Vacilo do marketing e regressiva encoberta

Vacilo do marketing e regressiva encoberta

Pouca gente, na última quinta-feira, atentou para o fato de que faltavam 100 dias para a abertura do Campeonato Mundial masculino da Polônia. Também pudera: nem os sites e perfis oficiais da Federação Internacional de Vôlei (FIVB) repercutiram a data com a deferência que a contagem redonda merecesse. A bola fora ganhou mais evidência ainda quando comparada às ações patrocinadas pela Federação Internacional de Basquete (Fiba), na internet, para promover o mundial masculino da Espanha, que começa justo no mesmo 30 de agosto. Quem gosta do vôlei deve ter notado que a grama do vizinho estava mais verde.

Notícias do vôlei? Melhor do Vôlei

A FIVB publicou, no perfil do Mundial masculino no Twitter, fotos das cidades-sede polonesas, assim como a Fiba fez com as espanholas. A diferença é que as imagens exibidas pela federação de Ary Graça estavam mais para catálogo de turismo do que para ação de marketing esportivo. Os casarões antigos em Wroclaw, o passeio marítimo em Bydgoszcz, a vista panorâmica de Katowice e gente soprando bolhas de sabão em Gdansk nada têm a ver com vôlei, são imagens que até podem atrair turistas, mas dificilmente, torcedores.

Nas imagens da Fiba, não. A paisagem escolhida de cada cidade estava repleta de bolas de basquete nas cores que lembram as da arte de Juan Miró. Isso não chegou a ser novidade no mundo do esporte, já que o próprio Miró havia pintado um dos cartazes para a Copa do Mundo da Espanha de 1982, mas a opção pelo sincretismo foi correta: numa fotografia e de uma vez só, percebe-se Barcelona ou Granada ou Sevilla ou Madrid ou Bilbao ou Gran Canaria, e, sobretudo, nota-se basquete na Espanha, que é, afinal de contas, a razão da contagem regressiva.

Outro cochilo do vôlei revelado pela comparação entre as duas contagens está na escolha das personalidades para promoção dos eventos na última quinta-feira. A Fiba teve garotos-propaganda do naipe de Rafael Nadal, Penélope Cruz e Pedro Almodóvar, três figuras espanholas facilmente reconhecidas em qualquer parte do globo – logicamente, ficaria mais difícil fazer o mesmo em relação à Polônia. Além disso, a entidade publicou selfies de jogadores que provavelmente estarão em quadra defendendo suas seleções, como se integrados no clima de expectativa para o torneio.

A FIVB, por sua vez, publicou uma entrevista com Miroslaw Przedpelski. O homem de nome quase impronunciável é presidente da Federação Polonesa de Vôlei, aparece numa foto (centro) tirada em janeiro, durante o sorteio das chaves do mundial, e se diz satisfeito com a organização do mundial e com a venda de ingressos. Embora a aposta na informação seja sempre boa, o texto ficou um tanto trivial. Nem precisava de um motivo em especial para a matéria ser veiculada.

Com uma entrevista a um dirigente local e fotografias que não dizem nada ao vôlei, dá até para dizer que a data foi quase ignorada. E não deveria.

Não bastasse o apelo natural de um campeonato do mundo, a partida inaugural do torneio será no Estádio Nacional de Varsóvia, com todos os 58 mil ingressos já vendidos. Isso não deveria ter passado despercebido, já que a contagem regressiva é justamente para esse jogo, entre Polônia e Sérvia. Eram 100 dias para que um estádio de futebol se transformasse em estádio de vôlei, com lotação garantida, e isso ficou em branco nas redes sociais. Das duas causas para essa invisibilidade, a inépcia do marketing do vôlei pode ter surpreendido, mas não a concorrência do basquete.

Não bastando os dois mundiais estarem marcados para a mesma época, a FIVB, em janeiro deste ano, resolveu antecipar o início de seu torneio de 3 de setembro para 30 de agosto, a data coincidente com a da abertura do basquete na Espanha. Se a medida propiciou mais dias de intervalo para as seleções durante o campeonato, por outro lado, colocou o início do mundial da Polônia em choque com um esporte que tem, indiscutivelmente, mais adeptos mundo afora.

O primeiro sintoma da desvantagem nessa luta por espaço nas mídias foi francamente percebido nesse 22 de maio, que deveria ter sido um marco para duas contagens regressivas que terminam em 30 de agosto, mas pareceu ter relevância só para um dos eventos. O outro, o do vôlei, tem pouco mais de três meses para conquistar audiência e garimpar espaço no noticiário especializado. Mas agora sabe que desperdiçou um dia importante.