Nos anos 80, o vôlei era do Tio Sam

Nos anos 80, o vôlei era do Tio Sam

Desde que o vôlei se tornou esporte olímpico, só duas seleções masculinas ganharam duas edições dos Jogos consecutivamente, URSS (1964/68) e EUA (1984/88). No entanto, só os norte-americanos venceram o mundial disputado entre os dois torneios. Além disso, ganharam também a Copa do Mundo de 1985 (o torneio só passou a ser disputado um ano antes das Olimpíadas em 1991). Sabe-se lá quantas Ligas Mundiais os ianques teriam conquistado naquele ciclo olímpico, se já existisse o torneio à época. E tudo isso sem que os EUA tivessem qualquer tradição competitiva no vôlei. O principal responsável pelo súbito crescimento da seleção norte-americana era um sujeito que, sequer, esteve com ela entre 1985 e 88: Doug Beal.

Doug Beal

Em 1977, Beal assumiu o comando de uma seleção que não havia participado das duas últimas olimpíadas e que não fora além de um 14º lugar no mundial anterior. Seus primeiros resultados, entretanto, não foram alentadores: 19º no mundial de 1978, quinto lugar no pré-olímpico da Norceca em 1979, terceiro no pré-olímpico mundial de 1980 (como eram duas vagas em disputa, a ausência do time em Moscou já era certa antes do boicote). Contudo, o segundo lugar no torneio da Norceca, em 1981, apesar do 13º lugar que se seguiria no mundial da Argentina, mostrava que o vôlei dos EUA estava encontrando num bom caminho.

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Sede das Olimpíadas de 1984, os EUA não precisaram se preocupar com a classificação para os Jogos. Assim, desde 1981, a meta não era outra, senão, fazer história em Los Angeles. Para isso, Doug Beal reuniu uma seleção permanente que foi morar San Diego, na Califórnia. É preciso lembrar que o universo de escolhas do treinador era muito limitado, em comparação com o de seus adversários, já que o vôlei não tinha popularidade alguma nos EUA – e hoje ainda não tem.

Em San Diego, o time trenaria de manhã e à noite, e, à tarde, os jogadores trabalhariam em alguma empresa parceira do Programa Olímpico de Oportunidades de Trabalho – em tempos de amadorismo, não havia assalariado do esporte, esse assunto já foi tratado no capítulo 2 da série. O resultado disso é que, em três anos junta, a seleção, antes relegada ao terceiro ou quarto escalão do vôlei, se acreditava a melhor do mundo. E era, mesmo.

Quando a URSS anunciou que boicotaria as Olimpíadas de Los Angeles, Beal levou seu time, dois meses antes dos Jogos, a uma série de quatro amistosos contra os soviéticos, na União Soviética. O incrível resultado desses amistosos foi um 4-0 em favor dos americanos do norte, com direito a perderem apenas dois sets em toda a série – ambos no primeiro jogo. Em Los Angeles, a medalha de ouro veio sem maiores dificuldades.

Missão cumprida, Doug Beal deixou o comando do time e alguns campeões olímpicos também saíram – cinco dos 12 medalhistas de ouro não estiveram presentes no Campeonato Mundial de 1986. Mas Marvin Dunphy se tornou coach da seleção e não deixou cair a peteca.

Marv Dunphy

Em 1985, os Estados Unidos venceram o campeonato da Norceca, derrotando Cuba, e a Copa do Mundo, batendo a União Soviética. O caminho até o mundial da França de 1986, só não foi perfeito, porque, três meses antes do certame, nos Goodwill Games, em Moscou, a URSS conquistou a medalha de ouro justamente sobre os rivais da América. Isso fazia crer que o campeonato seria polarizado pela disputa entre os dois e, de fato, foi.

A exemplo do mundial realizado na França em 1956, o de 30 anos depois também teve um filme técnico produzido pela federação local (há uma falha no áudio a partir de 4 min., mas tudo se resolve em dois minutos).

Como previsto, norte-americanos e soviéticos passaram pela primeira fase sem maiores dificuldades, invictas. Campanha semelhante também fizeram Brasil e França. Aliás, se EUA, URSS e Brasil ainda perderam, cada um, um set, o time da casa não concedeu nenhuma parcial a ninguém.

No jogo derradeiro da fase inicial, uma vitória por 3 a 0 sobre a Itália sacramentou a campanha perfeita dos bleus.

Na segunda fase, enquanto EUA, URSS e Cuba ficaram no mesmo grupo, o Brasil foi para a chave dos anfitriões. Os brasileiros seguiram no ritmo ganhador, com vitória sobre a China e sobre a Itália. A França, no entanto, no jogo que definiria sua classificação antecipada às semifinais, perdeu para a Bulgária, que, com isso, entrou na luta por uma vaga.

Na última rodada, em Toulouse, a Bulgária anotou 3 a 0 sobre a China e voltou a ficar entre os quatro melhores de um mundial, depois de 16 anos. Restava a Brasil e França, na última partida do dia, a batalha pela outra vaga da chave.

A calculadora trabalhou um bocado antes do jogo. Uma vitória dos bleus provocaria um tríplice empate entre França, Brasil e Bulgária, só que a França precisava vencer o jogo em três ou quatro sets, para evitar uma derrota no set average. O Brasil poderia até se classificar em segundo com uma derrota, desde em que cinco sets. Ou seja, o recado da matemática era claro: o Brasil precisava vencer, pelo menos, dois sets para avançar e a França só poderia perder um. Isso, para não falar na carga da rivalidade esportiva que aquela partida trazia, pois, meses antes, na Copa do Mundo de Futebol, no México, a França impedira o Brasil de chegar às semifinais, numa dramática disputa de pênaltis.

O primeiro set foi brasileiro, 15-13. A França deu o troco no segundo, com sobras, 15-6. Aí, no terceiro set, a Seleção Brasileira conquistou o que deve ser a virada mais empolgante e improvável de sua história no vôlei. Uma virada a partir de 14-7, com a França desperdiçando 13 set points. Melhor do que ler a descrição é ver como foi a meia hora final desse set histórico.

A vitória do Brasil por 20 a 18 desclassificou a França, que ainda perdeu o quarto set por 15-6. Invictos, os brasileiros estavam, assim, aptos a encarar os EUA nas semifinais, uma revanche da final olímpica.

Isso porque os EUA, no outro grupo, classificaram-se em segundo lugar. Na última rodada, uma derrota para a URSS acabou com o score perfeito do time de Karch Kiraly.

As semifinais deixaram bem clara a diferença entre bons times e os dois grandes dos anos 80. Bulgária e Brasil não conseguiram tirar um set sequer de URSS e EUA, e tiveram de se contentar em decidir o bronze. E a Geração de Prata do Brasil ficou fora do pódio.

O fácil triunfo sobre a Bulgária foi a 29ª vitória consecutiva da União Soviética em mundiais, competição em que não era derrotada desde 1974. Tudo estaria encaminhado para o sétimo título soviético, terceiro seguido, se o time do outro lado da rede não fosse o campeão olímpico. O jogo foi duro, mas o domínio dos EUA foi flagrante.

O registro da partida tem narração de Luciano do Valle, comentários de Álvaro José, e Elia Jr. conversando com espectadores por telefone, em alguma promoção do tão saudoso Show do Esporte.

Foi também o primeiro título mundial de uma seleção fora do leste europeu. Dois anos depois, em Seul, EUA conquistaram o bicampeonato olímpico sobre a URSS. Foram quatro anos de domínio dos Estados Unidos no esporte que eles inventaram, mas nunca tinham praticado direto. Mas quando o vôlei internacional se profissionalizou, a seleção do Tio Sam ficou para trás novamente.

1986 EUA masc

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