Pelo bem do vôlei, parem a Superliga e boicotem a seleção!

Pelo bem do vôlei, parem a Superliga e boicotem a seleção!

Historicamente, o vôlei brasileiro possui a fama de ser um esporte com atletas combativos. Nos últimos anos, por exemplo, jogadores da modalidade se organizaram em para lutar pelos direitos que julgavam merecer, caso de Jacqueline Silva nos anos 80 e do boicote das principais atletas da seleção feminina a Marco Aurélio Mota em 2002. Agora, diante do maior escândalo da história da modalidade no país, é hora de eles voltarem a agir e muito além do Twitter.

Nesta quinta-feira (11), o Banco do Brasil suspendeu um contrato de patrocínio estimado em 70 milhões após a Controladoria Geral da União (CGU) confirmar irregularidades em mais de R$ 30 milhões em pagamentos feitos pela CBV desde 2010 a empresas de cartolas e pessoas relacionadas a eles durante a gestão Ary Graça, atualmente no comando da Federação internacional (FIVB). No novelo puxado no primeiro semestre pelo jornalista Lúcio de Castro, da ESPN, suspeita-se até que dinheiro destinado a premiação dos atletas tenha sido desviados.

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A CBV nega e diz que pagou até a mais graças a recursos extras de outros patrocinadores. Que os atletas da seleção então se manifestem a respeito do assunto: afinal, eles receberam ou não tudo o que lhes foi prometido? Ficaram satisfeitos com os valores? Claro que o amor à pátria é importante, mas não dá para negar a justiça em os jogadores ganharem financeiramente por defender o time nacional, visto que lá eles estão também trabalhando e os resultados que conquistam se revertem em patrocínios
para os dirigentes.

O assunto premiação, porém, não deve ser o único ao qual os atletas devem se apegar. As denúncias de irregularidades na CBV são muito sérias. A suspensão do patrocínio do Banco do Brasil cria uma situação que, se não for contornada, em breve começará a prejudicar as preparações das seleções, a Superliga e o investimento nas categorias de base.

Para piorar, a FIVB e a CBV resolveram entrar de vez em uma guerra que já gerou suspensões ao Brasil e a abdicação do Rio em sediar as finais da Liga Mundial 2015, com direito a nota oficial bizarra na qual a entidade que comanda o vôlei brasileiro fala como se fosse oposição a Ary Graça. Para quem não sabe, o atual presidente da CBV, Walter Pitombo Laranjeiras foi vice-presidente lá durante 28 anos (!!!).

Depois de tudo isso, não dá para ficar parado. Nomes como Gustavo, Murilo, Bruno, William, Lipe e Ana Moser já usaram as redes sociais para expressar sua revolta e isso é louvável. Técnico da seleção masculina, Bernardinho também se posicionou sobre o assunto, mas infelizmente só falar não vai adiantar nada. Os atletas, técnicos e dirigentes de clubes precisam se unir para exigir melhorias, nem que para isso seja preciso paralisar a Superliga e deixar de defender a seleção. Tais atitudes podem parecer radicais, mas é só assim que algo vai mudar.

Em nível superior, Sada já parece finalista da Superliga

O primeiro passo é que esses atletas se unam e contratem um advogado para analisar o que já foi descoberto, de maneira que eles tenham embasamento jurídico em suas reivindicações e evitem ficar em pedidos bem intencionados, mas genéricos, como “Fim da Corrupção”. Definido isto, é hora de planejar como serão os protestos, começando com coisas mais leves, como camisetas ou faixas de luto. Se necessário, que se faça uma greve até que eles sejam verdadeiramente ouvidos. Ter uma boa comunicação com o público também é essencial, para que todos entendam o motivo de tamanho sacrifício. O mesmo, claro, se aplica ao pessoal do vôlei de praia.

Trata-se ainda de uma ótima oportunidade de começar a fazer da Superliga uma competição independente, a exemplo do que já ocorre no basquete, com os clubes administrando a disputa. Não é de hoje que decisões relacionadas ao principal campeonato de clubes do país geram insatisfação e já passou de hora de agir aqui também.

Às vésperas de uma Olimpíada em casa, o poder está todo com atletas e treinadores. As mulheres bicampeãs olímpicas, que estão longe de ser tão participativas politicamente quanto os homens, não podem usar as câmeras de TV para falar apenas “Beijo, mãe!”. Após entrarem para a história dentro das quadras, os brasileiros do vôlei precisam de coragem para também entrar para a história fora delas.

This article has 2 comments

  1. Dentro das sugestões de mobilização que você apresenta, considero três delas importantíssimas: buscar embasamento jurídico, melhorar a comunicação com o público e – fundamental – criar uma liga administrada pelas equipes (e não pela CBV).

  2. É o momento ideal para a criação de uma Liga. Pena que, à exceção do Sada, nenhum clube parece ter desprendimento para liderar a ruptura necessária. Os times “grandes” temem represálias, seja tendo jogos escondidos nas grades de TV, seja via arbitragem; os times menores não podem se arriscar a perder uma vaga na Superliga via canetada.