Sem medo de arriscar

Sem medo de arriscar

No ano passado, aos 26 anos, ela teve sua primeira chance na seleção adulta, sem ter passado pelas seleções nas categorias de base. Titular da equipe B que foi aos Jogos Pan-Americanos 2015, em Toronto, Canadá, Macris Fernanda Silva Carneiro quer espaço entre as 12 atletas que irão disputar os Jogos Olímpicos, em agosto, no Rio de Janeiro. A grandiosidade das Olimpíadas não assusta essa paulista de 1,78m, que completou 27 anos este mês. “Eu não deixo a responsabilidade pesar na minha cabeça. Eu gosto de arriscar, sou ousada”, avisa Macris, melhor levantadora das duas últimas edições da Superliga e que, nesta temporada, lidera uma vez mais nesse fundamento.

Com Dani Lins, do Vôlei Nestlé, na condição de levantadora titular da seleção desde a conquista do ouro em Londres 2012, a disputa tem girado em torno da vaga de substituta. No início do atual ciclo, Claudinha, atualmente no Dentil/Praia Clube, partiu na frente como primeira reserva, mas a atleta perdeu espaço.

Fabíola, surpreendentemente preterida pouco antes de Londres 2012 após ter disputado todo aquele ciclo, voltou à seleção e foi a reserva de Lins no Mundial 2014, mas no ano passado pediu dispensa tão logo saiu a lista de convocadas. Meses depois engravidou. No entanto, o técnico José Roberto Guimarães avisou no início deste ano que pretende esperar seu retorno – ela deve dar à luz em maio e teria três meses para entrar em forma.

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Se Fabíola não for, quem vai ao Rio 2016 além de Lins? “Todas têm seus méritos e total condição de estar na seleção. Acredito que vai estar lá quem se enquadrar melhor ao estilo de jogo pretendido pelo técnico”, pondera Macris, na sua primeira temporada pelo Brasília Vôlei, que terminou a fase de classificação da Superliga em quinto lugar e enfrenta o Vôlei Nestlé nas quartas de final. O clube da capital federal é seu primeiro fora do estado de São Paulo, ela que havia jogado por São Bernardo, São Caetano e Pinheiros.

Prêmios e elogios são uma constante na carreira de Macris. O treinador Zé Roberto já afirmou que ela é extremamente veloz, com uma ótima defesa, bom posicionamento e que chega em bolas que, muitas vezes, você não acredita que ela vá chegar. Numa entrevista ao Saída de Rede, o técnico do Rexona e da seleção masculina, Bernardo Rezende, também elogiou a agressividade de Macris.

“Eu arrisco mesmo quando o passe não é bom e tenho que levantar de manchete ou com uma mão. Mas as atacantes também me passam confiança”, diz a levantadora do Brasília Vôlei.

Sobre sua primeira experiência internacional, Macris conta que sua expectativa de algo longe da realidade foi substituída pela tranquilidade. “Eu nunca havia jogado pela seleção, aí fui ao Pan, esperava algo fora do normal, mas vi a quadra, a rede, a bola, era tudo ao qual eu estava acostumada”, ela relembra sorrindo.

O eventual ajuste ao jogo de atletas com as quais ela nunca dividiu espaço na quadra também não é um problema, segundo Macris. “No ano passado tivemos um período muito curto de treino com a equipe que foi a Toronto. É complicado porque quando a gente precisa fazer um jogo rápido, é necessário muito entrosamento. Algumas meninas não tinham características de jogar com bolas rápidas, como a Joycinha ou mesmo a Natália, que não foi ao Pan, mas só agora está acelerando mais no clube dela. O Zé Roberto insiste muito para que o jogo seja mais rápido. Agora, esse período de quatro meses entre o final da Superliga e o início dos Jogos Olímpicos é suficiente para que todo o time se ajuste à velocidade”.

 

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 Legado de craques

O fã brasileiro de vôlei ficou mal acostumado quando o assunto é levantadora na seleção feminina. Há décadas o país conta com grandes nomes, reconhecidos ao redor do mundo. Ainda nos anos 1980, quando a seleção brasileira integrava o segundo escalão, Jacqueline Silva dava o tom em grande estilo. Ela participou das Olimpíadas pela primeira vez em Moscou 1980, aos 18 anos, mas foi quatro anos depois que brilhou com mais intensidade, sendo escolhida a melhor levantadora em Los Angeles 1984, apesar do modesto sétimo e penúltimo lugar do Brasil.

Jacqueline migraria para o então incipiente vôlei de praia, onde seria campeã na estreia da modalidade como esporte olímpico, em Atlanta 1996, ao lado de Sandra Pires. Em 2006 Jacqueline Silva entrou para o Hall da Fama.

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Nos anos 1990 a seleção feminina deu um salto e passou a integrar a elite, tendo dois nomes como sinônimo de excelência na posição: Fernanda Venturini e Fofão. A primeira estreou na seleção adulta em 1988, como saída de rede, convertendo-se em levantadora a partir do ano seguinte e conquistando a condição de titular em 1990, na disputa com Ana Richa. Fofão chegou em 1991, como reserva de Venturini, e essa dupla fez história.

Venturini foi vice-campeã mundial em 1994, vice na Copa do Mundo 1995 e conquistou o bronze nas Olimpíadas de Atlanta 1996. Disputou sua última competição com a camisa da seleção brasileira na campanha do quarto lugar em Atenas 2004.

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Fofão esteve presente nos torneios mencionados acima, na condição de suplente, mas com a saída de Fernanda Venturini da seleção após o quarto lugar no Mundial 1998, ela foi a líder da equipe na conquista do ouro no Pan 1999 (Cuba, derrotada na final, tentava seu oitavo título consecutivo) e ajudou o time a obter a medalha de bronze na Copa do Mundo 1999 e nas Olimpíadas de Sydney 2000.

Venturini voltou à seleção somente em 2003, após cinco anos, e foi vice-campeã da Copa do Mundo naquela temporada. Com a ausência de Fernanda após Atenas 2004, Fofão voltou a ser titular. Foi vice-campeã do mundo em 2006, novamente vice na Copa do Mundo 2007 e finalmente, nas Olimpíadas de Pequim 2008, aos 38 anos, teve seu maior momento nas quadras, sagrando-se campeã olímpica na sua despedida da seleção em jogos oficiais.

Tanto Fernanda Venturini quanto Fofão tiveram reconhecimento internacional, com vários prêmios individuais. Venturini foi a única brasileira entre as finalistas na eleição da melhor jogadora do século XX, promovida pela FIVB em 2000 e vencida pela central cubana Regla Torres. A levantadora Fofão, que parou de jogar no ano passado, aos 45 anos, entrou para o Hall da Fama meses depois da aposentadoria.

Em Londres 2012, Dani Lins teve excelentes atuações a partir da memorável partida contra a Rússia, nas quartas de final, quando o Brasil salvou seis match points. Na final contra os EUA, favorito ao ouro, depois de um primeiro set desastroso, Lins ajudou a orquestrar a vitória brasileira.

É devido a esse legado que o torcedor espera sempre muito das levantadoras da seleção. Uma posição que deu ao país craques, algumas geniais, e que ajudou a estabelecer o status do vôlei feminino brasileiro como um dos melhores do mundo.

(Fotos: CBV e FIVB)