Saque fora por A + B

Saque fora por A + B

Com razão, Bernardinho queixou-se da inépcia do saque brasileiro na Liga Mundial e creditou o mau desempenho no fundamento de seus jogadores à “cultura” dos clubes nacionais. Vissotto corroborou, dizendo que “o nível de saque aqui (no Brasil) não é tão alto (quanto no exterior)”. Concordo com um. E concordo com o outro. É raro acompanhar algum jogo da Superliga masculina em que um time consiga, com mais de um sacador ou mesmo com um só, boas sequências nos sets, exceto por demérito do passe adversário. Bem raro. Aliás, tomemos por base a última temporada.

O pior momento na Seleção

Notícias do vôlei? Melhor do Vôlei

Éder, Wallace e Lucão foram, pela ordem, segundo, terceiro e quartos melhores sacadores do campeonato. Vini foi o melhor, mas o excluí momentaneamente da análise, já que ele não está na Seleção.

Os números de Éder: 274 saques em toda a competição, com 29 aces e 57 saques errados. Note que o central cruzeirense ficou a um erro de ter o dobro de pontos concedidos de graça ao adversário em relação aos que conquistou diretamente. Wallace, no entanto, não ficou no quase: 280 saques, 24 aces, 62 erros. Para cada dois pontos que oposto marcou nesse fundamento, o adversário levou cinco para casa sem precisar encostar na bola. E Lucão foi para o saque 297 vezes, conseguiu 25 aces e errou 84 saques. Para cada ponto obtido, o meio de rede do Sesi teve de deixar pouco mais de três para o rival com seu saque.

Difícil, assim, dá para não dar razão a Bernardinho. O saque dos brasileiros não vai bem já a partir dos clubes – ainda que treinado por um estrangeiro, como é o caso do argentino Marcelo Mendez no Sada/Cruzeiro. É muito alto o preço que nossos melhores sacadores pagam para marcar um ponto direto. Com o set de 21 pontos que a CBV adotou, pode-se dizer que os saques de Éder e Wallace renderam, cada um, quase três sets inteiros de graça aos rivais dos mineiros, enquanto Lucão, quatro aos oponentes. Não é pouca coisa.

E também não dá para não discordar de Leandro Vissotto, quando o oposto fala que o nível do saque no vôlei brasileiro é inferior ao estrangeiro. Pela última temporada italiana, Vini, com 35 aces, seria apenas o quinto maior pontuador no fundamento. Em comparação, o cubano Simón, que joga no Piacenza e se aventurou no mundial de clubes pelo Al-Rayyan, fez 37 aces em 283 saques e errou 67 serviços, o que lhe conferiu uma média inferior a dois pontos dados para um conquistado diretamente, e o colocou na quarta posição entre os fazedores de ace. Quarta posição! Zaytsev, para se ter ideia, que tem sido destruidor com o serviço na mão, foi o segundo.

Na Liga Mundial, Éder ainda não estreou. Wallace só jogou duas partidas, sacou 12 vezes, errou cinco, não fez ponto. Já Lucão é o segundo melhor sacador do Brasil, de acordo com os números da FIVB, com quatro aces e 23 erros – quase um ponto ganho para seis de presente ao rival. Contando só jogadores da primeira divisão (grupos A e B), Lucão é o 26º melhor sacador da Liga, atrás, entre os brasileiros, de Lipe, que é o 17º, com cinco aces em 17 tentativas. Pouco, não?

Lógico que as estatísticas são cruéis, distorcem e ocultam fatos por trás de números, e servem para provar apenas aquilo que já se desejava provar mesmo antes de elas chegaram às mãos. Claro que resumir os saques à dicotomia ace e erro é empobrecedor. Esse resumo pálido não diz, por exemplo, o ponto que o bloqueio conquistou por causa de um saque que fez o levantador dar um manchetão, assim como esconde o ponto de ataque conferido pelo time receptor, que não teve dificuldade para passar uma bola de saque parco. Os números têm esse véu, mas é o que temos para ilustrar uma das grandes verdades escancaradas pelo vôlei da seleção na Liga: o saque vai mal.

Entretanto, não gostaria de eleger o saque como único nem maior vilão. O saque está ruim, mas os outros fundamentos também não salvam o time.

Ou alguém dirá que a pontuação baixa do bloqueio brasileiro é somente culpa do saque? Como explicar que, no primeiro jogo contra o Irã, nos dois primeiros sets, o Brasil só tenha feito um único ponto de bloqueio?

E a relação entre passe, levantamento e ataque? A virada de bola do Brasil tem sido um suplício, e isso não pode ser totalmente creditado na conta de Bruno, como se pode ler nas redes sociais, porque Raphael também não consegue resultados muito melhores. A responsabilidade dos dois há de ser partilhada com a recepção imprecisa e o ataque pouco inspirado dos ponteiros.

Pelas as estatísticas – elas, de novo –, levando-se em conta só as oito seleções da primeira divisão, Bruno é apenas o sétimo melhor levantador e Raphael, o nono, enquanto Mário Júnior é só o décimo melhor passador; entre os 20 melhores atacantes do torneio, só há dois brasileiros (Leandro Vissotto e Lucarelli) e Lucão é o único do elenco nacional entre os 10 melhores no bloqueio.

O fato de o serviço brasileiro estar tão mal não esconde a precariedade dos outros fundamentos. Mas, se é a partir do saque que o jogo e os pontos começam, a Seleção Brasileira começou mal neste ano. Mal como nunca esteve numa Liga Mundial, nem como nunca esteve nas últimas três décadas, desde quando o vôlei brasileiro se incluiu entre os melhores do mundo com a Geração de Prata, que tinha no saque “Jornada nas Estrelas” um de seus ícones.

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  1. Saque e principalmente o passe estão ruins, o ataque não dá a segurança necessária na virada de bola, agora é muito fácil o Bernardinho atribuir parte da culpa aos clubes, a Superliga sempre foi assim, o Brasil sempre foi vencedor, só está em um momento muito ruim de sua história, tudo na vida são ciclos, o da SMV está passando e muito em razão da não renovação e pela falta de talentos no esporte. Fico doente quando os comentaristas ficam falando que a seleção está renovada (apenas o Lucarelli de novidade), atribuindo assim as derrotas sofridas. Murilo acabou de voltar de cirurgia, já falou até q sente dores, não tem um substituto? A Sérvia se renovando, os Eua tbm, a Rússia matendo a base, dá gosto de ver essas seleções jogando, e o Brasil? Reitero, o problema do Brasil é a renovação que não ocorreu, principalmente nas pontas, o que é na verdade uma carência do voleibol como um todo, enfim, uma hora essa derrocada iria ocorrer… Torcer para as seleções de base descobrirem jogadores para a categoria adulta.