Karpol japonês

Karpol japonês

Quem acompanhou atentamente o vôlei dos anos 80 e 90, se lembra do emblemático Nikolay Karpol, técnico da ex-URSS e, depois, da Rússia. Raramente importava o placar, se adverso ou favorável: pedidos de tempo ou tempos técnicos, inovação da década retrasada, eram pretexto para o treinador gritar com as russo-soviéticas até a veia do pescoço saltar ou até a cor da pele delas sumir. Era um instante que não precisava de transliteração do russo para nenhum outro idioma, pois era transparente, no alívio das atletas em voltar à quadra, que sacar na rede e atacar na antena não eram pior do que ouvir as recomendações(?) de comandante. Mas ele não foi o precursor da rigidez no vôlei. Esse título pode ser atribuído a Hirofumi Daimatsu.

Hirofumi Daimatsu

O 53º Congresso do Comitê Olímpico Internacional, em 1957, em Sófia, definiu que os Jogos de 1964 seriam os primeiros a oferecer vôlei no cardápio olímpico. Com a escolha de Tóquio, dois anos depois, como sede das Olimpíadas de 1964, o Japão, mesmo sem tradição no vôlei internacional, entendeu que não poderia fazer feio como anfitrião. Mais que isso. O vôlei japonês, que só em 1955 adotou a regra de seis jogadores em quadra – regra criada nos anos 20 -, passou, então, a ambicionar a medalha de ouro em casa. E e começou a montar um time para isso.

O melhor do vôlei está no Melhor do Vôlei

Do berço à quadra: o vôlei pré-olímpico

O técnico incumbido da missão de levar as japonesas ao ponto mais alto do pódio foi Hirofumi Daimatsu. É possível também encontrar a grafia “Hirobumi”, mas, a maioria dos sites e livros especializados o chama, mesmo, de Hirofumi. O certo é que suas atletas, secretamente, talvez o chamassem por nomes de tradução impublicável. A capitã do time, Masae Kasai, dizia que às vezes batia na bola imaginando o rosto de seu treinador.

Daimatsu poderia ter entrado para a história do vôlei por uma contribuição técnica ao jogo atribuída a ele – a defesa com peixinho em rolamento – ou pelo fato de ter conduzido o Japão ao ponto culminante do esporte. Porém, seria um equívoco esquecer os meios que o treinador utilizou para obter um título mundial e uma medalha de ouro olímpica.

Em 1960, Daimatsu levou um time principiante em mundiais ao vice-campeonato no Brasil. Bom, mas insuficiente.

A base da Seleção Japonesa foi contratada por uma fábrica de tecidos – nos tempos do amadorismo, era comum os atletas serem contratados como empregados de firmas ou empresas para receberem um salário regular, mas substituindo a labuta dos escritórios, tecelagens ou linhas de montagem pela atividade esportiva – da cidade de Kaizuku, perto de Osaka. Até Daimatsu virou “contador” da empresa. Na prática, o Kaizuku Amazons era a seleção permanente do país.

Durante três anos, de 1961 até 1964, as meninas do Kaizuku Amazons/Seleção do Japão treinaram sete dias por semana, com carga de seis ou sete horas diárias, com apenas uma semana de folga por ano – há quem diga, entretanto, que a jornada das meninas começava às 4h30 da manhã e ia até meia-noite, com um descanso de 15 minutos.  O regime de treinos era mais que puxado e a metodologia de Daimatsu, inaceitável. Adepto do taibatsu, era comum vê-lo xingar suas atletas em público, humilhá-las, aplicar-lhes, aqui e acolá, chutes no traseiro. Resultados? Excepcionais.

1962 Japão feminino

No mundial de 1962, em Moscou, o estilo de jogo japonês foi impiedoso. Contra a Tchecoslováquia, que terminou na quinta posição, as meninas de Daimatsu só concederam sete pontos em todo o jogo. E contra a Romênia, quarta colocada, a vitória em sets diretos teve parciais de 15-2, 15-0, 15-1. O ponto alto foi a vitória sobre a URSS na terceira rodada da segunda fase.

Até aquele 20 de outubro de 1962, as soviéticas não apenas eram campeãs dos três mundiais femininos já realizados, como jamais haviam perdido uma partida sequer. Mas, naquele dia, foram pulverizadas pelo Japão em quadra, com direito a um humilhante 15-3 no set decisivo. Nem terem vencido o primeiro set da partida, um apertado 16-14, único set perdido pelo Japão em todo o torneio, serviu de consolo.

(Aliás, também não deve ter servido de consolo às soviéticas o massacre imposto à Seleção Brasileira cinco dias depois, na rodada de encerramento do torneio, com parciais inacreditáveis de 15-0, 15-0, 15-2.)

A campanha esmagadora do Japão em Moscou era o prenúncio do que aconteceria em dois anos, em Tóquio. Quando as Olimpíadas chegaram, as japonesas não ofereceram a sua torcida um espetáculo menor do que o proporcionado na URSS. Além de vencer todos os jogos e só perder um set em toda a competição, o time de Hirofumi Daimatsu bateu as soviéticas no último jogo (não havia uma final estabelecida, o torneio se desenvolveu em pontos corridos) por 3 sets a 0.

1964 Tokyo Olympic

Com o ouro garantido e a missão cumprida, Masae Kasai conseguiu, finalmente, realizar um sonho adiado por três longos anos: teve seu Miai, uma espécie de cerimônia de casamento arranjado dos japoneses. Consta que Kasai foi feliz no casamento, que nenhuma das campeãs de 1964 jogou em 1968 e que Hirofumi Daimatsu entrou para a política poucos anos mais tarde, morrendo de ataque cardíaco em 1978.

Curioso é que, a despeito de todo o histórico de maus tratos nos treinamentos, haja esta fotografia das jogadoras erguendo o treinador, logo depois da conquista em Tóquio. Ou será que o homem que usou métodos indesculpáveis para colocar o Japão no mapa e no topo do voleibol internacional foi perdoado por suas jogadoras no afã da vitória?

1964 - Hirofumi e as japonesas2