Grande virada: socialistas superam os mestres

Grande virada: socialistas superam os mestres

A ascensão japonesa no vôlei masculino, com a inclusão do esporte no programa olímpico, em 1964, rendeu à seleção da terra do sol nascente um ouro, uma prata e um bronze olímpicos, dois terceiros lugares em mundiais e nada além. Os nipônicos até saíram de Munique com uma medalha de ouro no peito, mas nunca voltaram para casa com um troféu do campeonato do mundo. Se serve de consolo, a URSS, o grande time da época, também voltou para Moscou de mãos abanando nos três primeiros mundiais da era olímpica do vôlei. Quem fez a festa nos primeiros mundiais pós-olímpicos era partidário dos russos, mas não deu chance aos camaradas de Khrushchev.

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Logo na primeira fase do mundial da Tchecoslováquia, em 1966, o time soviético deve ter notado que o pentacampeonato não seria missão das mais fáceis. Com sete campeões olímpicos de dois anos antes e cinco que conquistariam o ouro no México, em 1968, a URSS, pela primeira vez, perdeu um jogo das rodadas iniciais. Na última rodada da fase classificatória, a Hungria, que, sequer, se classificou para as finais, bateu os russos por 3 sets a 2. Na fase decisiva, novas derrotas por 3 a 2 para a Tchecoslováquia, Japão e Romênia os afastaram de qualquer briga pelo título. Restou-lhes a medalha de bronze.

Já os tchecos, que recebiam o torneio masculino pela segunda vez, conquistaram o bicampeonato com uma rodada de antecipação, numa vitória por 3 a 1 contra a Alemanha Oriental. A briga, na rodada final, era apenas pelo segundo lugar, e este ficou com a Romênia. O Japão bem que conseguiu vencer os tchecos na partida de encerramento, mas nada que fosse além de uma carimbada na faixa de campeão do time da casa.

A Bulgária recebeu os mundiais masculino e feminino, em 1970. Se entre as mulheres o domínio soviético foi absoluto, incontestável, o torneio masculino pode ter sido um dos mais equilibrados da história, decidido numa das viradas menos críveis que o vôlei já concebeu.

1970 alemanha

Depois de uma primeira fase sem conceder um set a ninguém, Bulgária e Japão se enfrentaram na rodada de abertura da fase decisiva. A vitória búlgara por 3 a 2, depois de perder as duas primeiras parciais, credenciou o time da casa à luta pelo título e afastou um tanto os nipônicos da briga. Uma derrota no dia seguinte para a URSS limou as chances japonesas de conquista.

Aliás, a União Soviética teve uma campanha tão inusitada que os teóricos da conspiração bem poderiam achá-la suspeita. Da primeira fase, levaram como resultado uma derrota para a Alemanha Oriental. E na fase decisiva, os soviéticos venceram belgas e japoneses, mas perderam para búlgaros, tchecos, poloneses e romenos. Ou seja, vitórias contra capitalistas, derrota para os comunistas e um sexto lugar na bagagem, a pior campanha da URSS de sua história, única vez que não ganhou medalha num mundial – estatística que exclui a Rússia, sétima em 1994 e 2006.

Até a penúltima rodada, Bulgária e Alemanha Oriental eram as últimas invictas e as únicas seleções ainda na briga. Nem mesmo uma derrota dos alemães do lado vermelho para o Japão, que deu aos orientais o terceiro lugar, lhes tirou a chance do título, embora tivesse freado um pouco o ímpeto do time, que acumulava vitórias seguidas em sets diretos contra Polônia, Tchecoslováquia, Bélgica e Romênia.

Por coincidência, Bulgária x Alemanha Oriental, em 2 de outubro de 1970, em Sófia, a última partida do campeonato, decidiria mesmo o mundial de vôlei. Dali sairia um vencedor inédito, o primeiro campeão masculino de vôlei que não fosse a URSS ou a Tchecoslováquia.

Os visitantes abriram o jogo com um 15-11 no primeiro set, mas os búlgaros não se afobaram – já tiveram de virar o 0 a 2 para o Japão – e empataram no segundo, com um 15-13. Os alemães venceram a terceira parcial facilmente (15-7) e perderam o quarto set quase sem luta (15-4). Veio o quinto set.

Importante notar que não era um tie break, mas um quinto set realmente. Não havia pontos diretos, era preciso ter o saque para poder anotar no marcador – o tie break só surgiu depois das Olimpíadas de Seul, em 1988.

E no quinto set tudo levava a crer que a toada da partida seria a mesma do set anterior. A Bulgária abriu 10-1 e chegou a 13-5. Quando tudo levava a crer no título do time da casa… bom, melhor assistir no vídeo ao que aconteceu.

A Alemanha Oriental, com dez jogadores que seriam vice-campeões olímpicos em 1972, conseguiu uma virada inacreditável e se sagrou campeã do mundo. Foi o único título mundial alemão (oriental, ocidental ou unificado, masculino ou feminino) na história do vôlei. À Bulgária restou o mais amargo dos vice-campeonatos.

Quatro anos mais tarde, no México, não houve revanche entre eles. A Bulgária caiu na segunda fase. A Alemanha Oriental, quarta colocada, não chegou nem perto de lutar pelo bi. E, ao que tudo indica, uma partida entre Alemanha Oriental e Bulgária não atrairia muito interesse naquele ano.

O torneio de 1974, pela primeira vez, teve três etapas. E a maratona, logo na primeira fase, mostrou que uma nova força se levantava no vôlei. A Polônia bateu a URSS por 3 a 1 na terceira rodada, dando uma pista do que aconteceria na fase decisiva daquele mundial e na final das Olimpíadas de 1976.

1976 polônia masc

Os poloneses venceram as 11 partidas que disputaram no torneio de 1974 e essa é, ainda hoje, a maior invencibilidade dentro de um só mundial de vôlei – a Itália venceu 11 partidas em 1998, mas teve uma derrota na campanha.

A sequência de insucessos soviéticos só chegaria ao fim no campeonato mundial seguinte, a partir do qual seus principais oponentes não eram mais os da Cortina de Ferro. O vôlei ganhava um mercado ainda inexplorado.