O campeão voltou, mas a casa estava diferente

O campeão voltou, mas a casa estava diferente

Quando a URSS venceu dois mundiais consecutivos e uma olimpíada entre eles, sua seleção já amargava um hiato de 16 anos sem conquistar títulos mundiais e havia sucumbido nas duas olimpíadas anteriores. Em todo o período, os soviéticos só ficaram longe do pódio internacional do vôlei masculino no mundial da Bulgária, em 1970. Mas ainda era pouco. Para quem dominara o vôlei nos anos 50 e parte dos 60, isso era um jejum autêntico.

O jejum poderia ter sido quebrado nas Olimpíadas de Montreal, mas a Polônia freou a locomotiva soviética. No mundial do México, em 1974, a Polônia também fora campeã, vencendo os russos duas vezes. Freguesia, mesmo. O ciclo olímpico seguinte, porém, seria diferente.

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Já em 1977, a URSS venceu a Copa do Mundo. Foi seu primeiro título intercontinental da década. Esse certame, porém, ainda poderia dar margem a alguma dúvida sobre o selecionado soviético, já que os poloneses, apesar de ficarem na quarta posição, venceram um dos dois jogos realizados entre as duas seleções – naquele tempo, a fórmula de disputa da Copa do Mundo era bem diferente da que é hoje. No europeu daquele ano, a mesma coisa: a taça foi para a União Soviética, mas com uma derrota e uma vitória diante da Polônia. O Campeonato Mundial da Itália, em 1978, colocaria os dois frente a frente para debaterem pendências do ciclo olímpico passado e do ano anterior também. Mas passou longe de ser assim.

De fato, a quinta conquista mundial da URSS foi avassaladora. Nove vitórias em nove jogos, apenas três sets perdidos em toda a competição. Se essa fosse toda a história daquele torneio, pareceria um retorno ao classicismo do vôlei, ao período pré-olímpico, quando os soviéticos dominavam e ponto final. Contudo, a história que o campeonato de 1978 conta vai muito além do campeão, foi a história do começou de uma história.

Para início de conversa, o mundial do leste europeu foi péssimo. Pela primeira vez, só uma seleção daquela faixa do globo terminou um mundial masculino entre os quatro primeiros – e foi a URSS.

Bicampeões em 1956 e 1966, os tchecos ressaltaram a queda que começara em 1970 e não foram além do quinto lugar – posição que, depois desse torneio, a Seleção da Tchecoslováquia jamais alcançaria novamente. Alemanha Oriental e Bulgária, que, em seus melhores dias, decidiram um campeonato mundial, tiveram de se contentar com um jogo valendo nona e décima posições. E a Polônia voltou para casa com um oitavo lugar, e esperaria quase três décadas para figurar de novo entre os melhores.

Até o Japão, que seis anos antes vencera uma Olimpíada, não foi além de uma pálida 11ª posição. Foi o último mundial do capitão da Seleção Japonesa, Katsutochi Nekoda, medalhista olímpico em 1964 e 1968, campeão em 1972. Morto em 1983, com 39 anos de idade, acredita-se que o câncer de estômago que vitimou Nekoda tenha sido consequência da Segunda Guerra Mundial: Nekoda tinha um ano de idade e morava em Hiroshima, quando houve sua cidade foi arrasada por uma bomba atômica.

Katsutoshi Nekoda

O que o certame da Itália mostrou, mesmo, era que um novo voleibol emergia. Itália e Cuba completaram aquele pódio encabeçado pela URSS.

Na primeira fase, as duas seleções terminaram invictas seus grupos, e só perdendo um set para seleções asiáticas (a China tomou um set da Itália e o Japão, de Cuba). Na segunda fase, Cuba seguiu na mesma trilha vencedora, mesmo tendo de trabalhar cinco sets para vencer tchecos e sul-coreanos.

1978 Itália

A Itália, por seu turno, venceu um jogo complicado contra o Brasil, com um 17-15 no quinto set, e passou sem maiores problemas por Alemanha Oriental e Bulgária. Na última rodada, com a classificação já garantida para as semifinais, uma derrota contra a URSS colocou a geração que ficaria conhecia como “Il Gabbiano d’Argento” (A Gaivota de Prata) diante do time cubano.

“Il Gabbiano d’Argento” é o nome de um documentário produzido sobre esse mundial, pelo cineasta italiano Giulio Berruti.

1978 il gabbiano d'argento

Pelo que se encontra dos sites, é um filme raro mesmo na Itália – uma relíquia, talvez. No Youtube, no entanto, é possível encontrar dois trechos da película. O primeiro deles – velocidade e trilha sonora bastante lentas e sons desencontrados da torcida – é a disputa semifinal entre Itália e Cuba.

O jogo foi muito equilibrado. Cuba venceu o primeiro set por 17-15, mas a Itália se impõe com 15-11, 16-14, 15-12. A festa insana dos jogadores e tifosi dá a dimensão da dureza da partida e da extensão do feito alcançado pelos italianos. Mas é certo que a comemoração foi demasiada. No outro dia, ainda havia pela frente a URSS, que despachou a Coreia do Sul na outra semifinal sofrendo apenas 15 pontos.

Na decisão, a comoção de 18 mil torcedores nas arquibancadas passou inaudível pelos vermelhos. Com direito a um 15-1 no terceiro set, a URSS se sagrou campeã pela quinta vez na história.

A segunda parte disponível do documentário traz a decisão do torneio, alternando imagens da partida com cenas da premiação.

O vôlei italiano, dali em diante, passaria a ser respeitado. Em Los Angeles/1984 ganharia uma medalha de bronze e, em 1990, seria campeão. Dominaria o mundo do vôlei anos 90. Mas não em 1982.

No mundial da Argentina, a Itália foi eliminada na primeira fase e terminou na 14ª posição, ainda que com apenas duas derrotas em sete jogos. Cuba também não fez um bom mundial e ficou com o décimo lugar. Não seriam eles os que chegariam mais perto dos russos, dessa vez.

Quem acompanhasse de perto o vôlei naqueles anos poderia supor que o Brasil faria boa figura na Argentina, em 1982. É verdade que um ano antes, a Seleção Brasileira  foi terceira colocada na Copa do Mundo, mas, já em 1978, havia indício de que o vôlei brasileiro estava subindo a ladeira.

No Mundial da Itália, o Brasil ficou com a sexta posição. Não era a melhor campanha do Brasil até então, mas, ao menos, parecia sua participação mais consistente. Além de vencer Bulgária e Alemanha Oriental na segunda fase, o Brasil, no torneio de consolação, bateu os então campeões mundiais e olímpicos por 3 sets a 0.

Um vídeo amador é provavelmente o único do Youtube com algum trecho daquela vitória brasileira sobre a Polônia. O vídeo é curioso, começa com uma sequência de imagens que mostra a cerimônia de premiação no pódio, que só ocorreu no dia seguinte a essa partida. Só a partir de 3min24s é que a exibição de Brasil x Polônia começa. Vale, a despeito da qualidade precária de edição, som e imagem, o raro registro do vôlei brasileiro daquela época.

Poucas semanas antes do início do certame na Argentina, o Brasil conquistou o mundialito, no Rio de Janeiro, vencendo os soviéticos na final – e a URSS não perdia uma partida desde 1977. O mundial só iria confirmar que a geração de Bernard, William e Renan colocara o Brasil entre os melhores do vôlei. E se alguém já suspeitava que isso fosse possível, Luciano do Valle fez mais e apostou nessa possibilidade.

Luciano do Valle

Com Luciano do Valle, a Globo já havia até transmitido a final do sul-americano feminino, em 1981. Mas quando saiu da emissora, depois da Copa do Mundo de Futebol de 1982, o narrador levou consigo para a TV Record os direitos exclusivos de transmissão do Mundial de Argentina, adquiridos por sua empresa de promoção de eventos esportivos, a Promoação. Com efeito, a Record transmitiu o torneio ao vivo e com exclusividade para o Brasil. O vôlei chegava à TV Brasileira para não sair mais – hoje, se a TV aberta não lhe dá espaço, a TV fechada, sim.

O Brasil titubeou na primeira fase, teve de acumular, para a segunda, uma derrota para Tchecoslováquia por 3 a 1. Por outro lado, os soviéticos passaram pela fase inicial sem perder um único set.

Na segunda fase, sabendo que enfrentaria a URSS na última rodada e que já tinha uma derrota para os tchecos na conta, o Brasil sabia que precisava vencer Polônia, Cuba e Bulgária para se manter vivo no torneio, e ainda torcer por um ou outro tropeço da Tchecoslováquia. Foi o que aconteceu.

Brasil Geração de prata

Os tchecos não venceram um jogo sequer nesta fase e os brasileiros, com uma rodada de antecedência, garantiram vaga às semifinais. Assim como fez a Itália em 1978, o Brasil também perdeu para a União Soviética na rodada final.

Do outro lado da chave, o Japão se posicionou entre os quatro melhores de um mundial masculino pela última vez, e a Argentina surpreendeu chineses e sul-coreanos para se classificar também.

As finais do Campeonato Mundial da Argentina careceram de disputa mais ferrenha. As semifinais e as disputas do pódio se decidiram em três sets. O Brasil passou pelo Japão com dificuldade apenas no segundo set, quando a parcial fechou em 20-18, e a URSS não sofreu mais do que dez pontos da Argentina em nenhum dos sets disputados. Soviéticos e brasileiros se reencontrariam na final. O time da casa, vingando-se de uma derrota sofrida para os nipônicos na primeira fase, conquistaram a medalha de bronze, melhor classificação portenha num mundial de vôlei.

Se na final do mundialito o Brasil recuperou-se de uma derrota por 15 a 2 no primeiro set, não houve, em Buenos Aires, não houve recuperação possível ao time verde-amarelo – que jogou de branco. A União Soviética vencera o mundial de 1978 invicta, as olimpíadas de 1980 invicta e foi campeã na Argentina invicta também.

As parciais não deixam dúvida da superioridade do vôlei soviético sobre o brasileiro. O Brasil não fez, em toda a partida, pontos o suficiente para vencer um set. Perdeu por 15-3, 15-4, 15-5. A torcida foi o único elemento favorável à Seleção naquela noite, no Ginásio Luna Park.

1982 Zaytsev

No Youtube, há um vídeo muito provavelmente amador com o jogo quase integral. O filme é precioso para o fã do voleibol, já que é tão raro encontrar, na TV ou na internet, cenas da primeira final disputada pela Seleção Brasileira. Ele tem duração de uma hora, começa com o aquecimento e apresentação dos jogadores, tem os dois primeiros sets inteiros e termina quando, no terceiro set, o marcador aponta 3 a 3. Duas ou três vezes, uma voz em inglês informar o placar do jogo.

(Quem, em inglês, se importaria em filmar a partida? Um torcedor? Alguém da comissão técnica dos EUA? Ou será que o dono da conta que disponibilizou o vídeo, Markleb8 seja, na verdade, o treinador Mark Lebedew, australiano, e que o registro seja dele também? Seja como for, o resgate histórico está feito.)

No ano seguinte, Brasil e URSS se enfrentaram no Maracanã, sob chuva e com mais de 95 mil pessoas na arquibancada. O jogo, vencido pelo Brasil por 3 a 1, foi promovido pela empresa de Luciano do Valle. É graças a ele e àquela geração, que, com a medalha conquistada em Los Angeles, seria lembrada como “A Geração de Prata”, que o vôlei se tornou o maior esporte olímpico do Brasil.

É difícil dizer se os soviéticos suspeitassem, em 1978 e 1982, que venciam seleções que, um dia, ocupariam o lugar que eles estavam reassumindo. Mas isso não aconteceria ainda de imediato. Outra seleção encabeçaria a fila do volleyball antes dos italianos e dos brasileiros.

This article has 1 comment

  1. Que show a cada postagem conhecer um pouco mais da história do voleibol!

    O fato curioso desses “novos” times que surgiam naqueles anos (Itália e Brasil) é que as suas supremacias foram também na ordem: primeiro a Itália, vice em 78 e que dominou os anos 90 e depois o Brasil, vice em 82 e que dominou os anos 2000.