Um deca merecido. Merecido até demais

Um deca merecido. Merecido até demais

Era um clássico (ou “o clássico”, como prefiro chamar), era o “jogo de sempre” (como muitos chamaram), era o time do Rio de Janeiro de um lado e o de Osasco do outro. Contudo, os pratos da balança jamais ficaram paralelos na final da Superliga feminina de Vôlei deste ano. O Rexona-AdeS venceu com facilidade e justiça assustadoras. E o mais gritante nesse merecimento inquestionado é que não foi só pelo jogo que valeu o troféu, mas pela campanha da temporada inteira e pela gradação atingida na conquista deste terceiro título levantado consecutivamente – o décimo na contabilidade geral.

Depois de perder para o Sollys/Nestlé na final, em 2012, num jogo tão pouco equilibrado quanto o deste ano, o time do Rio experimentou, nos dois campeonatos seguintes, dificuldades reais, palpáveis, dessas que vão além das do dia a dia e pelas quais todos os atletas e equipes profissionais passam, mas que só se exaltam na biografia dos vencedores.

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Na temporada 2012/13, o então Unilever teve a melhor campanha e foi só por força do regulamento que fez a final contra o Sollys em São Paulo. O time anfitrião abriu 2 sets a 0, mas o Unilever reagiu e voltou com o troféu na bagagem. Superaram-se as adversidades da batalha em campo inimigo e da derrota iminente. No campeonato seguinte, depois de seis derrotas e do terceiro lugar na fase inicial, o Unilever chegou à decisão vencendo o Vôlei Amil, que o vencera duas vezes na competição, e se sagrou campeão contra o Sesi. Se o jogo final não foi dos mais difíceis, a campanha levava a crer que o título não estava próximo. Em 2015, não.

A superioridade carioca no domingo foi abissal, maior do que fazem parecer as parciais da contenda. Pois como dizer que o primeiro set tenha sido remotamente equilibrado, se o 25 a 21 a favor das campeãs sucedeu um inesperado 22 a 13? E o segundo, quando o máximo que o Molico/Nestlé conseguiu, depois de estar 14 a 19 abaixo, foi perder pela diferença mínima? O terceiro set até prometia equilíbrio, os adeptos do time de Osasco e das partidas longas devem ter esfregado as mãos quando as paulistas abriram 11 a 7, mas abandonaram a ilusão de uma virada ou, ao menos, de um jogo em quatro sets, quando as rivais, de 13 a 15, viraram para 19 a 15.

O jogo, assim, refletiu com nitidez a campanha completa do Rexona-AdeS. Exceto por um ou outro cochilo, por um ponto desperdiçado em São Luís, uma derrota sem consequência na última rodada e alguns sets intrincados no segundo jogo das quartas e no primeiro jogo das semifinais, a trajetória das campeãs não teve porém.

Um ponto que poderia ser discutido é que o Rexona-AdeS terminou o campeonato sem encontrar uma oposta que convencesse. A missão de jogar na diagonal de Fofão foi, primeiro, de Andréia, depois, de Bruna, de Natália e, finalmente, de Regiane. Nenhuma delas teve consistência. Mas até isso ficou em segundo plano, já que o importante, na reta final, não foi a saída, mas a entrada de rede, com Natália sendo a bola de segurança e mostrando um vôlei que raramente havia mostrado neste ciclo olímpico.

Para a temporada que vem, com a aposentadoria de Fofão, é improvável que o Rexona-AdeS não precise solucionar questões e vencer largos desafios para conquistar o 11º título. Mas se a concorrência acreditar que isso seja suficiente para emparelhar as forças, é de se esperar somente um campeonato nivelado, o que é ruim para o Voleibol Brasileiro, independentemente de quem erga o troféu.