Na bola, no grito e sem grana: a década dourada do Vôlei de Cuba

Na bola, no grito e sem grana: a década dourada do Vôlei de Cuba

O profissionalismo começou a garimpar espaço nos Jogos Olímpicos a partir de Los Angeles/1984. Naquelas olimpíadas, as seleções de Futebol podiam inscrever atletas profissionais e sem limite de idade – a única ressalva era em relação aos times da América do Sul e Europa: não podiam convocar jogadores que já tivessem uma Copa do Mundo no currículo. A dose foi repetida em Seul/1988, com o acréscimo do Tênis, que permitiu a participação indistinta dos melhores raquetistas do mundo. Mas foi a partir de Barcelona/1992, quando os EUA puderam, finalmente, participar do torneio olímpico de Basquete com as estrelas da NBA, que o amadorismo deu lugar ao profissionalismo quase irrestrito nos Jogos.

Dessa forma, soa anacrônico dizer que foi justamente nessa época, quando o Comitê Olímpico Internacional abriu suas portas para o atleta remunerado, que uma seleção amadora dominasse o vôlei feminino. Pois é disso que se trata quando o assunto é a Seleção Cubana dos anos 90.

A partir da década de 1990, a FIVB estabeleceu uma agenda das mais cheias para as seleções nacionais. Que outra federação internacional marca, anualmente, pelo menos dois torneios de alcance global entre nações? Se antes, além das eliminatórias, pré-olímpicos e torneios continentais, havia o campeonato mundial, a copa do mundo e as olimpíadas, desde o último decênio do século passado, o vôlei passo a ter a Liga Mundial e o Grand Prix, além da Copa dos Campeões, um torneio quadrianual que é versão resumida da Copa do Mundo.

Outra mudança no calendário é que a Copa do Mundo passou a ser disputada um ano antes dos Olimpíadas, a partir de 1991, e servindo como pré-olímpico mundial. E foi a partir das Copas do Mundo que teve início o reinado da ilha no vôlei das meninas.

O noticiário do vôlei está no Melhor do Vôlei

Geração dos Fenômenos da Itália conquista o mundo

Cuba venceu as Copas de 1989 e de 1991. O time de Mireya Luis e Carvajal, que, nos anos 90, passou a contar também com Regla Torres, deu mostra do que era capaz de fazer quando foi vice-campeã mundial em 1986, na Tchecoslováquia. Contudo, o boicote cubano a Seul/1988 frustrou a primeira aventura olímpica daquela geração.

No entanto, depois de duas copas do mundo conquistadas, o ouro em Barcelona/1992 parecia uma meta bem plausível. E foi. Cinco vitórias em cinco partidas, com um 3 a 1 na final, contra a CEI (Comunidade dos Estados Independentes), sigla que abrigou, naquelas olimpíadas, 12 das 15 ex-Repúblicas Soviéticas, renderam o título às Morenas do Caribe.

1992 Cuba ouro

No ano seguinte, nas primeiras edições do Grand Prix e da Copa dos Campeões, as cubanas estenderam suas fronteiras com novas conquistas. Faltava àquela geração apenas um campeonato mundial para coroar seu monopólio.

A luta pelo bicampeonato mundial foi no Brasil, em 1994. Justamente na casa da seleção que despontava como maior rival.

Com títulos mundiais com seleções de base nos anos 80, a Seleção Brasileira começou a se tornar grande em 1992. Treinado por Wadson Lima e com jogadoras como Fernanda Venturini, Ana Moser, Hilma e Márcia Fu, o Brasil terminou as Olimpíadas de Barcelona no quarto lugar. Foi uma posição inédita para o time brasileiro em competições olímpicas ou mundiais e dava mostra do crescimento da equipe.

VÔLEI - ANA PAULA

Dois anos mais tarde, com a chegada de Bernardinho ao comando técnico, a Seleção conquistou seu primeiro título de relevo mundial, justamente um mês antes do campeonato do Brasil. Com uma vitória em cinco sets sobre as cubanas, em Xangai, o Brasil trouxe para casa o primeiro de seus troféus do Grand Prix. E, na bagagem, veio também a responsabilidade de tentar frear as cubanas no mundial.

O início da campanha brasileira foi tranquilo. Jogando no Mineirinho, para cerca de 25 mil pessoas por partida, o Brasil terminou a fase inicial sem perder para ninguém. A estreia contra a Romênia durou menos de 50 minutos e teve parciais de 15-2, 15-2, 15-3.

Como curiosidade, a número 11 romena, mais tarde, se tornaria bastante conhecida do público brasileiro: Cristina Pirv chegou a jogar na Superliga e foi casada com Giba.

Cuba também teve uma estreia macia contra o Peru. A derrota quase sem luta por 3 a 0 mostrava que as peruanas viviam os primeiros anos de sua decadência, que começou quando o time não se classificou para as Olimpíadas de 1992.

Cuba e Brasil passaram pela primeira fase sem derrota, assim como China e EUA. Então, nos jogos para definição dos emparceiramentos das quartas de final, Cuba fez 3 a 0 nas americanas, enquanto o time da casa venceu a China pelo mesmo placar.

Quando as quartas de final começaram, Brasil e Cuba tinham as melhores campanhas, mas com a diferença de que o Brasil perdera um set para a Coreia do Sul, enquanto Cuba não concedera nenhuma parcial a ninguém.

China e EUA caíram fora nas quartas. A China perdeu para a Coreia do Sul em quatro sets e os EUA também perderam para a Rússia por 3 a 1. Do espólio esportivo soviético, Ucrânia e Azerbaijão foram eliminados nas oitavas de final, enquanto a Rússia, considerada legítima herdeira da URSS, honrou a tradição vermelha e chegou às semifinais.

Também nas quartas, e enfrentando uma seleção asiática pela terceira vez consecutiva no torneio, o Brasil passou sufoco no segundo set (17-15), mas venceu o Japão por 3 a 0. Pela primeira vez, o Brasil estava numa semifinal de campeonato mundial feminino, fase aonde não chegaria, dali em diante, só uma vez, em 2002. Quem também se classificou, mas quase sem precisar lavar o uniforme, foi Cuba, que assinalou 3 a 0 na Alemanha.

Nas semifinais, o triunfo brasileiro contra a Rússia foi, provavelmente, a grande vitória do vôlei feminino do Brasil na década de 1990. Com o Ginásio do Ibirapuera lotado, o time de Bernardinho precisou de 2h10 e cinco sets para bater a seleção de Karpol. Depois de uma boa vitória no primeiro set (15-7), as brasileiras perderam o segundo set por 16-14, depois de liderarem por 9 a 4 e desperdiçarem dois set points. Com a vitória russa no terceiro set (15-12), o Brasil partiu para a revirada, com 15-8 no quarto set e 15-10 no tie break.

Como sói acontecer às fitas de vídeo cassete, o registro no Youtube tem problemas pontuais de áudio e de vídeo. Nada, no entanto, que atrapalhe. A narração de Galvão Bueno no tie break talvez seja uma de suas melhores, e a torcida entoando o samba do Salgueiro de 93 depois do jogo é empolgante.

Cuba, por outro lado, também assegurou vaga na decisão. Flagrantemente, as cubanas chegavam ao último jogo mais descansadas que suas rivais: o Brasil não só teve de disputar uma maratona contra um adversário duríssimo, como também Cuba não enfrentara grande resistência das sul-coreanas – que perderam docilmente por 15-4, 15-9, 15-5. Pela terceira vez nos últimos cinco mundiais, Cuba ia decidir o título.

Por incrível que parecesse antes do jogo ou do campeonato, só na estreia, contra o Peru, foi que Cuba sofreu menos pontos do que no duelo da decisão, contra o Brasil. As brasileiras transpareciam nervosismo, pareciam sentir a responsabilidade de jogar com um ginásio lotado em seu favor e só conseguiram fazer um ponto quando o placar já anotava 8-0 para as caribenhas.

No fim, com parciais de 15-2, 15-10, 15-5, Cuba sagrou-se bicampeã sem perder nenhum set em todo o torneio. Foi, sem dúvida, o melhor torneio disputado pela melhor geração do vôlei cubano, para azar das brasileiras.

A vitória do Brasil em Xangai e de Cuba em São Paulo, naquele ano de 1994, deram a tônica do que seria a metade final da década: as brasileiras se dariam bem no Grand Prix, e Cuba não daria chance a ninguém nas competições principais. Foi assim que o Brasil terminou a década como maior vencedora dos GPs, com três conquistas (1994, 96 e 98), e Cuba ainda venceria as Copas do Mundo de 1995 e 1999, as Olimpíadas de 1996 e 2000 e o mundial de 1998.

Especial: Mundiais de Vôlei

Se em 1994 a rivalidade entre Brasil e Cuba era com a bola no ar, depois dali, em especial, a partir de 1996, seria também embaixo da rede. As constantes provocações (e vitórias) das cubanas traziam uma animosidade incomum aos jogos. A ponto de as semifinais das Olimpíadas de 1996, vencidas por Cuba, terminarem numa delegacia de Atlanta e do confronto entre os dois times no Grand Prix daquele ano, semanas depois, terminar com o Brasil tendo cinco jogadoras suspensas para o jogo seguinte.

1996 Cuba Brasil briga

Assim, quando o apito soou para o mundial do Japão, em 1998, a expectativa girava em torno de um novo confronto entre as duas rivais da América.

Aquele foi o primeiro mundial com a líbero em quadra. O regulamento do torneio também foi modificado, com resultados da primeira fase sendo acumulados para a segunda, e com mata-matas apenas a partir das semifinais, como foi no mundial de 1986. Coincidentemente, a final desse mundial também foi a daquele ano.

O Brasil começou o torneio perdendo por 3-0 para a Rússia. Mas com cinco vitórias seguidas, as brasileiras se recuperaram e chegaram às semifinais. A exemplo das semis olímpicas de 1996 e de 2000, estava reservado para a Seleção Brasileira um jogo contra a Cubana. E, assim como naquelas semifinais olímpicas, o resultado no Japão foi favorável ao time da ilha. O jogo, ao menos, não foi o passeio cubano de quatro anos antes.

Assim como em Atlanta/96, depois de vencer o Brasil nas semis, Cuba encarou a China na decisão. E se em Atlanta a medalha de ouro veio em quatro sets e com duas derrotas na campanha, em Osaka, bastaram três sets para que Cuba se sagrasse campeã mundial invicta.

1998 Cuba comemora

Na decisão do terceiro lugar, a Rússia venceu o Brasil mais uma vez (3-1) e ficou com a medalha de bronze. Foi o último mundial de Bernardinho à frente da seleção feminina. Foi também o último título mundial do vôlei cubano, um vôlei que se manteve amador e, por causa disso, passou a perder jogadoras para ligas e seleções estrangeiras, atletas que foram atrás de um salário que compensasse a profissão que escolheram.

Cuba nunca mais chegou nem perto de conquistar o que aquela geração de Mireya Luis conquistou. Uma seleção que concedia títulos no Grand Prix e frustrava o resto do mundo nas competições principais. Às brasileiras restou o misto de honra e desgosto supremos de serem as adversárias prediletas da maior seleção feminina de vôlei da história. A rivalidade entre as duas seleções foi um dos pontos mais altos do esporte, naquele fim de século. E foi o ponto de início para que o vôlei das brasileiras, um dia, dominasse o esporte.

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  1. O que me impressionava nessa equipe cubana (além, é claro, da impulsão e potência de Regla Bell e principalmente Mireya) era a altura dos levantamentos para as centrais: Carvajal e Torres batiam quase uma bola de segurança. Tive a felicidade de assistir a quatro partidas do Mundial de 1994, no Mineirinho, inclusive esse jogo contra a Romênia, mencionado por você. Em tempo: perdão pela implicância de um torcedor do Minas Tênis Clube, mas Cristina Pirv foi muito mais do que apenas uma participante da Superliga ou ex-esposa do Giba. Se não me engano, ela foi a maior pontuadora do torneio duas vezes e fundamental na campanha que culminou no único título do Minas desde que existe a Superliga. E parabéns por mais um ótimo relato da história do esporte. Um abraço.

  2. Emocionante! Foi a partir dessa rivalidade  que o meu interesse por vôlei ascendeu. Eu tinha um ódio mortal das cubanas. Hoje em dia, sinto saudade daquela época.

  3. Cuba dominou o voleibol feminino nos anos 90 e passou o cetro pra Russia, que por sua vez, herdou não só o monopólio mundial do volei mas também as rivais das cubanas…as brasileiras. Hoje em dia a maior rivalidade no voleibol feminino fica entre brasileiras e russas. Mas nada se compara com aquilo que foi nos anos 90.