Já que a Liga Mundial era evento teste…

Já que a Liga Mundial era evento teste…

É verdade que o meio de rede da Seleção dos EUA, David Lee, e o levantador francês, Toniutti, explicaram, nas coletivas de imprensa, como era jogar no Rio de Janeiro um ano antes das Olimpíadas; é verdade que os jogadores da Seleção Brasileira eram lembrados, de palmo em palmo, que, até agosto do ano que vem, só nessa Liga Mundial que terminou e na próxima é que poderão mostrar à comissão técnica do time as aptidões que lhes pode valer convocação para os Jogos; e é verdade, também, que Riad, mesmo cortado por contusão, estava tranquilo, sabedor de que (1) a ruptura parcial do tendão do joelho direito não é grave o suficiente para requerer cirurgia e (2) que deverá voltar ao time nos amistosos de agosto, pois o afastamento das finais do torneio não o afastaram da corrida olímpica.

 

Tudo isso é verídico, mas, talvez pela urgência da competição em si, pelo jejum da Seleção Brasileira e pelo decacampeonato que parece chegar nunca, o clima de Olimpíadas ainda não foi além de pautas da imprensa. No entanto, o estigma de evento teste para o Rio 2016 trouxe um espectro obrigatoriamente diferente à semana.

 

O técnico Bernardinho respondeu, por exemplo, sobre o trabalho dos boleiros e do staff, para saber se atuaram à altura dos grandes eventos internacionais. Diante da resposta positiva do treinador – que, de 1980 para cá, só não atuou nas Olimpíadas de 1992 –, há que se avaliar alguns elementos que também foram testados no torneio.

 

O comportamento do torcedor brasileiro nas arquibancadas do Maracanãzinho foi quase irrepreensível no trato com os estrangeiros. Felizmente, a tradição de nossas torcidas de hostilizar os hinos de outras bandeiras ficou só para o futebol. A entrada da Seleção Francesa e a da Seleção Norte-Americana nos jogos contra o Brasil receberam aplausos dos presentes e as pragas aos rivais foram relegadas ao transcorrer das partidas. Até mesmo a vaia mais efusiva ao ponteiro francês Ngapeth foi bem vinda, faz parte de um espetáculo cuja atrativo é a contenda. Para tirar dez, só faltou a torcida não ter vaiado o árbitro Hernan Casamiquela quando anunciado – ou melhor, só faltou não ter apupado o argentino.

 

Um teste inesperado por que passou o torcedor de ingresso comprado foi o de comparecer ao ginásio, mesmo sem a presença da Seleção Brasileira no torneio. Aí, mais uma vez, dá para falar em aprovação. No sábado, havia cerca de 6 mil espectadores para o jogo entre EUA e Sérvia e, no domingo, 7,3 mil para a final, entre França e Sérvia. Foi o maior público da semana. O torcedor, turbinado pela eliminação do Brasil na segunda fase para EUA e França e pela forma como se deu a desclassificação, escolheu o lado sérvio para vingar o selecionado nacional. E a festa, surpreendentemente, foi bonita. Vestida em verde e amarelo, a torcida presente no fim da semana, diferentemente do que acontecias nas partidas do Brasil, não limitou o incentivo às chamadas do locutor do Maracanãzinho.

 

A atuação do locutor é que não deve ter servido como parâmetro para o que vem nas Olimpíadas. Claro que, recordando a locução ufanista e parcial do mundial da Polônia, faz sentido que o brasileiro também agigante a torcida local para empurrar os atletas da casa. Normal. Mas e nos Jogos? Evidentemente nas finais o sistema de disputa é diferente, mas na fase preliminar da Liga Mundial, joga-se lá e cá, ida e volta, no seu terreiro, mas no meu também. Se o autofalante de um ginásio percute gritos de ordem para o time da casa, a via é de mão dupla. Mas, nas Olimpíadas, não. O locutor não vai gritar “Vai, Brasil”, nem o telão vai pedir “Ace” só para um lado. O estilo vai ser outro e, no evento teste, não foi testado.

 

A venda de ingressos pela internet foi provada e precisa ser revista. Os vazios nas numeradas contrastaram com a procura de ingressos do lado de fora do ginásio. Se o Maracanãzinho tem capacidade para 11 mil espectadores (será de 12 mil, nas Olimpíadas) e o público presente para Brasil x França foi de 4,7 mil e entre Brasil x EUA, 7 mil, não seria melhor entender que é do costume do brasileiro comprar ingresso na bilheteria, no dia do evento?

 

Não seria uma boa vender fisicamente – e não, virtualmente – os ingressos que a internet não der conta de comercializar? Já que os locais de competição estão divididos em quatro regiões da cidade – Deodoro, Barra da Tijuca, Copacabana e Maracanã –, faria mal à organização das Olimpíadas instalar uma bilheteria em cada uma delas, vendendo apenas os tíquetes ainda restantes para aquele dia específico de competições no setor?

 

O metrô, em escala bastante reduzida, foi testado e, pela ausência de críticas, aprovado. Já a sinalização do evento nos arredores faltou. Em Londres, havia placa indicativa para os locais de competição a mais de quilômetro de distância, enquanto a única sinalização para o visitante de que ele estava chegando ao palco das finais Liga Mundial era na Estação Maracanã do metrô, mas sem setas nem direcionamentos, apenas, cartazes da FIVB.

 

O espaço de tempo entre os jogos também foi testado. Por isso é que causou estranheza – a mim, pelo menos, causou, logo no início – que o segundo jogo da rodada fosse marcado para duas horas depois do início da primeira partida, sendo tão provável que atrasasse – como de fato atrasou –, mas é que nas Olimpíadas será assim também.

 

Diariamente, na fase de grupos, serão seis partidas disputadas no Maracanãzinho, duas em cada turno. A rodada dupla da tarde, por exemplo, deve começar às 15h e, pela programação, terminar às 18h50, com a programação noturna tendo início às 20h30. Por que o intervalo? Os ingressos para cada turno são diferentes. Assim, finda uma rodada dupla, há que se esvaziar o ginásio e preenchê-lo novamente nesse ínterim. E aí, quem confeccionar a tabela deve atentar que, nos jogos de quinta-feira, por exemplo, sem nenhum tie break, o jogo entre Brasil e EUA começou às 14h05 e terminou às 16h26, enquanto o segundo, entre Polônia e Itália, que começaria às 16h05, só teve início às 17h para terminou às 19h.

 

Caso a rodada, na hipótese de que já vogasse o calendário olímpico, começasse às 15h, só terminaria às 19h55, deixando apenas 35 minutos de intervalo para os jogos da noite. Imagine um ginásio repleto, com 12 mil torcedores para sair e outros 12 mil na fila para passar o bilhete no leitor de código de barras, entrar e se acomodar, tudo feito em pouco mais de meia hora? Nesse ponto, o evento teste cumpriu seu papel: quem marcar para o mesmo turno dois jogos que previsivelmente teimem em não terminar assume a responsabilidade pela velocidade e segurança de entrada e saída dos torcedores.

 

Outro ponto que foi testado de novo e, ao que parece, reprovado pela crítica, pelos atletas, comissões técnicas, pelos jornalistas e pelo público foi o desafio eletrônico. O auxílio da câmera é um grande avanço, só que, enquanto o vídeo check também puder servir para apenas interromper o jogo e não for utilizado como no tênis – quando só vale revisar o último instante, e não qualquer momento do rally –, o mecanismo vai irritar e retardar mais do que solucionar. Se a FIVB não quiser jogos que se arrastem em interrupções, precisa definir melhor o uso do vídeo.

 

O que a Liga Mundial mostrou foi que, de certo modo, com um ou outro ajuste, dá para dizer que o vôlei olímpico vai ser organizado condignamente. E, pelo voleibol apresentado e pela eliminação precoce, dá para dizer também que a Seleção Brasileira precisa de muitos ajustes e certamente sentirá falta de mais testes – a saber, especificamente, vai se ressentir de não jogar a Copa do Mundo. Mas a Copa do Mundo e o efeito que a seleção vai sentir por não disputar o torneio é assunto para outra ocasião.

 

Fotos: João Batista Jr.

This article has 1 comment

  1. Olá, tudo bem. Parabéns, achei o texto ótimo. Gostaria de citar como negativa a situação dos vendedores no Maracanãzinho e saber como isso funcionará nas Olimpíadas. Incomodou bastante as ocasiões em que os vendedores passavam no meio dos torcedores mesmo com os jogos ocorrendo. Sem falar dos esbarrões de bolsas e isopor.