dos mata-matas. A derrota no confronto entre líderes pôs os vermelhos no caminho de uma vitória sobre a Bulgária, nas quartas, mas também no da eliminação nas semifinais.

Talvez os brasileiros pudessem parar a Itália, já que, na Liga Mundial daquele ano, apesar do título dos europeus, o Brasil conseguiu vencer três das quatro partidas disputadas entre as duas seleções. E, de fato, a Seleção Brasileira foi uma adversária à altura.

Com a saída de grande parte dos jogadores da Geração de Prata, depois do quarto lugar em Seul/88, o Brasil venceu a Argentina, bronze nas Olimpíadas, no sul-americano de 1989, em Curitiba. O time com Maurício, Giovane, Tande, Carlão, e, no mundial de 1990, também com Marcelo Negrão e Paulão encantaria o país e se transformaria na Geração de Ouro.

Naquele Mundial, a primeira fase do Brasil teve apenas um susto, quando foram necessários cinco sets para vencer a Suécia, então, vice-campeã europeia. No jogo entre líderes, uma derrota dramática para Cuba, depois de estar à frente por 2 sets a 0, pôs o Brasil em ação contra a França, nas quartas de final. Era a chance de vingança dos franceses pela eliminação sofrida em casa, para os brasileiros, quatro anos antes. Mas…

Com uma vitória em 3 a 0 e com um inquestionável 15-0 no segundo set, o Brasil estava, pela terceira vez consecutiva, entre os quatro melhores times de um campeonato mundial. A Seleção de Bebeto de Freitas ia encarar a Itália, do técnico argentino Julio Velasco. E o embate entre os dois times só foi decidido no tie break.

Até 1988, o quinto set era disputado no mesmo ritmo dos quatro primeiros: só pode pontuar o time que tem o saque. Mas, no ciclo olímpico para Barcelona, a FIVB inseriu duas mudanças para diminuir o tempo de jogo: vence o set quem fizer 15 pontos com limite de 17 pontos, e, no quinto set, valeria o sistema de pontos diretos, o que trouxe rapidez e dramaticidade à parcial de desempate.

1990 Brasil Itália

Depois de um jogo em que o Brasil venceu o primeiro e o quarto sets facilmente e a Itália, o segundo e terceiro sem grandes dificuldades, o quinto set foi um jogo de gato e rato: a Itália fugia e o Brasil encostava, e foi assim até o final.

O vídeo é da italiana Telemontecarlo, começa com o narrador, no Maracanãzinho, chamando a retaguarda insistentemente, mas tudo se ajeita em poucos minutos – aparentemente, a emissora só começou a transmitir a partida com o terceiro set em andamento.

Mesmo com uma semifinal definida em cinco sets contra o time da casa, os grandes adversários dos italianos foram, mesmo, os cubanos.

1990 Itália Cuba

Cuba tinha vencido a Copa do Mundo de 1989 e, na primeira fase do mundial, impôs uma derrota à Itália por 3 sets a 0. Não seria exagerado, inclusive, dizer que Cuba fosse ligeiramente favorita ao título, naquele domingo, no Rio de Janeiro.

Mas depois da vitória de Cuba num equilibrado e longo primeiro set, a Itália reverteu a vantagem caribenha. A seleção de Joel Despaigne não foi páreo para a Azzurra, que conquistou seu primeiro título mundial em quatro sets, com 12-15, 15-11, 15-6, 16-14. O vídeo tem o primeiro e terceiro sets quase completos, e os últimos pontos do set decisivo. Vale a pena ver a comemoração inebriada dos italianos, com direito a Gardini subindo na cadeira do árbitro para comemorar o triunfo, mas sem nem esperar que o apitador deixasse o assento!

Na decisão do terceiro lugar, a URSS venceu o Brasil facilmente, em sets diretos, e encerrou sua história nos mundiais de voleibol com uma medalha de bronze. Se a URSS dominara o vôlei em grandes fatias do século XX e se os EUA tinham, nos anos anteriores, descoberto um jeito de ganhar de todo mundo, a década de 1990 prometia ser da Itália, que mandou e desmandou nos campeonatos e ligas mundiais. O time conquistou o mundo. Mas só o mundo.

(Algumas das fotos utilizadas nessa postagem estão no blog Voleibol Maranhense)

This article has 2 comments

  1. Eram incríveis mesmo… mais incrível ainda é o fato de nunca terem sido campeões olímpicos. 2 eliminações pra Holanda e uma pra Sérvia nas olimpíadas de 92, 96 e 2000.
    Depois, já bem modificado ainda foram vice em 2004 pro Brasil.

  2. Obrigado por relatar como foram as semifinais daquele Mundial de 1990. Foi o primeiro torneio de vôlei de alto nível que pude acompanhar (apenas razoavelmente, devo dizer) e não me lembrava bem. É, e de fato, aquela geração fenomenal não conseguiu ser campeã olímpica.