Nos anos Brasil vs Rússia, a consagração de Gamova

Nos anos Brasil vs Rússia, a consagração de Gamova

Não é difícil dizer que a rivalidade entre brasileiras e russas, no vôlei, completa 10 anos neste 26 de agosto. A história da semifinal olímpica em Atenas, é amplamente conhecida: o Brasil vencia por 2 sets a 1, com 24-19 no quarto set, mas foi incapaz de fechar a partida. As cicatrizes causadas por aquela virada ficaram à mostra por muito tempo – haverá, até, quem diga que ainda estão expostas. E foram, em muito, agravadas pelos dois mundiais femininos que se seguiram àqueles Jogos.

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O Grand Prix foi do Brasil

O Japão foi sede dos Campeonatos de 2006, primeiro o mundial das mulheres, em seguida, o dos homens, como em 1998. As 24 seleções foram dispostas em quatro grupos, com as quatro primeiras passando de fase e acumulando os resultados entre si. Na segunda fase, quatro seleções de um grupo enfrentariam quatro de outra e esses oito times formaram uma chave que classificou dois times às semifinais. A fórmula dos torneios masculino e feminino foi igual.

2006 China

Havia alguma expectativa em relação à China, campeã olímpica e vice-mundial. Contudo, já na primeira fase, derrotas para Rússia e Alemanha indicavam que as orientais teriam poucas chances de chegar às semifinais. Então, na segunda rodada da segunda fase, uma derrota para o Brasil pulverizou suas esperanças. Foi a vingança perfeita para as brasileiras da eliminação do mundial anterior.

A China vencia por 2 sets a 0, mas, numa ótima atuação de Jaqueline, o Brasil virou para 3 sets a 2, com direito a um tie break decidido em 19-17.

A campanha brasileira até ali era vitoriosa, e se manteve assim por toda a segunda fase, com nove vitórias em nove jogos. A Seleção de José Roberto Guimarães, que assumira o time um ano depois do conturbado mundial de 2002, só precisou jogar tie breaks contra China e Holanda – este, num jogo da primeira fase.

Na última rodada, Brasil e Rússia já estavam classificados e se enfrentavam apenas para decidir primeiro e segundo da chave.

2006 Fabiana v Gamova

O jogo parecia ter caráter tão pouco decisivo, que Giovanni Caprara, o italiano que substituiu Karpol, até deu folga a Sokolova. Mas da vitória do Brasil por 3 sets a 1, o momento mais recordado foi uma discussão de Fabiana com uma adversária – possivelmente, Gamova.

Nas semifinais, se o Brasil não teve grandes problemas, mas precisou de quatro sets para derrotar Sérvia e Montenegro, a Rússia trucidou a Itália em sets diretos, com parciais de 25-19, 25-16, 25-20, em menos de 1h10. Sokolova, de volta ao time, marcou 21 pontos, ficando só um atrás da pontuação somada de Elisa Togut e Piccinini, as italianas que mais pontuaram. As detentoras do título de 2002 foram para uma decisão de terceiro lugar, onde seriam derrotadas pelas sérvias em três sets.

O jogo decisivo, se começou enganoso, terminou dramático. O Brasil fechou a primeira parcial em 25-15, mas tomou a virada com 25-23 e 25-18. No quarto set, com Mari de titular em lugar de Sassá, o Brasil fez 25-20 e levou a decisão para o tie break.

2006 Mari

No quinto set, o Brasil até conseguiu abrir 13-11, mas, novamente, não conseguiu frear a reação das russas, vencedoras por 15-13.

Jaqueline e Sokolova empataram no duelo de passadoras, com 19 pontos cada um, mas Gamova fez 28 pontos a 22 no confronto de opostas, com Sheilla.

2006 Russia comemora

A nova derrota para a Rússia, se não foi tão sofrida quanto a de 2004, teve o peso da virada em cima da hora, que valeu um título mundial. Contudo, em Pequim/2008, quando os dois times se enfrentaram na primeira fase, o Brasil venceu a Rússia sem sofrer 17 pontos em nenhum dos sets. Foi uma vitória acachapante, mas que não eliminava a Rússia do torneio.

Claro que, para qualquer time, melhor do que tirar as russas das olimpíadas seria ganhar a medalha de ouro, que foi o que aconteceu à Seleção Brasileira. Só que ainda havia a impressão de que as brasileiras precisavam vencê-las num jogo de decisão para que a dor de Atenas parasse de doer. Em 2010, o time de José Roberto Guimarães teve outra chance.

Especial: Mundiais de Vôlei

O Japão sediou o mundial feminino de 2010. Foi a primeira vez na história que um país sediou dois mundiais consecutivos. Esta não foi a única repetição daquele torneio.

Contundidas, Mari e Paula desfalcaram a Seleção Brasileira. Natália ganhou espaço no time e fez, naquele mundial, provavelmente seu melhor campeonato pela seleção.

Das adversárias do Brasil na primeira fase, só a Itália, que tinha sido campeã da Copa dos Campeões em 2009, impunha medo. Contudo, na segunda rodada, o Brasil precisou de cinco sets para definir a partida contra a República Tcheca. A Itália, no entanto, não ficou no quase: quando encararam as tchecas, as italianas caíram por 3 sets a 2.

2010 Itália fem

Se as primeiras rodadas foram titubeantes para Brasil e Itália, o confronto entre os dois times na rodada final seria, sob certo aspecto, decisivo.

O Brasil não apenas venceu por 3 a 0, como aplicou um humilhante 25-7 na última parcial.

Com a derrota para a República Tcheca e a goleada sofrida para o Brasil acumuladas para a segunda fase, as chances das italianas se classificarem às semifinais eram bem curtas. Elas até venceram os EUA e tiveram, de fato, o direito de sonhar com a vaga na última rodada, desde que vencessem as cubanas com boa margem de pontos – os pontos average eram critério de desempate mais importante do que o de sets average, naquele campeonato.

Contudo, se faltou vôlei à Cuba na maior parte daquela competição, sobrou dignidade naquela partida. As cubanas terminaram o mundial na 12ª posição, longe de qualquer disputa por medalha. Mas, se poderiam perder por uma grande margem de pontos para ajudar a Itália e prejudicar os EUA, inimigos na política e contra quem a Itália de fato concorria, preferiram vencer a partida.

Quando o jogo chegou ao tie break, uma vitória por 15 a 5 era do que a Itália precisava. Mas um 24-22 foi o que Cuba lhe deu.

Brasil e EUA passaram às semifinais, onde pegaram Japão e Rússia, respectivamente.

Russas e japonesas não tiveram muita dificuldade para chegar até aí. A Rússia, assim como o Brasil, não perdeu para ninguém, e o Japão, além de uma derrota para o time vermelho, teve uma derrota também para a China. As chinesas até poderiam ter ameaçado a classificação das meninas da casa, mas como perderam quatro jogos, ficaram longe demais de ambicionar qualquer coisa. No fim, o décimo lugar foi um castigo merecido para o mau voleibol chinês.

Se dos jogos semifinais parecesse que Rússia e EUA fariam um jogo equilibrado e que o Brasil não teria grande susto para vencer o Japão, as aparências enganaram frontalmente.

A Rússia precisou de quatro sets para despachar as então campeãs do Grand Prix. Contudo, o Brasil enfrentou uma batalha épica para bater o Japão. Com parciais de 22-25, 33-35, 25-22, 25-22, 15-11, o Brasil contou com 20 pontos de Fabiana e a entrada de Sassá no time para poder virar a partida, que durou 2h20.

2010 sassá

Se foi a primeira vez que um país sediou dois mundiais seguidos, também foi a primeira vez que duas seleções decidiam o título em vezes consecutivas desde 1978, quando foram estabelecidas as finais.

A decisão de 2010 teve um nome elevado, para ser lembrado por toda a história. Aquela partida talvez tenha sido a melhor atuação da carreira de Gamova pela Seleção Russa, marcando 35 pontos, atacando quase indistintamente da rede ou do fundo. A vitória russa foi em cinco sets, 21-25, 25-17, 20-25, 25-14, 15-11.

2010 Brasil lamenta

Se hoje é possível falar daquele jogo de 2004 sem relacioná-lo a um trauma é muito porque a vitória brasileira nas quartas de final de Londres/2012 lavou a alma da torcida. Mas a protagonista russa daquela jornada, Ekaterina Gamova, então com 24 anos de idade e 32 pontos assinalados naquele dia, virou ícone. Odiá-la, admirá-la, temê-la, vencê-la ganhou uma conotação mais profunda para o torcedor brasileiro do que em relação à própria Seleção Russa.

Claro que é injusto dizer que a Rússia fosse seleção de uma jogadora. Só que é preciso reconhecer que o que ela produziu contra a Seleção Brasileira naquele jogo de Atenas e nas finais dos mundiais de 2006 e 2010 criou em torno de Gamova uma áurea que, em alguns anos, soará como lenda.

2010 Russia comemora

This article has 1 comment

  1. O placar aponta 3×1 pra Gamova. Mas esse ano Sheila vai mitar mais uma vez e aproximar os números ainda mais.