Só faltou o Olimpo

Só faltou o Olimpo

Quando os melhores anos da Seleção masculina da Itália acabaram e o monopólio do voleibol foi passado adiante, a contabilidade era favorável como poucas vezes foi para algum time na história. Quatro títulos continentais entre 1989 e 1999, oito ligas mundiais conquistadas entre 1990 e 2000, uma Copa do Mundo, uma Copa dos Campeões, um tricampeonato mundial. Dominante, a Generazione di Fenomeni não encontrou muitos adversários dispostos a contestar sua hegemonia. Mas os encontrou. E eles estavam justamente no torneio mais cobiçado, os Jogos Olímpicos.

Dizem as epopeias que a guerra de Troia se arrastou por dez anos porque a sorte das batalhas dependia do humor dos deuses, que pendia para um lado ou para outro. Pois na batalha pelo Olimpo, o Vôlei Italiano teve o infortúnio de ver os deuses penderem para o lado rival por uma década inteira. Era como se à Itália fosse permitido conquistar as quadras do mundo profano, mas não o monte sagrado de Zeus.

Contar a história dos anos 90 do vôlei da Itália ficaria incompleto se o relato cuidasse apenas das vitórias. A poesia de suas derrotas é vultosa, adorna seus troféus, inspira lendas, é das mais belas das injustiças que o esporte produziu.

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Pouca gente se atrevia a dizer que a Itália não sairia de Barcelona, em 1992, sem uma medalha de ouro pendurada no pescoço. O currículo do time incluía o título mundial de 1990 e o das Ligas Mundiais de 1990 e 1991. O senão era ter perdido o europeu de 1991 para a URSS, mas, em 1992, com o país esfacelado, competindo com a Bandeira do Comitê Olímpico Internacional e atendendo pela sigla CEI, não dava para esperar muita coisa dos ex-soviéticos.

De fato, a CEI não foi adversária. A sorte da Itália, em 1992, foi decidida num jogo dramático contra a Holanda, nas quartas de final. A Itália foi primeira colocada de seu grupo e a Holanda, quarta. O irônico é que até as Olimpíadas anteriores, esse confronto não ocorreria, pois só os dois primeiros de cada chave avançavam de fase. Entretanto, a partir daqueles Jogos de Barcelona, instituídas as quartas de final no torneio de vôlei masculino, o campeão de um grupo estava à mercê da eliminação antes do jogo semifinal. E foi o que aconteceu à Itália.

Num jogo marcante, porque eliminou a seleção favorita e mudou uma regra do vôlei, a Holanda despachou a Itália em cinco sets, com 17-16 no tie break. Depois daquele torneio, a FIVB mudou mais uma vez a regra de pontuação, acabando com o limite de 17 pontos para o quinto set, deixando o tie break no formato que tem atualmente.

O fato é que os campeões mundiais voltaram de Barcelona somente com um quinto lugar para colocar no currículo. Para piorar, o Brasil emendou a medalha de ouro olímpica com um título na Liga Mundial de 1993. Mais do que uma ameaça à supremacia italiana, havia até quem dissesse que o vôlei brasileiro superasse o italiano.

1992 Brasil

Entretanto, em 1994, tudo voltou ao eixo. O Brasil fazia uma campanha extraordinária na Liga Mundial, invicto, tinha metido um 3 a 0 na Itália, na segunda fase, mas aí caiu para Cuba nas semis. A Itália acabou levantando a Liga Mundial em casa e aquela geração do vôlei brasileiro não conquistou mais nenhum título relevante.

Ainda hoje, a campanha brasileira no Campeonato Mundial da Grécia/1994 foi a mais fraca de 1982 até hoje. Depois de uma primeira fase complicada, com derrota para os EUA e vitória no sufoco contra a Argentina (tendo de virar um 2 a 0), o Brasil precisou jogar as oitavas de final contra o Canadá para só depois, nas quartas de final, enfrentar Cuba e cair em cinco sets, como fora nas semifinais da Liga daquele ano. No torneio de consolação, o Brasil conseguiu o quinto lugar.

Cuba, nas semifinais, foi rival da Itália e perdeu por 3 a 1, mesmo placar da final de 1990. A Itália chegou desconfiada à Grécia, teve uma derrota na primeira fase para o Japão, mas vitórias sobre a Rússia, nas quartas, e sobre Cuba, nas semifinais, trouxeram a força necessária para a Azzurra encarar a Holanda na decisão.

Vice-campeões olímpicos em Barcelona, os holandeses não tiveram a vida facilitada no mundial. Uma derrota para os cubanos na primeira fase os levou a uma partida de oitavas de final contra o Japão. Mas, quando desbancaram o time da casa na fase seguinte e tiraram o então único time invicto do torneio, os EUA, nas semifinais, chegaram à final, dois anos depois de decidirem as Olimpíadas.

Se a final entre Itália e Holanda tinha uma carga de revanche para os italianos, o peso virou combustível e o time conquistou o bicampeonato. Com uma vitória por 3 sets a 1 (15-10, 11-15, 15-11, 15-1), os italianos repetiram o que os russos fizeram em 1949/52, 1960/62 e 1978/82, conquistando dois títulos mundiais consecutivos.

1994 Italia

No outro ano, italianos e holandeses voltaram à Grécia, dessa vez, para decidir o título continental. Uma nova vitória da Itália parecia indicar que seu domínio estava definitivamente restabelecido e que, em Atlanta, o time poderia ser compensado do insucesso de Barcelona. Engano.

Se o time de Julio Velasco achava que ter vencido, em anos consecutivos, um título mundial e um europeu na Grécia o fazia mais próximo do Olimpo, equivocou-se. Grande devia ser a ira de Zeus.

Pois em 1996, o Vôlei Holandês estava mais forte do que jamais estivera. Primeiro, venceu a Liga Mundial em casa, batendo a Itália em cinco sets. Semanas depois, o time se sagrou campeão olímpico vencendo novamente a Itália por 3 a 2, num jogo que pode ser considerado o melhor do vôlei da década.

1996 Holanda Itália

Difícil, também, não reconhecer que o time de Ron Zwerver e Blangé não tenha sido o segundo melhor dos anos 90: um ouro e uma prata olímpicas, um vice-campeonato mundial, uma Liga Mundial em 1996, um título europeu em 1997.

À Itália, restou a constatação de que a Geração dos Fenômenos envelhecia, o tempo não teria tanta paciência para reservar uma medalha de ouro olímpica ao melhor time da década. Os remanescentes do campeonato de 1990 – Tofoli, Giani, Gardini e Bracci – chegariam as Olimpíadas de 2000 com 30 anos de idade ou mais. Aquele ciclo olímpico para Sydney tinha todas as prerrogativas de última chance.

Não bastasse a idade avançada dos medalhões, Julio Velasco trocou o comando da seleção masculina pela feminina. Bebeto de Freitas assumiu seu lugar e foi para o mundial de 1998, no Japão, com a missão de conquistar o terceiro título consecutivo e manter acesa no vôlei italiano a esperança da chama olímpica.

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O regulamento do mundial do Japão fez o torneio ser o mais longos da história do vôlei. Jamais algum time havia disputado 12 partidas num mundial de vôlei e, naquele ano, disputou.

A primeira fase tinha 24 times divididos em 6 grupos. Os dois primeiros colocados e os quatro melhores terceiros avançavam à segunda fase, onde os 16 times restantes foram agrupados em dois grupos de oito times, quando, então, cada seleção jogou mais sete vezes. Os dois primeiros passavam às semifinais etc.

O resultado disso é que, depois das duas primeiras fases, o Brasil, treinado por Radamés Lattari Filho, era o único time invicto e iria pegar a Itália, nas semifinais. A Itália tivera um tropeço contra a Iugoslávia e isso precipitou o duelo entre a geração que se despedia do topo do vôlei e a que se preparava para sucedê-la.

Com Ricardinho, Gustavo, André Heller, Giba, Nalbert e Mauricio no elenco, o Brasil perdeu para a Itália no tie break. Na decisão da medalha de bronze, contra Cuba, nova derrota impediu que o vôlei brasileiro terminasse a década com um medalha em mundiais que fosse.

Do outro lado da rede, na final, a Itália tinha a Iugoslávia pela frente. Depois de surpreenderem com uma medalha de bronze em Atlanta, os bálticos chegaram a uma final de mundial pela primeira vez. Curiosamente, os títulos da Itália foram contra seleções que também nunca tinham decidido o título. E, como das outras vezes, deu Itália, por 3 sets a 0.

O terceiro vídeo, a partir do 21 min., passa um compacto do jogo.

Contudo, se foi a terceira vez seguida que a Itália enfrentou um estreante em finais e venceu, as Olimpíadas de Sydney foram as segundas consecutivas em que o vice-campeão do mundo acabou com a ilusão dos italianos de que aquela fosse a vez do ouro.

2000 Iugoslávia

Contra uma Itália já sem Bebeto de Freitas, numa semifinal definida em três sets, os iugoslavos despacharam os rivais e partiram para conquistar a medalha de ouro, relegando a medalha de bronze à Generazione di Fenomeni. Que se despediu sendo a melhor seleção de seu tempo, mas preterida pelos deuses olímpicos.