Teorias para conspirar

Teorias para conspirar

É difícil dizer em que ponto começaram as desconfianças em torno de resultados surpreendentes no vôlei. Surpreendentes ou convenientes. Aquele Brasil x Bulgária do mundial masculino de 2010 foi só o episódio mais escandaloso, pois envolvia o melhor time da época, mas não foi o primeiro e, certamente, não foi o único jogo em que isso ocorreu. Pois naquele mesmo mundial da Itália, um dia antes de Théo ser escalado como levantador, a Rússia também teve uma derrota simpática contra a Espanha. E no mundial feminino de 2002, a China escalou um time reserva contra a Coreia do Sul, porque estava claro que enfrentar aquele time inexperiente de Marco Aurélio Motta, nas quartas de final, era melhor do que encarar a Itália – e acabou sendo.

Noticiário do vôlei? Melhor do Vôlei

Liga Mundial ou Copa dos Campeões?

E em Jogos Olímpicos? Teria sido sorte dos EUA a derrota para o Brasil, na primeira fase do torneio masculino de 1984, por 3 sets a 0, enfrentando, assim, o Canadá, e não a Itália, nas semifinais? O 3 a 0 que o Brasil recebeu de volta na final, com direito a não marcar mais do que sete pontos em set algum, talvez sirva como resposta.

O troco, se é que se pode chamar assim, veio em 2004, quando o Brasil escalou um time misto na última rodada, perdeu para os EUA por 3 a 1, e colocou Rússia ou Sérvia no caminho da Itália nas semifinais (acabou sendo a Rússia), enquanto agendou para si outro embate contra o time de Doug Beal nas semis. Nunca houve nada que atestasse que o Brasil tenha perdido essa partida por vontade, mas o técnico ianque gritou tanto que, para as Olimpíadas seguintes, a FIVB mudou a regra do chaveamento das quartas e semifinais: um sorteio definiria o confronto entre segundos e terceiros nas quartas e quais vencedores desses dois jogos enfrentariam os vencedores das partidas entre primeiros e quartos.

Também não dá para esquecer que, no último pré-olímpico feminino, o placar de Japão x Sérvia, na última rodada, foi exatamente do que as duas seleções precisavam para se classificarem para Londres e eliminarem a Tailândia. E que, nos Jogos, Coreia do Sul e China levaram o jogo para o tie break, obrigando o Brasil a vencer a Sérvia e torcer por uma vitória dos EUA contra a Turquia – o que, como se sabe aconteceu.

(E não é que, no fim das contas, a peroração termina com um exemplo de honestidade, de esportividade? Ou não foi exatamente isso a vitória dos EUA sobre a Turquia?)

Esse prólogo foi para chegar às finais da Liga Mundial.

Com dois grupos de três times, formato que prevalece desde 2006, a matemática ensina que um dos times de cada chave folga na última rodada, o que, não raro, pode significar torcer pela hombridade dos rivais.

Neste ano, no grupo A, o Brasil esteve à mercê de uma combinação entre Irã e Polônia que poderia tê-lo eliminado do torneio. Mas ninguém combinou resultado, a esportividade prevaleceu e o Brasil passou. Pois agora veja em que situação o Brasil pode se meter: digamos que Rússia vença o Irã na primeira rodada por 3 sets a 1 (normal, né?) e que o Brasil, que esteve bem perto deste placar na final das Olimpíadas e na Copa dos Campeões, consiga um 3 a 0 sobre a Rússia, no dia seguinte. Se o Brasil perder para o Irã por 3 a 1 na última rodada, o que é possível, dado o equilíbrio nos jogos entre os dois times na primeira fase, dirão que o Brasil perdeu de propósito para se classificar junto com o Irã e se livrar da Rússia?

No outro grupo, não é provável, mas é possível que a Itália entre pressionada na última rodada para vencer a Austrália. Se, num resultado possível, os EUA vencerem a Itália amanhã por 3 a 0 e perderem para a Austrália pelo mesmo placar na quinta-feira (cuidando para manter um saldo positivo nos pontos), os americanos obrigariam a Itália a vencer a Austrália em sets diretos para se classificar, e ainda precisando fazer uma boa diferença de pontos nas parciais.

Seria algo parecido com o que a Rússia (provavelmente) fez em 2013. Depois de vencer o Brasil por 3 a 2, perdeu misteriosamente para o Canadá por 2 a 3 – depois de ter vencido os dois primeiros sets – dando sobrevida ao time canadense na última rodada e forçando o Brasil a vencer os canadenses sem tie break, na última rodada, para evitar uma disputa tripla nos pontos average – o Brasil evitou tudo isso fazendo 3 a 0.

Há outra possibilidade: se a Itália vencer os EUA na primeira rodada, o que é possível (ou provável, isso fica ao critério do freguês), os italianos podem chegar à última rodada sabendo do que precisam para fugir de um confronto contra a Rússia na semifinal. Imagine-se, nesta hipótese, que a Rússia vença o Irã e perca para o Brasil. Com que interesse a Itália vai encarar o jogo com a Austrália, se uma derrota pode evitar um duelo desagradável no sábado?

Seria leviano acreditar que seja mais fácil haver combinação de resultados do que jogos à vera, em Florença. Não dá para duvidar previamente da honestidade de ninguém. E, mesmo que resultados surpreendentes ocorram – uma eliminação russa ou italiana nos moldes dos exemplos acima –, não significa, necessariamente, que Irã e Austrália tenham sido favorecidos. Porque, se for assim, seria melhor que time médio ou fraco nem jogasse, já que vitórias suas seriam creditadas à conveniência de um grande.

Contudo, quando a FIVB cria uma tabela que possibilita a falcatrua, muita coisa é possível. Inclusive, desconfiar das zebras.

Você acredita em bruxas?

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  1. Excelente texto! De todas as entregadas,  só a do Brasil em Atenas tinha me deixado em dúvida. Mas depois do jogo contra o Irã, ontem, constatei que em ambos os casos aconteceu a mesma coisa.

    O Bernardo nos dois casos, trocou os ponteiros e um dos centrais para dar ritmo de jogo, já que estava classificado. Em todo caso, eu não o culpo, já que ao que ficou evidenciado aqui, é um expediente comum a todas as grandes seleções.