O país dos problemas de sempre

Ary Graça e Aldo Rebelo ainda têm muito trabalho pela frente (Foto: Ministério do Esporte)

Das 11 jogadoras que foram ouro em Londres 2012, somente uma atuará fora do Brasil. No masculino, medalhista de prata na Inglaterra, serão nove. Além disto, os times nacionais conseguiram bancar contratações de estrangeiros como Logan Tom, Rodrigo Quiroga, Rolando Despaigne, Sara Pavan e Elitsa Vasileva. Aparentemente, a situação está maravilhosamente boa no vôlei brasileiro.

Mas, infelizmente, este cenário não resiste a uma olhada mais cautelosa. Divulgada no fim do mês passado, a lista de equipes da Superliga 2012/2013 aponta para um panorama que está bem longe do que se espera de um país que desde Seul 1988 não termina uma Olimpíada sem ao menos um pódio no vôlei. Se por um lado o trabalho feito com as seleções é ótimo, por outro muita coisa ainda precisa ser feita com os clubes.

Entre as mulheres, nada menos que três times simplesmente desistiram do vôlei profissional: Macaé, o tradicional Mackenzie e o ex-badalado Vôlei Futuro. Não fosse a entrada do Amil/Campinas, a situação seria ainda pior. Vale lembrar, porém, que este é um projeto que José Roberto Guimarães lutou anos para concretizar. E, se até ele tem dificuldades neste aspecto, imagine o resto dos mortais…

Já no masculino, Vôlei Futuro e Florianópolis deixaram de ser candidatos ao título para virarem meros coadjuvantes, como bem observou Daniel Bortolleto. Perdemos ainda o Montes Claros e o Londrina. De time competitivo, entrou apenas o Canoas.

Mas, minha opinião, o pior desta situação é a concentração geográfica das 22 equipes que disputarão a próxima Superliga: 11 estão em São Paulo, cinco em Minas, três no Rio, duas em Santa Catarina e uma no Rio Grande do Sul. Sim, nada menos que três das cinco regiões do “país do vôlei” não possuem um time sequer no campeonato nacional!

E quais seriam as causas desta triste situação? Listo abaixo alguns palpites:

1 – Times que vem e vão do nada.

Já é quase uma tradição no vôlei: de repente surge um mecenas que monta um mega time, super badalado, que contrata meio mundo e inflaciona o mercado. Todo mundo se empolga, mas ao fim de três temporadas (no máximo), sem grandes títulos (algo normal, pois o nível é altíssimo) ou a equipe acaba ou os investimentos são drasticamente reduzidos e tudo fica por isso mesmo. Claro que ninguém é obrigado a investir no que não dá certo e o capitalismo possui suas próprias regras, mas falta responsabilidade. Sem me esforçar muito, lembro três casos recentes: São Caetano/Blausiegel, Vôlei Futuro e Pinheiros/Sky. A lista, porém, é gigante.

2 – Falta de conhecimento do esporte. E de paciência.

A maior parte destes mega investidores entra no vôlei achando que basta contratar dois ou três craques a peso de ouro que basta. Acontece que estamos falando de um esporte coletivo e, como tal, é preciso ter um grupo equilibrado para chegar longe. Naturalmente, essas equipes não superam projetos bem concretizados como o Unilever, Osasco e Sada e aí a conta do fracasso ainda sobra para os jogadores…

3 – Salários

Temos alguns dos melhores jogadores do mundo e eles obviamente merecem ser bem pagos. Mas, por incrível que pareça, o sucesso internacional das seleções aliado aos investidores sazonais e ao crescimento de mercados como Rússia, Azerbaijão e Turquia criou um problema: está muito caro contratar atletas. Não estou defendendo salários baixos para ninguém, mas é preciso fazer algo para que os clubes menores consigam montar times competitivos com estabilidade e pagamentos dignos, mas que ao mesmo tempo não comprometam o orçamento. Onde estão os governos municipais para ajudar neste aspecto, emendando ainda com incentivo à base? Se isso fosse feito, aposto que muita gente deixaria de ganhar alguns dólares a mais em países distantes só para poder ficar mais perto de família e amigos por aqui.

4 – Concentração geográfica

Conforme visto acima, há uma concentração geográfica absurda entre as equipes da Superliga. Se por um lado as regiões mais distantes do eixo econômico do Brasil possuem a distância como entrave, por outro, projetos como o Montes Claros e o Maranhão Basquete feminino mostram que há um público ávido por esporte de alto rendimento nestes lugares. Onde estão os governantes destas cidades? Será que o Ministério do Esporte e a CBV não podem fazer nada para ajudar estes lugares?

5 – Falta de apelo

Muita gente reclama que passa pouco vôlei em TV aberta. Até dou razão para estas pessoas, mas em parte. Isso porque quem já teve algum contato com os bastidores da TV sabe que, ali dentro, o que vale ão números: audiência, patrocínios, anúncios… E, infelizmente, o vôlei não tem tanto impacto assim para a população brasileira em geral. Apenas um exemplo: “Figurinha carimbada” para quem acompanha o esporte, a Fernanda Garay só começou a ganhar uma certa fama fora do meio com as boas atuações nas Olimpíadas. Culpa, claro, da cultura futebolística do Brasil, mas não adianta só reclamar. É preciso fazer algo para tornar as disputas entre clubes mais atraentes. Até o sempre massacrado basquete brasileiro já tem o seu “All Star Game”, enquanto no vôlei isso não passa de uma ideia. Além disso, a seleção poderia jogar mais por aqui com ingressos baratos para fazer as pessoas conhecerem mais os jogadores.

Claro que os itens acima são apenas sugestões e colocar isso em prática é bem mais complicado do que parece. Muita coisa, aliás, já tem disso feita, ainda que de forma tímida. Entretanto, é importante este assunto ser discutido, caso contrário ano a ano, o país do vôlei vai continuar sofrendo com os mesmos problemas até chegar a um ponto insustentável. A caixinha de comentários aqui e o espaço do Facebook estão abertos.

This article has 12 comments

  1. ENGRAÇADO QUE ELES FALAM EM NUMEROS, AUDIENCIA, MAS VEMOS OS GINÁSIOS SEMPRE LOTADOS, ETC ETC…A CULTURA NOSSA É SO TIME DE FUTEBOL, NUNCA DERAM ESPAÇO QUE O VOLEI MERECE, E O QUE MAIS ACONTECE DAS EQUIPES OU O PATROCINADOR DEIXAR , SÃO A FALTA DE RESPEITO COM ELES, POR COULTAR A MARCA , OU MELHOR O NOME DO PATROCINIO, ISSO SO OCORRE AQUI NO BRASIL PQ FORA NOS GRANDES CAMPEONATOS OS PATROCINADORES TEM SEU DEVIDO RESPEITO
    O BRASIL TEM TUDO PRA SE TORNAR DOS MELHORES CAPEONATOS, SE O PATROCIONIO TIVESSE SEU VALOR…TERIA MAIS PATROCINIO MAIS EQUIPES MASI CONTRATAÇÕES DE BOAS JAGADORAS

  2. Sobre o item 3 (Salários) tenho que discordar quando aponta os governos municipais, estaduais ou mesmo federais como fonte de capital para clubes esportivos. Dinheiro público tem que ser usado para resolver problemas realmente importantes. O que os governos deveriam fazer é facilitar a captaçao de recursos. Hoje a lei de insentivo ao esporte permite que uma parte dos impostos das empresas seja usado para financiar a pratica esportiva e a cultura, mas apenas empresas como nestle, unillever, gerdau e mais meia duzia que são empresas de capital aberto e declaram lucro tem cacife para dispor de mais R$5 milhoes para manter uma equipe competitiva. Facilitar essa arrecadaçao é o papel dos governos. Cabe também a CBV como gestora do volei e das competições criar regras que ajudem a equilibrar a competição. O ranking é uma enganação pois não é basedo em desempenho mas sim em grife dos atletas e interesses dos clubes.
    O que ajudaria a liga seria a criação de um SALARY CAP (teto salárial) nos moldes dos esportes americanos como a NBA ,NFL e MLB, cada equipe pode usar um certo valor para contratações na temporada e cada dollar gasto acima deste teto a equipe paga uma certa multa (que na NBA é de 3 para cada dollar) ou seja se o teto é 1 milhão e Osasco quiser gastar 2 milhões teria que ser depositado 1 para a Gestão da Superliga, no nosso caso esse dinheiro pode ser usado para subsidiar equipes com menor investimento, ou mesmo para pagar salários de estrangeiros para complementar elencos dessas equipes, tornando a competição mais atrativa. A venda das superligas para tv aberta também pode facilitar a captação de recursos, tenho certeza que se houvesse uma pessoa idonea na presidencia da CBV já estariamos vendo volei na Band em horário nobre, mas a rede BOBO com certeza desliza algum para o bolso de vossa Graça para manter o volei confinado ao Sporttv.
    Abraço

  3. Muita gente pode dizer que é injusto com o patrocinador esse teto salarial, mas pior mesmo é a debandada de equipes e desta forma as competições nacionais seriam mais equilibradas e também haveria uma deflação no mercado

  4. NEm em uma Publicação dessa lembram do Nordeste, onde a região é celeiro de grandes jogadoras que hoje servem a Seleção… o Sport Recife, luta, luta por uma vaga na Superliga e a CBV nem Tchun pro Sport…….
    Vamos repensar né? O Nordeste tem muitos frutos para o nosso pais !!!!

  5. Acredito que a análise vá pelo caminho certo, e esta realidade não é exclusividade do voleibol, mas sim do esporte brasileiro como um todo, inclusive um pouco o futebol, que também sofre desta concentração geográfica e tem as competições inchadas (vide Copa do Brasil). Mas a questão é o voleibol. Acho que a primeira questão é de gestão: quem já teve a oportunidade de ver, através do Sr. presidente ou de seus assessores mais diretos, a maneira como se enxerga o voleibol no Brasil, percebe que a situação é um pouco consequência desta visão, na minha opinião, distorcida. Nada pessoal, mas a visão que estou falando é que o Voleibol Brasileiro é um gigante com uma cabeça grande (entenda-se estrutura das seleções) e um corpo pequeno (entenda-se estrutura interna e das EPDs). Do ponto do ponto de vista da física já temos um desequilíbrio visível, pois é impossível se manter sustentada uma estrutura que não tenha uma base sólida. para não me alongar muito, esta visão aliada ao tamanho do País, aos custos, à desorganização das estruturas esportivas e os interesses econômicos maiores que os esportivos já dão uma idéia do problema. este assunto daria um livro. Mas por enquanto é isto>

  6. só discordo do lance da falta de audiência. nas madrugadas em vôlei, a Globo mal chega a 1 ponto. Com vôlei triplica….

  7. Flavia: Concordo, mas acho também que os dirigentes do vôlei precisam se impor mais, nem que seja para chegar a um meio termo. Não adianta ficar só reclamando… Abs!

    marcio: O Salary Cap é algo que realmente poderia ser considerado. Abs!

    Cesar Augusto: Tanto concordo contigo que citei o Maranhão Basquete como uma prova de que as pessoas fora do Eixo Rio-SP-MG também estão sedentas por esporte de alto rendimento. Infelizmente, porém, o Nordeste não tem nenhum time nesta Superliga. Uma Pena. Abs!

    Milton: Ótima comparação! Abs!

    Elderson: O vôlei tem um público apaixonado e expressivo, mas infelizmente ainda não em número suficiente para se bancar constantemente na TV aberta, que é sedenda por números. A madrugada, de fato, é um sinal de que há público, mas o produto precisa ser melho trabalhado para interessar à população em geral. Abs!

  8. Carol, a comparação na é minha, é a visão do Sr. Ari Graça. Quem já fez algum curso na CBV como eu sabe como esta visão funciona. Infelizmente o esporte que mais títulos trás para o Brasil é uma estrutura sem base, um prédio sem fundações. E não deve ficar muito tempo em pé! Se não se olhar para dentro, para os clubes fechando, para técnicos (como eu) e atletas desempregados, em breve “a fonte secará”!

  9. Milton: Chocante essa visão partir da pessoa que tem o poder de mudar isso. Se continuar assim, não me surpreenderia se terminássemos como Cuba, com jogadoras treinando praticamente só para jogar na seleção.

  10. É muito legal olhar para o voleibol brasileiro e perceber que é o Esporte mais organizado do país, o mais vitorioso, o mais profissional, e sem falsa modéstia, “o mais mais”! Mas esta visão é para a mídia e para consumo externo! Para quem faz um mergulho mais profundo na organização estrutural do nosso esporte, vê feudos administrativos que se perpetuam no poder, estruturas clubísticas frágeis e decadentes, atletas se sujeitando a jogar por alojamento e alimentação e quando der sorte uma bolsa de estudos e uma ajuda de custos. Um sem número de técnicos subempregados ou desempregados. Mercado interno ruim, mercado externo saturado….acho que os Maias tinham razão: o mundo está acabando, pelo menos o mundo do voleibol!

  11. Não vejo a CBV como uma confederação tão competente como dizem. Os problemas vistos na Superliga são resultantes dessa incompetência.
    Evidentemente, teve indiscutíveis méritos ao elevar o volei brasileiro ao patamar alcançado. Porém a forma como administra ou organiza nossos clubes e campeonatos não contribui para uma renovação necessária.
    Não compreendo esse ranqueamento de atletas. É totalmente favorável a determinadas equipes ou empresas….(em seus critérios e artigos e na pontuação dos atletas), não oferece instrumentos ou condições aos clubes com tradição de formar nossa base para competir em iqualdade de condições. Essas empresas permanecem enquanto lucram e depois simplesmente deixam de investir no volei. Quando esses clubes formadores também se retirarem, talvez a CBV perceba sua incompetência.
    Por mais que refaça as contas não consigo saber como o plantel atual do Osasco, incluindo as reservas, soma apenas 32 pontos. Mesmo que a Adenízia, por exemplo, não some pontos por atuar pela equipe desde a base. Vejo somente ela nesta situação.
    Temos atletas-promessas sentados no banco de reserva destas equipes, portanto, sem passar por situações de crescimento…. Será que treinar em algumas equipes é mais importante que jogar, realmente, um campeonato, com todas as situações de crescimento que isto possibilita? Será que a CBV não teria instrumentos para direcionar isto neste seu ranking?
    No biênio 2011 / 12, nas 12 competições mundiais (Grand prix, liga mundial, copa de mundo, olimpíadas, campeonatos mundiais juvenil e infanto-juvenil), ganhamos apenas nas olimpíadas no feminino. Bastante inferior aos anos anteriores.
    A CBV precisa repensar e restruturar suas ações…

  12. no último parágrafo, reestruturar e não restruturar