Morenas da América: o Novo Mundo do Vôlei

Morenas da América: o Novo Mundo do Vôlei

Os anos 70 do vôlei feminino prometiam ser dos mais modorrentos. Era como se Japão e URSS houvessem assinado um Tratado de Tordesilhas para a modalidade. Se as soviéticas venceram as Olimpíadas de 1968 e de 1972, as japonesas ficaram com a medalha de prata. Quando as japonesas venceram os Jogos de Montreal sem perder nenhum set, foi contra a URSS a decisão. Se a URSS foi campeã invicta no mundial da Bulgária, em 1970, o vice-campeonato coube ao Japão. E se o Japão dominou o campeonato do México, em 1974, foi a URSS quem chegou mais perto de evitar o triunfo japonês. A rivalidade nipo-soviética acomodou as meninas do resto do mundo a não ambicionarem mais do que o terceiro lugar – e até isso se alternou entre as coreanas do norte e do sul. O dualismo foi quebrado em 1978.

Os mundiais masculino e feminino de 1978 foram os primeiros a terem instituído o jogo decisivo. Antes deles, os campeonatos se decidiam numa fase em pontos corridos e só a coincidência faria a partida entre o primeiro e segundo colocados ser na última rodada. Se essa foi a novidade que a FIVB inseriu na tabela dos mundiais, uma nova força tratou de mudar o jogo também dentro de quadra.

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Grande virada: socialistas superam os mestres

A URSS recebeu o torneio feminino e não seria absurdo imaginar que a decisão, a primeira de mundiais femininos, tivesse a presença de soviéticas e japonesas, e que as europeias tivessem sua vingança da derrota sofrida em casa no mundial de 1962. Cuba, no entanto, tinha outros planos para o campeonato e para o vôlei.

Comandadas por Eugênio George Lafitta, as “Morenas do Caribe”, como eram conhecidas, fizeram uma campanha quase perfeita. Só perderam um set na primeira fase, derrotaram o Japão por 3 a 0 na segunda e eliminaram as soviéticas na semifinal de virada, por 3 a 1. Na decisão, desbancaram as então campeãs mundiais e olímpicas em sets diretos. Foi o primeiro título do vôlei das Américas (de homens ou mulheres) em escala global – por outro lado, essa foi a última vez que o Japão chegou a uma final do torneio.

Eugenio George Fidel Castro

Longe de ser obra do acaso, a vitória do time da ilha de Fidel na então Leningrado (hoje, São Petersburgo) foi o começo de uma tradição. De 1978 até hoje, o único mundial feminino sem uma seleção do continente americano na decisão foi o de 1990.

Antes de mandar no vôlei dos anos 90, Cuba ainda decidiu o título de 1986, na Tchecoslováquia, contra a China. E perdeu. Foi uma derrota contra o melhor time da década, nada que pusesse em dúvida o crescimento do continente no vôlei feminino. Porque, naqueles anos 80, outras morenas também jogaram muita bola.

Depois de desistir de sediar o mundial de 1966, o Peru ganhou nova chance de hospedar o certame em 1982. Não havia momento mais propício.

Por toda a década de 1970, o Vôlei Peruano dominou o cenário feminino na América do Sul. De 1971 a 1979, as “Morenas Matadoras” venceram os cinco sul-americanos disputados e eram presença constante em todas as Olimpíadas desde a Cidade do México/1968. Em casa, o time teria chance de mostrar ao mundo o valor de seu vôlei. E não decepcionou. Tomou um susto, teve de agradecer ao Brasil em algum momento, mas o time do técnico sul-coreano Man Bok Park não decepcionou.

Man Bok Park

O Campeonato Mundial feminino de 1982 começou com um boicote de países do leste europeu. Tchecoslováquia, Polônia e a vice-campeã olímpica Alemanha Oriental desistiram de participar do torneio. Espanha, Chile e Nicarágua foram chamados para substituir os insurgentes. Mas a Nicarágua também disse não ao convite. Sem mais, para completar o grupo D, a Seleção Juvenil do Peru entrou em quadra contra URSS, Chile e Austrália. E como era um time só para constar, mesmo, embora tenha, na prática ficado na segunda posição, com duas vitórias e uma derrota, quem avançou à segunda fase como segundo melhor do grupo foi a Austrália, com uma vitória em três partidas.

Já a seleção oficial do Peru fez uma primeira fase tranquila e arrasadora. Enfrentou times fracos – Canadá, Indonésia e Nigéria – e não perdeu set para ninguém. Aliás, contra as nigerianas, as Morenas foram matadoras cruéis, com um triplo 15-0.

Na segunda fase, o susto. Uma derrota por 3 sets 0 para a Coreia do Sul colocou o time de Man Bok Park em maus lençóis.

A partir daí, seria preciso o Peru vencer um clássico contra o Brasil – na verdade, uma revanche para as peruanas – e bater o Japão, para poder se classificar às semifinais de seu torneio.

Se o Peru dominou a vôlei abaixo do Equador nos anos 70, começou os anos 80 perdendo o torneio continental para o Brasil. A conquista do sul-americano de Santo André, em 1981, impulsionou o vôlei feminino brasileiro. A vitória por 3 a 2 contra o Peru foi transmitida pela Globo, teve narração de Luciano do Valle e se revelou um dos marcos históricos do vôlei no país. No ano seguinte, o Brasil foi vice-campeonato no mundialito realizado em São Paulo, duas semanas antes do começo do mundial – foi um torneio importante, numa época em que não havia Liga Mundial nem Grand Prix.

A mídia nacional já prestava atenção no vôlei das mulheres. Até Isabel, que estava afastada da Seleção em 1981, virou capa da Revista Veja, na edição de 15 de setembro de 1982 – já durante as disputas no Peru. A longa matéria de que tratava a capa era sobre saúde, mas começava com elogios ao vôlei da “Musa do Esporte” por parte de Carlos Arthur Nuzman, que presidia a CBV, e de Bernard Rajzman, o homem do Jornada nas Estrelas.

Isabel capa Veja 1982

No jogo contra o Peru, o Brasil jogava suas últimas fichas na tentativa de se classificar às semifinais. Precisava vencer as rivais e torcer por uma combinação pouco provável de resultados para avançar no torneio. No entanto, um inapelável 3 a 0 das peruanas acabou com as parcas chances das meninas do Brasil.

Na primeira fase, num resultado cumulado para a segunda, a Coreia do Sul venceu o Brasil por 3 sets a 1. Foi um jogo em que Isabel, a “cortadora da Seleção Brasileira”, não suportou os 2,3 mil metros de altitude de Arequipa e passou mal em quadra. Por causa desse set vencido pelo Brasil, o Peru já sabia, quando entrou em quadra contra o Japão, que precisava de uma vitória em até quatro sets para chegar às semifinais.

Na disputa pela segunda vaga, peruanas e coreanas empatariam na pontuação e no set average, mas as Matadoras levariam larga vantagem nos pontos average, já que a Coreia, quando perdeu para o Japão, tomou parciais de 15-0, 15-3, 15-5. Assim, quando o Peru fez 3 a 1 no já classificado Japão (15-4, 15-5, 7-15, 15-10), a festa tomou conta da quadra: as Morenas Matadoras estavam entre as quatro melhores do mundo.

O último passo antes da decisão para as peruanas era contra os EUA. Na outra semifinal, a China passou sem dificuldade pelo Japão. Aliás, se as Olimpíadas de 1984, boicotadas por URSS e Cuba, teve China, Japão, EUA e Peru nas semifinais, o mundial, que contava com a presença das ausentes de Los Angeles, teve as mesmas quatro primeiras.

A Seleção dos EUA era mais um dos bons times que o continente americano possuía àquela altura. O time era treinador pelo polonês da Cracóvia Arie Selinger, que em 1992 treinaria a seleção masculina da Holanda, e tinha Flo Hyman, uma das grandes jogadoras de vôlei do Século XX, que morreu em quadra em 1986 – ela teve dissecção da aorta em decorrência da Síndrome de Marfan, doença que ela não sabia ter.

Flo Hyman Arie Selinger

A campanha dos EUA era muito boa. Haviam vencido a China na primeira e a URSS na segunda fase. Contudo, as peruanas jogavam e casa e não dariam chance às americanas do norte. A vitória veio em 3 sets a 0.

Toda a empolgação do público, contudo, não foi páreo contra a China, na final. O time de Lang Ping, a quem os peruanos trataram logo de chamar de “Martelo de Ferro” não precisou nem de uma hora para levar o troféu para casa, com parciais de 15-1, 15-5, 15-11.

A derrota em casa, embora dolorida, já que arrasadora, não rebaixou as peruanas. O vôlei de Natalia Málaga, Cecilia Tait, Denisse Fajardo, Gina Torrealba e Rosa García brilhou por toda a década de 80. Elas ganharam quatro sul-americanos, foram quartas colocadas nas Olimpíadas de 1984, bronze no mundial de 1986 e quase ouro em Seul/1988. A melhor seleção que o esporte peruano já teve, seja lá em que modalidade for, não precisou de um título olímpico ou mundial para ganhar imortalidade.

China Peru2 1982

This article has 5 comments

  1. A iniciativa de recontar a história do vôlei feminino é ótima, mas o texto está cansativo e confuso por conta do excesso de apostos em uma mesma frase.

  2. Se não estou equivocado, Cecília Tait, Rosa Garcia e Natália Málaga jogaram em times brasileiros.

  3. Está havendo um erro de informação,a Alemanha Oriental foi ao mundial de 82 e a seleção venceu por 3×0

  4. Na verdade, Fábio, a Alemanha que foi ao mundial feminino de 82 (e perdeu para o Brasil por 3-0) foi a Alemanha Ocidental.

    A Oriental foi, sim, ao masculino.

  5. GREAT JOB!!

    REMINDING US THE GREAT TIMES THAT PRECEDED THE NOW GLORIOUS DECADES OF VICTORIES OF THE BRAZILIAN TEAM!!
    “MORENAS DE AMERICA” A VERY SUITABLE TITTLE!!