Paradoxo (e justiça) na convocação da Seleção Brasileira

Paradoxo (e justiça) na convocação da Seleção Brasileira

A lista de convocados do técnico Bernardinho para a temporada 2016 da Seleção Brasileira trouxe alguma surpresa, uma ou duas novidades, três nomes em asterisco e o previsível paradoxo de que o time para o Rio-2016 não estará entre os mais jovens, mas boa parte dele disputará uma olimpíada pela primeira vez.

(Dante, Leandro Vissotto e Mauricio Borges estão em observação, e, a rigor, não foram convocados. Atenhamo-nos aos convocados.)

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Dos 18 nomes, apenas Bruno, Wallace, Sidão, Lucão, Murilo e Serginho já tem, ao menos, uma Olimpíada no currículo. Destes, o meio de rede do Sesi, recuperando-se de uma lesão, atuou pouquíssimo na temporada e evoca o espectro de Nalbert-2004 para estar na lista de convocados para o Rio-2016. Só que, diferentemente do capitão em Atenas, Sidão ainda confronta um porém – quatro, na verdade –: os outros centrais tiveram boa atuação na temporada, sendo Lucão titular absoluto, com Isac ganhando muita força depois da última Liga Mundial. Quase dá para dizer que Sidão, um dos remanescentes de 2012, lute por uma vaga com Maurício Souza e Éder. Os outros cinco veteranos, se nada sair do trilho, têm tudo para jogar mais uma Olimpíada.

E os pretensos novatos?

Dos 12 nomes restantes, sete terão 30 anos de idade ou mais durante os Jogos do Rio. Embora se reconheça que a evolução da preparação física prolongue carreiras no esporte etc. e tal, estrear jogadores em Olimpíadas com essa idade está longe da tradição brasileira. De 1964 para cá, só três jogadores do vólei masculino do país participaram da primeira Olimpíada com essa idade: Hernando Leão de Oliveira (1964), Anderson (2004) e Sidão (2012). Apenas três nomes, e os três tinham 30 anos.

Em agosto, se considerar que Lipe, que terá 32 anos, é nome quase certo, e que Raphael e William terão 37, há de se imaginar que ao menos dois jogadores estreiem com idade avançada para um atleta profissional. Além deles, pensando que Evandro (34) e Wallace Martins (33) foram dois dos três opostos convocados e nunca jogaram Olimpíada (nem Mundial), a conta aumenta.

Na posição de líbero, se Serginho, com 40 anos de idade, for de fato convocado para os Jogos, como se espera, será o jogador brasileiro de vôlei mais velho a disputar uma edição olímpica. Se não for ele – pela lista –, a opção é Tiago Brendle, que tem 30 anos e pode aumentar a conta de estreantes nessa faixa etária.

Embora a inexperiência nesse tipo de competição seja relevante, são jogadores que podem driblá-la com a qualidade e a quilometragem que tem – especialmente, os levantadores.

Contudo, há de se considerar que as Olimpíadas são uma competição curta e extenuante, com oito partidas marcadas para um espaço de 15 dias. O período de descanso e recuperação dos jogadores é mínimo – o que, na teoria, deveria requerer um plantel mais jovem do que o que foi convocado.

Se, em Londres-2012, foram cinco jogadores abaixo dos 30, é bem possível (imaginando que Wallace, Isac, Lucarelli sejam convocados, e que Lucas Lóh e Douglas Souza, hipoteticamente, briguem pela quarta vaga de ponteiro), que apenas quatro jogadores da seleção tenham menos de 30 anos no Rio-2016. Será um time ainda mais envelhecido do que o de quatro anos atrás, uma seleção que sofreu com lesões de Leandro Vissotto e Dante, e é uma seleção com óbvia base no time do Mundial de 2014, que passou apuros com Bruno, Murilo, Sidão e Wallace, em algum momento, contundidos.

O ponteiro João Rafael, que se destacou no Molfetta (Itália), e o oposto Renan poderiam, ao menos, ser observados na fase de preparação para a Liga Mundial e, quem sabe, abrir a perspectiva de um time mais jovem? Pode ser. Também dá para reclamar que, idade à parte, Filipe poderia estar na relação e que Riad, que fez uma boa Liga Mundial, merecia uma chance como a que Sidão teve? Também pode ser. Mas a lista, no geral, foi justa.

William e Raphael devem lutar pela vaga ao lado de Bruno; o quarteto do Brasil Kirin (Maurício Souza, Wallace Martins, Lucas Lóh e Tiago Brendle) foi premiado pela boa temporada que teve, principalmente na reta final da Superliga; Evandro ganha mais uma chance, por ter ido bem na fase inicial da Liga do ano passado; Douglas Souza é a principal revelação do vôlei brasileiro desde o último Mundial; os centrais do Sada Cruzeiro (Isac e Éder) tem sido nomes certos nas convocações, principalmente Éder, e tem correspondido, principalmente Isac; Serginho voltou em 2015 quase por aclamação e mostrou por que mereceu o retorno; Murilo, depois de uma Liga Mundial ruim, fez uma Superliga que lembrou bons e velhos tempos; Lipe tem sido convocado com frequência; Wallace é o titular absoluto da saída de rede no ciclo olímpico; Lucão faz uma ótima temporada no Modena e é titular desde 2009; Lucarelli é o melhor atacante do Brasil atualmente.

A crítica em relação à idade elevada e à inexperiência do elenco se deve não à convocação dos jogadores em si. A crítica é necessária para mostrar que, se é verdade que muitos jogadores demoraram a receber a oportunidade que recebem agora, também é verdade que o voleibol brasileiro falhou na renovação.

(Foto: FIVB)