Num mundial de transição, virada e vitória da Itália

Num mundial de transição, virada e vitória da Itália

A casa de apostas que, por ventura, tenha se interessado em saber de seus clientes quem venceria o mundial feminino de 2002, provavelmente, não precisou pagar ganhadores ou, talvez, tenha visto – estupefata – algum aventureiro levar um prêmio. Pois não é hábito, em qualquer esporte que seja, que um atleta ou equipe conquiste um título mundial antes de qualquer outro troféu, inclusive, continental. O fato é que a virada do século, se não causou um bug nos computadores, deixou o vôlei de cabeça para baixo – o que foi quase literal, no caso do vôlei das mulheres.

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Mau início na fase final não tira favoritismo do Brasil no GP

Há muito, uma das preocupações da FIVB em relação ao jogo era com a duração das partidas. Duelos que se alongavam por três, quatro horas eram épicos, mas faziam mal à reputação do esporte na grade de programação das TVs. Assim, nos anos 80, extinguiu-se a vantagem mínima de dois pontos para vitória no set, limitando-o a 17 pontos, e o quinto set foi transformado em tie break, um set de pontos diretos. Nos anos 90, logo depois das Olimpíadas de Atlanta, surgiu a figura do líbero, para que as disputas de bola tivessem mais defesas, e chegou-se a testar um formato para o jogo que não vingou: o set por tempo corrido. Os sets teriam a pontuação convencional, mas, se esta não fosse atingida, terminariam com 4 minutos de duração de bola em jogo – um sistema copiado do vôlei de praia dos EUA. Abandonado o sistema híbrido de pontuação e tempo, o vôlei adotou, depois do mundial de 1998, o sistema atual: os quatro primeiros sets viraram um tie break estendido de 25 pontos.

Havia a ideia era que o jogo ficasse menos demorado e, talvez, mais equilibrado, o que ocorreu.

Se a decisão do vôlei feminino em 1996 teve quatro sets e durou 2h03m, em 2000, os cinco sets foram disputados em 1h43m. Além do quê, se em Atlanta dez jogos terminaram em 3 a 1 e cinco partidas chegaram a cinco sets, em Sydney 14 jogos se decidiram em quatro sets e sete jogos foram para o tie break.

Outro elemento que se juntou ao vôlei, no Campeonato Mundial da Alemanha de 2002, foi a imprevisibilidade. E esse fator não teve necessária correspondência com as mudanças promovidas pela federação internacional.

A melhor geração da Seleção Cubana envelhecera, o elenco teve de se renovar. Mireya Luis, e Carvajal depois de quase duas décadas de serviços à equipe nacional, não estavam no mundial. O time que foi à Alemanha tinha apenas quatro das campeãs olímpicas de 2000, três jogadoras abaixo dos 18 anos de idade e nenhuma acima dos 30.

2002 cuba

As então campeãs mundiais e olímpicas, que não perdiam um jogo de campeonato mundial desde 1990, estrearam com derrota para a Coreia do Sul por 3 a 2. No dia seguinte, precisaram virar um jogo em que perdiam para o Canadá por 2 a 1. Mas, depois do começo pouco promissor, Cuba venceu três partidas em sets diretos e avançou à segunda fase.

Com um elenco forçadamente renovado, a Seleção Brasileira foi ao torneio apenas Karin como remanescente de Sydney/2000. O motivo não foi uma renovação premeditada, mas contingente. Quando o técnico Marco Aurélio Motta cortou Elisângela, por indisciplina, cinco jogadoras se solidarizaram com a oposta – Fofão, Raquel, Virna, Érika e Walewska – e deixaram o time. Assim, o Brasil disputou o mundial com um time inexperiente, mas com cinco jogadoras – Sheilla, Paula, Valeska, Fabi e Sassá – que, seis anos depois, ganhariam uma medalha de ouro olímpica. Em 2002, no entanto, o vôlei feminino do Brasil teria de se contentar com a sétima posição.

2002 Brasil eliminada

Embora a preparação confusa trouxesse maus presságios, a Seleção terminou a primeira fase com uma derrota para a China, por 3 a 1, e quatro vitórias em sets diretos. A China, com uma derrota estranha para a Grécia, na última rodada, concedeu a liderança do grupo para o Brasil e avançou em segundo lugar.

Poupando várias titulares, inclusive, a melhor jogadora do time, Ruirui Zhao, e sem fazer nenhuma alteração durante toda a partida, a China foi derrota por 3 a 0 pela Grécia. Com isso, relegou ao Brasil um grupo difícil, com EUA, Holanda e a Alemanha, donas da casa, na segunda fase, enquanto teve de enfrentar adversários mais leves, como Coreia do Sul, Bulgária e Porto Rico.

2002 china

Na segunda fase, outra derrota controversa da China, dessa vez, para a Coreia do Sul, levantou suspeitas de que as asiáticas escolhessem deliberadamente suas rivais. Com o resultado, as chinesas enfrentariam as brasileiras nas quartas de final. Quem sofreu o efeito colateral da armação foi a Holanda.

Na primeira fase, eram 24 times em quatro grupos de seis. Passaram as três melhores seleções de cada chave. Na segunda fase, as doze equipes se agruparam em três grupos de quatro times, com classificação para para as quartas de final os dois primeiros colocados de cada chave mais os dois melhores terceiros colocados. A Holanda teria sido a segunda melhor terceira colocada, se a Coreia do Sul perdesse para a China em sets diretos, o que não ocorreu. Outra chance das holandesas era a Itália ter perdido dois sets para a Grécia, mas isso também não aconteceu.

A Itália caiu num grupo com Rússia, Cuba e Grécia na segunda fase. O início foi desalentador.

2002 gamova

Primeiro, a Itália enfrentou uma Rússia que já tinha em Gamova, então, com 22 anos incompletos, sua maior esperança de pontos. A vitória russa por 3 a 2 pressionou um time que não tinha grandes aspirações no torneio.

Se no mundial de 1998 a Itália conquistara uma surpreendente quinta posição, estreou em Olimpíadas em 2000 com uma vitória em quatro jogos e uma frustrante a nona posição. Além disso, em campeonatos europeus, a Itália nunca tinha ido além de um vice-campeonato, conquistado em 1999.

Com os ingredientes necessários para ser um azarão, a Seleção Italiana foi à Alemanha com Lo Bianco, Piccinini, Elisa Togut, e terminou a primeira fase sem perder um único set. Mas, agora, com a derrota para a Rússia, o time precisava reagir. Lutou, mas não reagiu.

Contra Cuba, na segunda rodada da segunda fase, a Itália perdeu o primeiro set por 32-30 e acabou derrotada, depois de quase duas horas de jogo, em quatro sets.

A sorte da Itália é que o último jogo da fase foi contra um adversário fraco, a Grécia. O time precisava vencer sem perder nenhum set e assim se fez. Com esse resultado, a Itália avançou às semifinais na bacia das almas, com a segunda melhor terceira colocada, mas com o bônus de jogar contra a Coreia do Sul – adversário que foi batido em três sets.

Poderia ter sido contra a China, mas as chinesas preferiram – literalmente – enfrentar o Brasil. E quase se deram mal.

Depois de estar perdendo por 2 sets a 1, a China teve de revirar o jogo para se classificar, em cinco sets, para as semifinais. Por pouco, a tática de escolher as rivais não deu errado. Mas o crime chinês também não compensou por muito mais tempo.

Numa sexta-feira 13, em Berlim, a sorte das chinesas acabou bruscamente nas semifinais. Num jogo de 1h39min, a Itália se classificou para uma decisão improvável e mandou a China para a decisão da medalha de bronze, contra a Rússia.

No jogo pela terceira posição, a Rússia deixou a China sem medalha, com uma vitória por 3 a 1. O confronto se repetiria em Atenas/2004, valendo a medalha de ouro, e o resultado seria diferente.

Na final, a Itália teve de encarar as invictas norte-americanas. Ao longo do torneio, os EUA tinham vencido Cuba, nas quartas de final – que acabou na quinta posição -, e a Rússia duas vezes – na primeira fase e nas semifinais, ambas por 3 a 2.

Não havia como não apontar as americanas como favoritas. Contudo, não contavam na final com uma atuação de 32 pontos de Elisa Togut. Com parciais de 18-25, 25-18, 25-16, 22-25 e 15-11, a Itália igualou a União Soviética e agora tinha também títulos mundiais masculino e feminino.

Foi a primeira vez que o campeonato mundial feminino de vôlei foi decidido no tie break, fato que se repetiu nos dois campeonatos posteriores. Mas a Itália, que poderia ter iniciado uma jornada dominante no vôlei, passa ainda hoje em brancas nuvens em Jogos Olímpicos, Grand Prix e Campeonatos Mundiais. Os títulos europeus, da Copa dos Campeões e da Copa do Mundo, torneio que hoje tem cara de pré-olímpico apenas – que conquistou mais adiante é que lembram ao torcedor que a Itália, uma vez, surpreendeu o mundo e quebrou a banca.

2002 Itália podio

 

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