Time e seleção

Time e seleção

O Belogorie Belgorod trouxe para o Brasil a faixa de campeão europeu, o favoritismo que dizem ser incômodo, a tradição do voleibol russo. O Al-Rayyan, um convite da FIVB, o estigma da zebra, o anonimato do vôlei árabe.

Para o campeonato, o Belgorod tinha Travica, Grozer, os campeões olímpicos Muserskiy, Khtey e Tetyukhin. Um elenco invejável, que jogou junto a temporada inteira. Em contrapartida, o Al-Rayyan contratou, em cima do laço, Kaziyski, Raphael, Alan e Simón, e era claro haver quem perguntasse se não era um tremendo desperdício de petrodólares alugar um elenco desses, primando pela qualidade individual e desprezando totalmente o entrosamento. Entrosamento que faz, por exemplo, seleções nacionais sofrerem em começo de preparação para seja lá que torneio for.

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Quando a bola subiu, o vôlei dos russos foi econômico, preguiçoso, era vôlei que concedia um set aqui, outro ali. Mas eles encararam Cruzeiro e UPCN com seriedade e não passaram susto, embora até tenham perdido um set para cada um. Já a legião estrangeira das arábias eliminou o Trentino na primeira fase e o time da casa nas semifinal, e seria, sim, uma adversária que o pessoal do norte deveria respeitar.

Se as coisas não estivessem indo bem, os ex-soviéticos tinham gente no banco capaz de substituir os da quadra, melhorar o jogo, talvez. Do lado qatari, por toda a competição, só houve alguma substituição em duas partidas e sempre uma só, porque, convenhamos, quem, no banco, faria melhor do que os estrangeiros fizeram?

Na final, o Belgorod começou devagar e o Al-Rayyan, com Simón.

Se os europeus fizeram nove pontos de ataque na primeira parcial, Simón, central, sujeito que dá lugar ao líbero em quase metade do tempo de jogo, fez nove pontos também, sendo três de saque. O placar de 25 a 16 foi uma surra.

Quando no fim do segundo set, com o Belgorod já igualado no marcador, tomei emprestado do futebol um ensinamento de Johan Cruyjff. Ele disse que o pior que aconteceu ao time da Holanda de 1974 foi ter feito 1 a 0 na decisão da Copa do Mundo, com um minuto e meio de jogo. Ali, diz, o time se achou melhor do que era de fato. Acabou vice-campeão. E o Al-Rayyan, depois do voleibol total do início, aquietou-se, diminuiu a precisão do saque, escondeu o bloqueio, os estrangeiros, a empolgação. Sucumbiu.

Não há muito o que dizer dos três sets que definiram o vencedor. Muserskiy pontuou seis vezes no bloqueio, Grozer marcou 15 vezes no ataque e o Al-Rayyan, que precisava urgentemente melhorar o passe, percebeu que contratara quatro titulares e nenhum reserva.

Quando chegar à Rússia, o Belogorie Belgorod terá consigo o troféu de campeão mundial de clubes. Só times italianos e o Cruzeiro têm um igual. E terá, também, a sensação de que se cumprira o dever de ganhar, como compete a um time russo que vá representar o vôlei do país.

Quando chegar ao Qatar, o Al-Rayyan não terá um monte de jogadores que defenderam o clube em Minas. Mas terá o nome gravado na história como vice-campeão mundial, honraria que jamais coube a nenhum clube fora da zona euro-sul-americana. Foi a seleção que perdeu para um time. E que time! – uma seleção.

E você, o que achou da vitória do Belgorod? E da participação do Al-Rayyan?