Polêmica do ranking de jogadores: saiba os argumentos de cada lado

Polêmica do ranking de jogadores: saiba os argumentos de cada lado

Em meio aos escândalos de Ary Graça na CBV, o vôlei brasileiro também foi recentemente agitado por outra polêmica: o ranking de atletas, que existe há mais de 20 anos, deveria ou não ser extinto? Para ajudar quem gosta de vôlei nesta questão, fui atrás de quem defende cada um dos três lados desta questão. A reportagem ficou longa, mas vale a pena para entender melhor os bastidores do esporte.

O texto foi originalmente publicado aqui, no R7. Deixo para expressar minha opinião em um outro post, a ser publicado nos próximos dias.

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Ranking de atletas é o motivo de nova polêmica no vôlei; veja os argumentos de cada parte

Jogadores e clubes estão em atrito quanto às medidas restritivas para contratação

Pouco a pouco, os jogadores de vôlei do Brasil estão deixando de lado o medo de se expressarem e colocando “a boca no trombone”. Para citar dois casos recentes, podemos falar da insatisfação com a redução dos sets da Superliga de 25 para 21 pontos e as denúncias de corrupção na gestão de Ary Graça na CBV (Confederação Brasileira de Vôlei). E uma nova polêmica estourou na semana passada: o ranking de atletas formulado pelos clubes.

Criado na temporada 1992/1993, o ranking divide os atletas da competição classificando-os de um a sete pontos, de acordo com a performance apresentada por eles. Na atual edição da disputa, cada equipe só pode ter três atletas de nível máximo, além de não poder estourar o limite de 32 pontos em todo o seu elenco. Jogadoras repatriadas ou formadas no clube são exceções e não contam na pontuação geral.

Molico está tão bem que volta de Jaque fica para depois

O objetivo é evitar a formação de “super times” através da ajuda de um patrocinador financeiramente poderoso, desequilibrando a competitividade da Superliga e diminuindo o interesse do público. Mas será que está dando certo? Uma corrente de atletas garante que não; uma parte dos clubes acredita que sim; já uma terceira via acha que grandes modificações são essenciais e urgentes, ainda que alguma forma de controle precise existir.

A própria CBV chegou a sugerir a extinção do ranking a partir do próximo campeonato, mas os clubes não aceitaram. Aliás, a reunião que definiu as diretrizes da temporada 2014/2015 estabeleceu pequenas alterações: entre as mulheres, por exemplo, cada time só poderá ter duas jogadoras sete pontos, uma a menos que atualmente. Em compensação, a pontuação total passou de 32 para 43 pontos no feminino e 32 para 40 no masculino, cuja disputa continuará aceitando três jogadores sete pontos por time.

Para você entender toda esta confusão, a reportagem conversou com várias pessoas e reuniu diversos argumentos defendidos na polêmica do ranking. Assim, cada um pode tirar as próprias conclusões. Leia-os abaixo:

Vertente 1: nada de ranking, deixe o mercado se regular

É a defendida pela maior parte dos jogadores. Nomes importantes do vôlei, como Murilo, Gustavo, Jaqueline manifestaram-se publicamente a favor do livre mercado. Houve até uma campanha #nãoaoranking entre os atletas em redes sociais. As principais explicações são:

Os melhores nomes não são valorizados como deveriam

Fundamental para a conquista da medalha de ouro nas Olimpíadas de Londres, Jaqueline se indignou no Twitter ao descobrir que, mesmo não tendo participado da atual temporada porque ficou grávida, continuou classificada como sete pontos. Desta forma, a não ser que Thaísa ou Sheilla saiam do Molico Osasco, ela não poderá continuar no time que defendeu de 2009 a 2013 e que chegou a inscrevê-la nessa temporada. Pior: os outros dois grandes clubes de vôlei do estado de São Paulo, Sesi e Vôlei Amil, também já contam com duas jogadoras cada em nível máximo.

- Acabaram comigo… E olhe que eu nem joguei essa temporada! Defendi o meu país com unhas e dentes e agora não sei o que fazer.  A Superliga é o único campeonato do mundo que ser “BOM” é RUIM. Os atletas que jogam na seleção só se prejudicam com esse ranking! Eu sou uma delas…

O ranking é uma exclusividade brasileira que diminui o nível técnico

Uma consequência bem clara da saída dos melhores jogadores do Brasil seria a queda do nível técnico do campeonato, conforme observou o ex-central da seleção Gustavo:

- Estão querendo que os principais jogadores do Brasil joguem fora? Só pode ser isso que o ranking vai fazer: deixar a Superliga cada vez pior

Apesar de alguns países terem regras para o controle de contratações, como a limitação do número de estrangeiros em cada time nas ligas nacionais, o ranking de atletas é uma exclusividade brasileira. Ou seja: se fosse bom, teria sido copiado por outros países. Gustavo emenda:

- Não dá pra entender!!

Equilíbrio? São sempre os mesmos times que chegam!

A despeito de toda a promessa de equalizar forças que o ranking possui, há várias temporadas o vôlei nacional é dominado pelas mesmas equipes. Murilo citou o feminino em sua conta no Twitter:

- Osasco x Rio fizeram as últimas oito finais. Cadê o equilíbrio que o ranking promete???

Na verdade, foram tantas finais nos últimos anos que o próprio Murilo se confundiu: Osasco e Rio fizeram nada menos que as últimas nove decisões da Superliga… e, pelo chaveamento dos playoffs, podem fazer de novo este ano!

Vertente 2: o ranking precisa ser mantido, pois é necessário

Este argumento conta com o apoio da maior parte dos clubes. Na última votação feita pelos times, na semana do dia 20 de março, a proposta teve a aprovação de seis das nove equipes votantes no feminino e cinco das oito no masculino, saindo vencedora. Dentre os apoiadores, estão o Sada Cruzeiro, atual campeão mundial masculino, e a Unilever, maior campeã da história da Superliga feminina, com oito títulos. O que eles dizem?

O campeonato é equilibrado sim

Supervisor da Unilever, equipe comandada pelo técnico Bernardinho, Harry Bollmann cita a atual edição da disputa para defender que o objetivo proposto pela lista tem sido alcançado:

- No feminino, independente do Osasco estar invicto, o equilíbrio está ocorrendo na Superliga: nós mesmos estamos em uma série de quartas-de-final difícil contra o Pinheiros (…) Se não pensarmos nas equipes menores, será ruim para o  campeonato como um todo. É pelo ranking que temos um playoff difícil hoje

Ary Graça tenta, tenta, tenta… mas não explica nada!

Na visão dele, o fato de sua equipe e o Osasco terem feito as últimas nove finais da competição tem a ver com outros fatores que não o ranking:

- Os dois times chegaram a tantas finais pelos próprios méritos. Houve anos em que passamos pelas semifinais com facilidade, mas posso te citar pelo menos três temporadas em que poderíamos não ter chegado à final: em 2009/2010, só passamos pelo São Caetano por 3 a 2 na última partida da série; em 2011/2012, a vitória sobre o Vôlei Futuro ocorreu na terceira partida, assim como em 20088/2009, quando os dois primeiros jogos com o Brasil Telecom foram 3 a 2.

Existe mercado para todos os jogadores sete pontos

Ao contrário do que pensam alguns jogadores, Harry acredita que os melhores jogadores do país possuem espaço e condições de continuar jogando no Brasil com remuneração compatível ao seu talento:

- Se esses elencos forem mantidos, a Jaqueline só não poderá jogar em Osasco, Vôlei Amil e Sesi, mas poderá jogar aqui no Rio, no Praia Clube… Hoje, são cinco times com condições de abrigar as oito jogadoras de sete pontos e ainda sobram duas vagas. Agora, se a jogadora não quiser atuar por algum time, é outra situação (…) Apesar do real ser uma moeda desvalorizada frente ao dólar e ao euro, não acho que paguemos maus salários. E lá fora existem outros problemas, como atrasos e dispensas se alguém se lesiona, enquanto o mercado brasileiro é muito seguro neste aspecto.

Para o supervisor do Sada Cruzeiro, Luis Carlos Sales, a saída dos atletas do país não pode ser explicada de forma tão simplista. Afinal, no masculino, dos dez jogadores em nível máximo, seis jogam no país atualmente e outros dois (Bruninho e Leandro Vissotto) só saíram devido à crise que cortou os investimentos no RJ Vôlei no meio da temporada:

- Não consigo afirmar que o ranking é o impeditivo para todos os bons atletas atuarem no país

Com o mercado liberado, jogadoras não badaladas terão problemas para se desenvolver

Como não podem contar com todas as atletas que almejam, os clubes acabam tendo que recorrer a atletas menos badaladas ou em início de carreira, o que acaba criando uma interação com jogadoras talentosas que ajuda no desenvolvimento delas. Diz Antonio Bernardino dos Santos, supervisor do Pinheiros, um dos maiores clubes formadores do Brasil:

- Não podemos ficar à mercê apenas de investimentos econômicos. Ninguém faz base e só contrata para o adulto… assim, eles estão pensando no bem do voleibol ou no seu próprio umbigo? Estamos visando um trabalho integral, em todas as frentes

Vertente 3: é preciso haver controle, mas não ranking

Um meio-termo entre as duas posições foi apresentado pela CBV na reunião e ganhou o apoio de seis do total de 17 times votantes. Entre eles, estão o Molico Osasco, que reúne algumas das estrelas da seleção brasileira, o Vôlei Amil, do técnico da seleção feminina José Roberto Guimarães e o time masculino do Sesi, que também conta com parte considerável dos recentes convocados para o time nacional.

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De acordo com a proposta, não haveria mais uma pontuação total limitadora. Os únicos controles impostos aos times seriam um máximo de jogadores sete pontos e de estrangeiros. Os argumentos de quem defende essa linha são:

Um dos beneficiados acha que não há equilíbrio

Dirigente desde os tempos do clássico time do Leites Moça, Benedito Crispi, supervisor do Osasco, tem opinião distinta da Unilever. Para ele, o fato de as duas equipes fazerem a final há tanto tempo é sim uma prova que o equilíbrio proposto pelo ranking é uma ilusão:

- São as mesmas equipes que estão chegando à final há anos. Essa “fórmula mágica” do ranking ficou defasada com o tempo. E eu estou falando em nome de uma equipe que está na final há muito tempo. Já está no tempo de o ranking ter uma reformulação.

Na opinião dele, o verdadeiro equilíbrio só será alcançado quando todos os times tiverem condições de dispor de orçamentos semelhantes:

- Dificilmente, o time de R$ 5 milhões vai perder para a de R$ 500 mil, especialmente em um esporte técnico como o voleibol. Pode perder um ou dois sets, mas vai virar o jogo.

Os clubes brasileiros perdem força no exterior

Com o ranking, mesmo dispondo de dinheiro, um time brasileiro não consegue contratar quem deseja. Dessa forma, acaba entrando em condições desfavoráveis quando precisa encarar equipes estrangeiras:

- A gente precisa preparar o campeão da Superliga para ele participar bem do Mundial de clubes porque você vai enfrentar equipes da Turquia, do Azerbaijão, etc, que têm jogadoras do mundo inteiro. É uma disputa com seleções do mundo e nós ficamos engessados.

Coincidência ou não, desde que a disputa internacional foi reativada, em 2010, os times do Brasil só saíram vencedores no feminino em uma das quatro edições, justamente com o Molico há dois anos. Já a Turquia possui dois títulos e o Azerbaijão um. No masculino, das cinco edições, quatro ficaram com os italianos do Trentino e uma com o Brasil, através do Sada Cruzeiro no ano passado.

A pontuação pode injustiçar algumas jogadoras

Benê concorda com Jaqueline: por não ter atuado na atual temporada, ela não deveria continuar como uma jogadora de sete pontos (“A última vez que ela atacou uma bola foi em abril do ano passado”). Porém, o dirigente do Osasco avisa que a ponteira não é a única vítima de injustiças causadas pelo ranking:

- Muitas vezes, a atleta de quatro pontos tem pouca diferença com relação a de dois pontos, mas a de dois está mais valorizada porque está todo mundo preocupado com a pontuação. Com as jogadoras não valendo pontos, você vai valorizar as meninas pelo valor técnico e não pelo ranking.

Diante de tantas explicações, cabe ao leitor decidir o que é melhor para o vôlei brasileiro.